Poesias

Augusto dos Anjos – Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Mês de Abril – 400 anos da morte de William Shakespeare

SONETO 66

 

Cansado de tudo isto, uma morte pacífica imploro:

Para impedir que nasça o mendigo,

E toda a necessidade termine em descaso,

E a fé mais pura seja tristemente preterida,

E a honra vergonhosamente deslocada,

E a virginal virtude rudemente pisoteada,

E a mais completa perfeição erroneamente desgraçada,

E a força desarmada pelo claudicante,

E a arte amordaçada pela autoridade,

E a loucura controlada pela medicina,

E a verdade confundida com a simplicidade,

E o bem cativo atenda à insanidade.

Cansado de tudo isto, disto tudo me afastaria,

Exceto ao morrer de abandonar o meu amor.

 

Fonte: http://shakespearebrasileiro.org/sonetos/sonnet-66/

 

Adélia Prado

BRIGA NO BECO

Encontrei meu marido às três horas da tarde
com uma loura oxidada.
Tomavam guaraná e riam, os desavergonhados.
Ataquei-os por trás com mãos e palavras
que nunca suspeitei conhecer.
Voaram três dentes e gritei, esmurrei-os e gritei,
gritei meu urro, a torrente de impropérios.
Ajuntou gente, escureceu o sol,
a poeira adensou como cortina.
Ele me pegava nos braços, nas pernas, na cintura,
sem me reter, peixe-piranha, bicho pior,
[fêmea-ofendida,
uivava.
Gritei, gritei, gritei, até a cratera exaurir-se.
Quando não pude mais fiquei rígida,
as mãos na garganta dele, nós dois petrificados,
eu sem tocar o chão. Quando abri os olhos,
as mulheres abriam alas, me tocando, me pedindo
[ graças.
Desde então faço milagres.

De Bagagem (1976)

Biografia de Adélia Prado aqui

 

Hilda Hilst

Árias Pequenas. Para Bandolim

Antes que o mundo acabe, Túlio,
Deita-te e prova
Esse milagre do gosto
Que se fez na minha boca
Enquanto o mundo grita
Belicoso. E ao meu lado
Te fazes árabe, me faço israelita
E nos cobrimos de beijos
E de flores

Antes que o mundo se acabe
Antes que acabe em nós
Nosso desejo.

(Júbilo Memória Noviciado da Paixão(1974) – Árias Pequenas. Para Bandolim – XI)
(Poesia: 1959-1979 – São Paulo: Quíron; [Brasília]: INL, 1980.)

Biografia de Hilda Hilst aqui

Paulo Mendes Campos

O MORTO

Por que celeste transtorno

tarda-me o cosmo do sangue

o óleo grosso do morto?

Por que ver pelo meu olho?

Por que usar o meu corpo?

Se eu sou vivo e ele morto?

Por que pacto inconsentido

(ou miserável acordo)

Aninhou-se em mim o morto?

Que prazer mais decomposto

faz do meu peito intermédio

do peito ausente do morto?

Por que a tara do morto

é inserir sua pele

entre o meu e o outro corpo.

Se for do gosto do morto

o que como com desgosto

come o morto em minha boca.

Que secreto desacordo!

ser apenas o entreposto

de um corpo vivo e outro morto!

Ele é que é cheio, eu sou oco.

Biografia de Paulo Mendes Campos aqui

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Tarso de Melo

ESPESSA


espessa como
certos ossos
sob a sucata

entre guardada
e esquecida jaz

mais que pura
intacta

a ferir quem
observa: lâmina,
lâmpada, límpida
luz


Biografia do poeta aqui

Manuel Bandeira

Canção da parada do Lucas

Parada do Lucas
— O trem não parou.

Ah, se o trem parasse
Minha alma incendida
Pediria à Noite
Dois seios intactos.

Parada do Lucas
— O trem não parou.

Ah, se o trem parasse
Eu iria aos mangues
Dormir na escureza
Das águas defuntas.

Parada do Lucas
— O trem não parou.

Nada aconteceu
Senão a lembrança
Do crime espantoso
Que o tempo engoliu.
 

Ronaldo Cunha Lima

Imortal

 

 

Pode até meu amor já ter morrido.

Podes dizer que teu amor morreu.

Só não pode morrer, nem faz sentido,

aquele amor que nosso amor viveu.

 

 

Palmyra Wanderley

Fortaleza dos Reis Magos

                  

 

Em frente o mar, fervendo e espumando de ira,

na nevrose do ódio, em convulsões rouqueja

e contra a Fortaleza imprecações atira

e blasfema e maldiz e ameaça e pragueja.

Todo ele se baba. E se arqueia e delira,

na fervente paixão de vencê-la…Peleja.

Ergue o dorso e se empina e se estorce e conspira

e cai, magoando os pés daquela que deseja.

 

A Fortaleza altiva, agarrada às raízes,

nem parece sentir as fundas cicatrizes,

dos golpes com que o mar o seu corpo tortura.

 

Evocando o passado, avista as sentinelas,

no cruzeiro do sul a cruz das caravelas

a as flechas de Poti rasgando a noite escura.

 

Biografia de Palmyra Wanderley aqui

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Mário Quintana

Bilhete

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…
Leia a biografia de Mário Quintana aqui