Guilherme Fiúza escreve

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BRASIL COVARDE

 

Em defesa de José Sarney, Collor mandou Pedro Simon engolir suas palavras. Simon voltou a falar, mas engoliu. Em seco. Depois relatou que teve medo.

O olhar vidrado de Collor lembrou ao senador gaúcho o crime cometido pelo pai dele, Arnon de Mello, que matou um colega no plenário. Simon achou que podia ter o mesmo fim trágico.

Trágico mesmo nessa história é o medo do valente Pedro Simon. Acabaram-se os homens públicos, acabou-se o espírito público. Se um Collor babando de ódio é suficiente para calar um democrata, a democracia será regida pelos psicopatas.

Collor disse a Simon que não se atrevesse a repetir o seu nome, nunca mais. A intimidação fez efeito, e Simon não mais pronunciou o nome do colega.

Se ainda existissem homens públicos, Pedro Simon, ou qualquer outro senador, deveria ter respondido imediatamente a Fernando Collor de Mello (este é o nome dele): o Senado é uma alta representação do povo, os que lá estão têm nomes, e no dia em que algum deles não puder ser pronunciado a democracia terá morrido.

Vamos repetir o nome do senador que não quer ser mencionado, e que foi obedecido por Pedro Simon: Fernando Collor de Mello. É muito importante pronunciar este nome, para que ele não seja esquecido jamais.

Fernando Collor de Mello é o ex-presidente da República que acreditou poder governar na marra, com medidas truculentas como o confisco da poupança dos brasileiros, e que julgou poder usar o mandato popular como instrumento privado em benefício próprio. Ao lado de seu famoso tesoureiro, Paulo César Farias, condenado por corrupção, Fernando Collor de Mello foi acusado em vários processos de lesar a administração pública, teve que renunciar, e foi condenado no Senado à perda de seus direitos políticos por oito anos.

Collor foi absolvido na Justiça, cumpriu a pena política e conseguiu voltar a se eleger. Estava no seu pleno direito. Era hora dos incomodados se calarem.

Ao entrar no plenário do Senado bufando, tentando intimidar, ameaçando com chantagens e perseguições, este homem está dizendo o seguinte ao país: não quer ser tratado como um democrata, quer ser tratado como bandido.

Entre o medo de Pedro Simon e a apatia da opinião pública, Fernando Collor de Mello (este é o seu nome) saiu de cabeça erguida do Senado. O terror venceu. E no dia seguinte, foi recebido discretamente por ninguém menos que sua santidade, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O velho, o desclassificado, o inacreditável Collor canta de galo no Senado Federal, e o Brasil assiste. O Brasil é covarde.

É por isso que José Sarney sobe à tribuna e mente à vontade. Não tem problema ele dizer que não tem nada a ver com Agaciel e a farra do tráfico de influência. O Brasil sabe de tudo. Mas a covardia abençoa os cínicos.

Se Collor pode fazer discurso de bandido no Senado e ser recebido em seguida por Lula, por que implicar com as molecagens da família Sarney?

O melhor é ligar a TV e assistir à marmelada no Conselho de Ética com pipoca e Coca-Cola.

PS: O nome do senador impronunciável é Fernando Collor de Mello.

Guilherme Fiúza é jornalista e escritor

Uma resposta para Guilherme Fiúza escreve

  1. Humberto de Luna Freire Filho disse:

    Realmente o Brasil está se tornando um país de covardes, de BUNDÕES. O machismo gaúcho, escorreu pelas pernas.

  2. Robson Lelles disse:

    Creio que esta covardia não se limite ao Senado, mas também aos que lá instalam essa corja a cada nova eleição.

    Ao que parece, nós os eleitores não conseguimos correlacionar o nosso ato de votar com a sujeirada toda que acontece nas Câmaras Municipais, Assembléias Legislativas e Congresso Nacional.

    Nenhuma conseqüência de nossa negligência ao votar nos passa impune – é preciso compreender definitivamente que somos nós a sofrer a conseqüência do menor dos nosso atos, ao clicar aqueles números na máquina de votar. A grande maioria das pessoas que estão ocupando aqueles cargos não trazem em si a vocação de defender interesses do povo. Estão lá para defender interesses de seus patrocinadores de campanha, que nos convencem a votar nos seus fantoches a cada nova eleição.

    Tenho sido absurdamente criterioso na escolha dos meus candidatos, mas só posso ajudar a eleger um vereador, um deputado estadual, um deputado federal, um senador e um presidente por vez. É pouco, pouquíssimo ante a multidão de parasitas que se sentam ao lado dos meus eleitos. No fundo, temo por aqueles que ajudei a eleger, tão solitários que são.

    Persistimos em votar nos candidatos de sempre e nos filhos e netos dos candidatos de sempre, que infelizmente outra vida não conhecem, que não aquela em que o povo lhes provê os votos que precisam para prosseguir com a sanha extrativista dos recursos públicos, que deveriam servir à educação, saúde e habitação daqueles que os elegem, mas que certamente engordam – ao nível de obesidade mórbida – a educação, saúde, habitação e cofres de si mesmos e de seus descendentes. Os reis e seus príncipes, de tão obesos e inchados, estão entalados em seus tronos e não tem a menor disposição de sair dali, por uma questão de inércia que já se tornou direito adquirido. E nós? Seguimos anêmicos de representatividade legítima, de eleição em eleição.

    A limpeza desse país, se há um lugar onde deve começar, este lugar é nas mãos daqueles que apertam os números da máquina de votar e não nos parasitas que se instalam nas Câmaras, Assembléias e Congresso, graças à nossa incapacidade de entender que eles são colocados lá pela nossa digitação naquela maquininha.

    Não somos tão auto-suficientes como pensamos.
    Precisamos de representantes dignos nas Câmaras Municipais.
    Precisamos de representantes dignos nas Assembléias Legistativas estaduais.
    Precisamos de representantes dignos na Câmara dos Deputados em Brasília.
    Precisamos de representantes dignos no Senado.
    Precisamos de representante digno na Presidência.

    Mas não queremos aceitar que é a sujeira das nossas mãos que determina que essa corja de parasitas se instale nesses lugares para nos causar tanto mal por décadas e décadas.
    E ainda nos orgulhamos da nossa democracia, afinal conquistamos o sagrado direito de causar mal a nós mesmos pela nossa livre iniciativa.

    Como bem canta Lobão (o cantor, não o parlamentar): “Eu não posso causar mal nenhum / A não ser a mim mesmo / A não ser a mim…”

    Da minha parte, eu aqui rejeito todo o mal que o voto ignorante e negligente eventualmente venha me causando todos esses anos.