Poesias

Carlos Drummond de Andrade – Mãos Dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não cantarei o mundo futuro.

Estou preso à vida e olho meus companheiros.

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considero a enorme realidade.

O presente é tão grande, não nos afastemos.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,

não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,

não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,

não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.

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Fernando Pessoa – Passa uma borboleta

 Passa uma borboleta por diante de mim

E pela primeira vez no Universo eu reparo

Que as borboletas não têm cor nem movimento,

Assim como as flores não têm perfume nem cor.

A cor é que tem cor nas asas da borboleta,

No movimento da borboleta o movimento é que se move,

O perfume é que tem perfume no perfume da flor.

A borboleta é apenas borboleta

E a flor é apenas flor.

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Ferreira Gullar – Os mortos

Os mortos veem o mundo

pelos olhos dos vivos

 

eventualmente ouvem,

com nossos ouvidos,

       certas sinfonias

                 algum bater de portas,

       ventanias

 

           Ausentes

           de corpo e alma

misturam o seu ao nosso riso

           se de fato

           quando vivos

           acharam a mesma graça

 

 

De Muitas Vozes (1999)

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William Butler Yeats – Quando fores velha

Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,

Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.

 

Para saber mais sobre Yeats clique http://www.culturapara.art.br/opoema/williambutleryeats/wbyeats_db.htm

 

Carlos Drummond de Andrade

O mundo é grande

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

Adalgisa Nery

Mistério

Há vozes dentro da noite que clamam por mim,
Há vozes nas fontes que gritam meu nome.
Minha alma distende seus ouvidos
E minha memória desce aos abismos escuros
Procurando quem chama.
Há vozes que correm nos ventos clamando por
[ mim.
Há vozes debaixo das pedras que gemem meu
[ nome
E eu olho para as árvores tranqüilas
E para as montanhas impassíveis
Procurando quem chama.
Há vozes na boca das rosas cantando meu nome
E as ondas batem nas praias
Deixando exaustas um grito por mim
E meus olhos caem na lembrança do paraíso
Para saber quem chama.
Há vozes nos corpos sem vida,
Há vozes no meu caminhar,
Há vozes no sono de meus filhos
E meu pensamento como um relâmpago risca
O limite da minha existência
Na ânsia de saber quem grita.

De Cantos da Angústia (1948)

 

Biografia de Adalgisa Nery aqui

Castro Alves

Improviso

(À mocidade acadêmica)

Moços! A inépcia nos chamou de estúpidos!
Moços! O crime nos cobriu de sangue!
Vós os luzeiros do país, erguei-vos!
Perante a infâmia ninguém fica exangue

Protesto santo se levanta agora,
De mim, de vós, da multidão, do povo;
Somos da classe da justiça e brio,
Não há mais classe ante esse crime novo!

Sim! mesmo em face, da nação, da pátria,
Nós nos erguemos com soberba fé!
A lei sustenta o popular direito,
Nós sustentamos o direito em pé!
Biografia de Castro Alves aqui

AFFONSO SCHMIDT

OS VAGABUNDOS

Perdidos pela estepe enegrecida e rasa,
Nessa planície igual que a distância arredonda,
Que o inverno enregela e que o verão abrasa,
Dos vagabundos passa a maltrapilha ronda.

As miragens do céu são como pétrea onda…
E o vento forasteiro essa visão arrasa,
Quebrando torreões de arquitetura hedionda,
Catedrais de marfim e florestas de brasa!

Eles passam cantando uma canção dolente,
E vão deixando atrás, por sobre a terra ardente,
Dos seus inchados pés os passageiros rastros…

E quando a noite desce aos desertos medonhos,
Deitam-se sobre a terra e sonham lindos sonhos.
Na solidão da estepe e na mudez dos astros!

Biografia sobre AFFONSO SCHMIDT aqui

AFFONSO ROMANO DE SANT´ANNA

ALÉM DE MIM

Não é culpa minha
se não estou aparelhado
para entender certos conceitos
e sinais.

Conheço o ódio, o amor, a fome
a ingratidão e a esperança.

(Deus, a eternidade, o átomo e a bactéria
me excedem.)

O que não significa
que os ignore.
Ao contrário:
por não compreendê-los
finjo estar calmo
— e desespero.

Patativa do Assaré

AMANHÃ

 Amanhã, ilusão doce e fagueira,

Linda rosa molhada pelo orvalho:

Amanhã, findarei o meu trabalho,

Amanhã, muito cedo, irei à feira.

Desta forma, na vida passageira,

Como aquele que vive do baralho,

Um espera a melhora no agasalho

E outro, a cura feliz de uma cegueira.

Com o belo amanhã que ilude a gente,

Cada qual anda alegre e sorridente,

Como quem vai atrás de um talismã.

Com o peito repleto de esperança,

Porém, nunca nós temos a lembrança

De que a morte também chega amanhã.