Poesias

Zé Limeira – O poeta do absurdo

O Marechal Floriano

Antes de entrar pra Marinha

Perdeu tudo quanto tinha

Numa aposta com um cigano

Foi vaqueiro vinte ano

Fora os dez que foi sargento

Nunca saiu do convento

Nem pra lavar a corveta

Pimenta só malagueta

Diz o Novo Testamento!

 

Pedro Álvares Cabral

Inventor do telefone

Começou tocar trombone

Na volta de Zé Leal

Mas como tocava mal

Arranjou dois instrumento

Daí chegou um sargento

Querendo enrabar os três

Quem tem razão é o freguês

Diz o Novo Testamento!

(…)

 

Quando Dom Pedro Segundo

Governava a Palestina

E Dona Leopoldina

Devia a Deus e o mundo

O poeta Zé Raimundo

Começou castrar jumento

Teve um dia um pensamento:

“Tudo aquilo era boato”

Oito noves fora quatro

Diz o Novo Testamento!

Sertão em Carne e Osso

No romper das alvorada,

Quando alegre a passarada

Se desmancha em cantoria,

Anunciando ao sertão

A sua ressurreição

No despontar de 

outro dia!

 

Nos galho das baraúna

Os magote de graúna

Quando o seu canto desata,

Parece uns vigário véio

Cantando o santo evangéio

Na igreja verde da mata!

 

Canta nas tarde morena

Quando o sol vai descambando,

Se despedindo da terra,

Beijando a crista da serra,

Deixando o céu tão bonito,

Que o sol redondo e vermêio

Parece, mal comparando,

Um grande chapéu de couro

Na cabeça do infinito!

Zé da Luz é o nome artístico de Severino de Andrade Silva, poeta nascido em Itabaiana – Paraíba, em 1904, e falecido em 1965.

Ai! Se Sêsse!

Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dois se impariasse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois dormisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
Que São Pêdo não abrisse
As portas do céu e fosse,
Te dizer qualquer tolice?
E se eu me arriminasse
E tu com eu insistisse,
Pra que eu me arrezolvesse
E a minha faca puxasse,
E o bucho do céu furasse?…
Talvez que nós dois ficasse
Talvez que nós dois caísse
E o céu furado arriasse
E as virge todas fugisse!

 

Zé da Luz é o nome artístico de Severino de Andrade Silva, poeta nascido em Itabaiana – Paraíba, em 1904, e falecido em 1965. 

Fernando Pessoa – Antonio de Oliveira Salazar

Antonio de Oliveira Salazar.

Tres nomes em sequencia regular…

Antonio é Antonio.

Oliveira é uma arvore.

Salazar é só apelido.

Até aí está bem.

O que não faz sentido

É o sentido que tudo isto tem.

 

Este senhor Salazar

É feito de sal e azar.

Se um dia chove,

A agua dissolve

O sal,

E sob o céu

Fica só azar, é natural.

 

Oh, c’os diabos!

Parece que já choveu…

 

Coitadinho

Do tiraninho!

Não bebe vinho.

Nem sequer sozinho…

 

Bebe a verdade

E a liberdade,

E com tal agrado

Que já começam

A escassear no mercado.

 

Coitadinho

Do tiraninho!

O meu vizinho

Está na Guiné,

E o meu padrinho

No Limoeiro

Aqui ao pé,

Mas ninguém sabe porquê.

 

Mas, enfim, é

Certo e certeiro

Que isto consola

E nos dá fé:

Que o coitadinho

Do tiraninho

Não bebe vinho,

Nem até

Café.

 

Fernando Pessoa

Bocage – Quer ver uma perdiz chocar um rato

Quer ver uma perdiz chocar um rato,

Quer ensinar a um burro anatomia,

Exterminar de Goa a senhoria,

Ouvir miar um cão, ladrar um gato;

Quer ir pescar um tubarão no mato,

Namorar nos serralhos da Turquia,

Escaldar uma perna em água fria,

Ver um cobra castiçar co’um pato;

Quer ir num dia de Surrate a Roma,

Lograr saúde sem comer dois anos,

Salvar-se por milagre de Mafoma;

Quer despir a bazófia aos Castelhanos,

Das penas infernais fazer a soma,

Quem procura amizade em vis gafanos.

Bocage – Camões, grande Camões, quão semelhante

Camões, grande Camões, quão semelhante

Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!

Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,

Arrostar co’o sacrílego gigante.

Como tu, junto ao Ganges sussurante,

Da penúria cruel no horror me vejo.

Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,

Também carpindo estou, saudoso amante.

Ludíbrio, como tu, da Sorte dura

Meu fim demando ao Céu, pela certeza

De que só terei paz na sepultura.

Modelo meu tu és, mas . . . oh, tristeza! . . .

Se te imito nos transes da Ventura,

Não te imito nos dons da Natureza.

Augusto dos Anjos – Soneto

A praça estava cheia. O condenado

Transpunha nobremente o cadafalso,

Puro de crime, isento de pecado,

Vítima augusta de indelével falso.

 

E na atitude do Crucificado,

O olhar azul pregado n’amplidão,

Pude rever naquele desgraçado

O drama lutuoso da Paixão.

 

Quando do algoz cruento o braço alçado

Se dispunha a vibrar sem compaixão

O golpe na cabeça do culpado

 

Ele, o algoz – o criminoso – então,

Caiu na praça como fulminado

A soluçar: perdão, perdão, perdão!

Augusto dos Anjos – A fome e o amor

A um monstro

Fome! E, na ânsia voraz que, ávida, aumenta,
Receando outras mandíbulas a esbangem,
Os dentes antropófagos que rangem,
Antes da refeição sanguinolenta!

Amor! E a satiríasis sedenta,
Rugindo, enquanto as almas se confrangem,
Todas as danações sexuais que abrangem
A apolínica besta famulenta!

Ambos assim, tragando a ambiência vasta,
No desembestamento que os arrasta,
Superexcitadíssimos, os dois

Representam, no ardor dos seus assomos
A alegoria do que outrora fomos
E a imagem bronca do que inda hoje sois!

400 anos da morte de William Shakespeare

Soneto 92 ~

Faz teu pior pra mim te afastares,
Enquanto eu viva tu és sempre meu,
Não há mais vida se tu não ficares,
Pois ela vive desse amor que é teu.

Por que hei de temer grande traição
Se tem fim minha vida com a menor;
De vida abençoada eu sou, então,
Por não estar preso ao teu cruel humor.
Tua mente inconstante não me afeta,
Minha vida é ligada à tua sorte;
Como é feliz o fato que decreta

Que sou feliz no amor, feliz na morte!
Porém que graça escapa de temer?
Podes ser falso e eu sequer saber.

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400 anos da morte de William Shakespeare

Soneto 18 ~

Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.

Às vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.

Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:

Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.

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