Editorial da Folha de São Paulo
Cacciola, a missão
A viagem de Tarso Genro a Mônaco, para requerer a extradição do banqueiro, é uma ocasião para a fotogenia política
CHEGA EM BOA HORA para o governo Lula a notícia da prisão, em Mônaco, do banqueiro Salvatore Cacciola, há anos foragido da Justiça brasileira. Ainda sob o desgaste da absolvição de Renan Calheiros no Senado, acontecimento que confirmou o conluio majoritário do petismo com o que há de mais arcaico e desavergonhado na política brasileira, as autoridades federais agora contam com uma ocasião propícia para empunhar, como nos bons tempos, a bandeira do combate à impunidade.
Não é outro o sentido da missão internacional de que se auto-incumbiu o ministro da Justiça, Tarso Genro. Zarpa hoje para o charmoso principado, levando pessoalmente, não se sabe se em alguma maleta tipo 007, a alentada pilha de documentos que recomenda a imediata extradição do financista.Certamente, é de desejar que Cacciola responda no Brasil às diversas acusações de que é objeto. Entretanto, a menos que o ministro Tarso Genro demonstre inéditos poderes de persuasão pessoal -que lhe faltaram quando quis, em pleno colapso ético do PT, lançar a tese da “refundação” do partido-, cabe perguntar se funcionários qualificados do Itamaraty não poderiam desincumbir-se sozinhos desse gênero de gestões.Naturalmente, para as esfarrapadas patrulhas morais do lulismo, há um sabor especial na captura do banqueiro.
Cacciola protagonizou um dos mais espantosos escândalos do governo FHC, do qual saíram condenados vários diretores do Bacen, além do presidente da instituição. O caso resultou num prejuízo de R$ 1,5 bilhão aos cofres públicos. Em troca de informações privilegiadas, Cacciola teria pago R$125 mil mensais a um funcionário do Banco Central, o que configura um mensalão de dar inveja aos mais audaciosos deputados da base governista.Some-se a isto a circunstância de que Salvatore Cacciola pôde fugir do país graças a um habeas corpus concedido pelo ministro Marco Aurélio Mello; depois dos acachapantes resultados do julgamento dos mensaleiros no STJ, não deixa de ser bem-vinda, para o PT, a lembrança daquela inglória decisão judicial.
O retorno ao caso Marka, por si só, já seria entretanto capaz de deslocar provisoriamente o foco das atenções gerais, ainda às voltas com as estripulias, sigilosas ou não, de quadrilhas mais recentes. Ocorre que, uma vez diminuído o ímpeto para a criação de espetáculos punitivos na Polícia Federal, com a substituição de seu superintendente, o Ministério da Justiça estava a carecer de alguma proeza midiática.O cenário hitchcockiano de Monte Carlo sem dúvida oferece a Tarso Genro uma ocasião para a fotogenia política. No Senado, a imagem do PT não obteve bons resultados de seus agentes secretos e de suas missões impossíveis; é tempo, sem dúvida, de voltar aos clássicos do cinema -ainda que, para lembrar um outro clássico, o “thriller” policial petista se encene agora em ritmo de chanchada.
Comentário nosso: realmente muito bom para o PT-governo essa mudança de foco. Dar um tempo no caso Renan é tudo que pedem os governistas e os mal avisados. Nada disso! Continuemos na nossa batalha para não deixar esmorecer esse mal cheiroso escândalo do presidente Renan. Se começarmos a focar em outros assuntos, apesar de também relevantes, acabaremos colaborando para o esquecimento dos brasileiros e consequentemente o Presidente do Congresso continuará flanando em seu berço esplêndido.
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