Artigo
RAIVA
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Se estiver zangado, conte até cem; se estiver mesmo muito zangado, blasfeme” (Mark Twain)
Uma expressão que deve ser muito antiga, porque ouvi da minha avó, já velha, que tinha ouvido do avô dela: “engolir a raiva”. Na adolescência se falava em “engolir sapos” e “engolir cobras e lagartos”. Apoiando o pelego Lula da Silva, Leonel Brizola disse: “temos de engolir o sapo barbudo”.
A citação avoenga de “engolir a raiva” vinha, todavia, acompanhado de um completo e alertava: -“Engolir a raiva, envenena o sangue”…. A advertência, porém, dificilmente é seguida, pois é impossível frear os sentimentos.
Elocuções da sabedoria popular entram em contradição como que gravou o pensador e fraseur Fabricio Carpinejar, que escreveu: – “Um pouco de raiva não fará mal. Há frutos que apodrecem por excesso de doçura”.
Entre um dito e outro, a verdade é que tive uma raiva danada quando ouvi a proposta da recriação da CPMF pelo ministro da Fazenda, Paulo Guedes, que se apresentava como “liberal” e com as suas declarações aceitando o cargo, me fizeram crer nisto.
Como disse acima, as nossas reações e aversões são irrefreáveis; a raiva desperta uma indignação que não impede a reação verbal e leva as pessoas malcriadas à excessos de fúria e até agressividade física.
“Raiva”, como verbete dicionarizado, é um substantivo feminino, de origem latina rabies,ei, chegando ao latim vulgar como rabia,ae. Diz-se de uma manifestação de fúria em razão de algo ou diante de um fato desagradável; com a restrita sinonímia de “cólera” e “ira”.
Temos na Medicina Veterinária a classificação de Raiva, como uma doença infecciosa, causada por um vírus do gênero Lyssavirus, que ataca o sistema nervoso central, provocando convulsões e paralisia respiratória. É uma doença transmitida pela arranhadura, lambida ou mordedura de animais infectados, geralmente cachorros, e é conhecida como hidrofobia.
A cozinha portuguesa com a sua rica confeitaria de doces e sobremesas, nos presenteou com a “Raiva”, um gostosíssimo biscoito seco e crocante feito de manteiga, ovos, açúcar, farinha de trigo e canela, moldado em tamanho pequeno e forma irregular. No Brasil, em alguns estados, é conhecido como “Raivinha”.
No sentido coloquial da palavra, entretanto, a Raiva é um reflexo mental como reação a ataques pessoais ou aversão à fraude, à mentira e à corrupção intensamente praticadas por políticos desonestos.
No meu caso, por exemplo, blasfemo contra o ministro Paulo Guedes e aos seus apoiadores, o Presidente e seu Vice, por defenderem a recriação de um imposto que foi repudiado nacionalmente e derrubado pela força do povo unido acima dos partidos e das ideologias.
Para muita gente, há outros motivos de raiva, sem dúvida. Uma das minhas filhas me telefonou revoltada ao saber que o bispo Edir Macedo patenteou a “marca” Jesus Cristo comercializando-o em desacato aos cristãos autênticos e desrespeito à crença n’Aquele que morreu na cruz para salvar a humanidade. É por isso, que adoto uma lição de Buda: – “Deus não tem religião”.
Outras desfeitas são registradas, suscitando raiva de muita gente como, por exemplo, a classificação da desonestidade para maior ou menor, como fez o guru dos Bolsonaros, Olavo Carvalho, comparando o roubozão lulopetista com o “roubozinho” da rachadinha… É como se houvesse “meia gravidez” ou “meia integridade” ou “meia honradez”…
Vê-se, também, várias pessoas enraivecidas vendo um general da ativa do Exército, ocupando o Ministério da Saúde para executa a política negacionista do presidente Jair Bolsonaro na pandemia, receitando medicamentos controversos e distribuindo verbas do combate ao novo coronavírus contidas nas cotas parlamentares…
Um dos horrores da História, como escreveu Darwin, é que ela se repete. Talvez seja por isto que vislumbramos uma volta ao passado lulopetista (que pensávamos sepultado sem choro nem vela) pela direita oportunista; em consequência, a raiva se alastra como o novo coronavírus nos círculos do pensamento liberal…
A VOLTA
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Pro dia nascer feliz / Essa é a vida que eu quis / O mundo inteiro acordar / E a gente dormir…” (Cazuza)
Uma volta fantástica ao passado, como assistimos no “Meia Noite em Paris”, filme genial do não menos genial Woody Allen, roteirista e diretor, leva-nos a pensar dialeticamente no inverso, uma volta ao futuro…
Otimista, não desejo para mim nem para o Brasil a volta ao passado da corrupção lulopetista, que se mantém nas cabeças dos que se aproveitaram dela, da pelegagem sindical e dos picaretas do Congresso. Amedronta-me ver o presidente Jair Bolsonaro de braço dado com Roberto Jefferson e Waldemar da Costa Neto, e se aliar com o Centrão.
Olhar para trás é virar uma estátua de sal como a mulher de Ló ,que desobedeceu a Jeová e foi castigada, servindo de exemplo para Lucas (17:32): “Não olhes para trás! ”.
O verbete “Volta” dicionarizado, é um substantivo feminino e também as flexões do verbo voltar, a 3ª pessoa do singular do presente do indicativo e a 2ª pessoa do singular do imperativo afirmativo. Vem do latim volvitare, uma alteração de volvere, “ato de fazer rodar”.
Com a condescendência dos deuses de todas as religiões, creio piamente que eles nos permitirão olhar para trás estudando a História da Humanidade… Considero um dever de consciência conhecermos a vida e a obra dos filósofos gregos e chineses da antiguidade, de repassar a vista pela Renascença e de relembrar a Idade das Luzes… Eu até memorizo a minha infância empolgada com os romances de cavalaria, relendo os “Doze Pares de França”…
Nesta época infernal da crise provocada pelo novo coronavírus e a exigência da solidariedade humana, será bom constranger os egoístas desalmados relembrando a história da rainha Maria Antonieta, que ouvindo falar que o povo parisiense passava fome porque não tinha pão, exclamou: -“Pois que comam brioches! ”.
Conforme ensina a minha mulher padeira, o “brioche”, nasceu da confeitaria real do Château de Versailles: um pão doce, fofinho, amanteigado, açucarado, feito de farinha de trigo puríssima e gemas de ovos….
Outro dia, uma das agências de notícias internacionais noticiando sobre a economia dos países que compõem o G-20, informou que o consumo de alimentos deles tem qualidade e quantidade superiores à de todos outros 173 países-membros da ONU.
Entretanto, dos “Gê-vintenos” a gente ouve as maiores exclamações em defesa dos direitos humanos, uma hipocrisia desmentida pelas eternas tentativas de intervenção na soberania dos países em desenvolvimento. Com as críticas deles, chegam ao Brasil as suas Ongs para nos explorar…
O tema “de volta ao passado” consta de inúmeros livros, filmes e peças de teatro. Eu, inspirado por eles, gostaria de me rever meninote, pré-adolescente, testemunhando a chegada da Coca-Cola nas Lojas Americanas, e comer fatias das primeiras pizzas trazidas por um paulista que as fazia na Cinelândia num beco da Rua Álvaro Alvim.
As minhas memórias ancestrais levam-me às viagens de bonde para o Colégio, lendo o “reclame” com versos que diziam ser de Olavo Bilac: “Veja ilustre passageiro, / Que belo tipo faceiro/ O senhor tem ao seu lado…/ Entretanto, acredite, quase morreu de bronquite, / Salvou-o o “Rum Creosotado”…
E rever as séries do rádio, “O Sombra”, “Jerônimo, O herói do Sertão“ “Polícia Montada”, “Buck Rogers”, “Capitão Atlas”, “O Vingador”, e os programas de auditório, César de Alencar, Paulo Gracindo, Manuel Barcelos, “Os Discos Impossíveis”, “Jararaca e Ratinho” e o velho guerreiro Chacrinha…
Vejo-me regressando à formação cultural, nos “Concertos da Juventude” do maestro Eleazar Carvalho, indo às “Terças de Cultura” da Academia Brasileira de Letras, comparecendo aos debates políticos na ABI, assistindo as “Avant Première” do Cinema São Luiz, fazendo pesquisas na Biblioteca Nacional, visitando o Museu Nacional e indo ao teatro, inclusive às revistas do Teatro Recreio que meu pai gostava e nos levava.
Finalmente, deitando o olhar ao passado histórico, fui um menino de nove, dez anos, que acompanhou o cenário da 2ª Guerra Mundial, com meu pai sintonizando no seu rádio Phillips “A Voz da América”, a “BBC de Londres” e a “Rádio Moscou”; e minha mãe escrevendo esquetes para um programa antifascista da Radio Mundial.
Foi naquela época que aprendi a amar a liberdade e lutar contra os regimes ditatoriais que suprimem os direitos humanos, coagindo, reprimindo, torturando e assassinando. Assim, sou uma criação da Democracia e do Liberalismo.
É por isto que venho de volta à realidade abismado em ver o que julgava impossível: o economista “liberal” Paulo Guedes defendendo um novo imposto, a sinistra CPMF, e o Governo Federal escancarando o quadro funcional das agências reguladores para atender os picaretas do Centrão.
Porque vivo o presente, torço para que o Governo Bolsonaro se resolva: Ou faz o que prometeu na campanha ou faz uma meia volta volver e assume que repete a política bolsopetista… Faça-o, para o Brasil acordar e a gente descansar…
SEGREDOS
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Vou contar este segredo para mim mesmo de vez em quando, mas não vou acreditar” (Will Tacker – personagem de Hugh Grant no filme “Um lugar Chamado Notting Hill)
Vejo na Democracia – “o pior regime, com exceção de todos os outros”, no dizer de Churchill -, um mal aqui no Brasil; o voto obrigatório que tange o rebanho eleitoral para delegar uma representação a pessoas despreparadas, oportunistas e corruptas nas casas legislativas, federais, estaduais e municipais.
O meu segredo nesta crítica à Democracia vem com o repúdio à conversa fiada do “direito de votar”, em contraposição ao “dever de votar”. Quanta diferença há entre o direito e o dever! Se votar é obrigatório, tira a oportunidade da cidadania consciente mudar o quadro desesperador dos parlamentos. As manadas ignorantes e carentes se encarregam de mantê-las…
Aqui, a imensa maioria vota num candidato sem conhece-lo e muito menos aos que lhes cercam, parentes, amigos e puxas-sacos; é atraída pela propaganda enganosa ou pelo “ouvir dizer”. Pior ainda, uma grande fração apoia quem lhe comprou o voto, seja em espécie, ou pelas promessas demagógicas…
Essa transação de compra e venda é um velho truque do tempo dos coronéis, e foi tão aprimorada através dos tempos que dificilmente é punida pelos órgãos competentes; quanto ao logro sofrido pelas mentiras de campanha eleitoral, só tem o preço do arrependimento.
É claro que a situação é mais destrutiva no caso federal, porque as eleições preenchem as cadeiras do Congresso, Câmara e Senado, e, ao lado desses “representantes”, elege-se também o presidente da República.
Porque destrutiva? Porque são eles, congressistas e presidente, que indicam os titulares dos ministérios, as chefias das secretarias e a direção das empresas estatais; terceirizam a administração da Educação, da Saúde, da Segurança e demais setores de atendimento à população. Ao fazê-lo, nem sempre pensam no geral, mas em atender interesses regionais ou grupais.
Neste embrulho de papel de padaria, vem um ciclone bomba em redemoinho sobre o interesse nacional e popular: a indicação dos que comandam a economia e as finanças públicas, gerenciadores das crises, dos preços, salários e lucros; do emprego e das transações cambiais.
Diante disto, confesso outro segredo: Adoto, entre outros ícones da cultura, Machado de Assis, a quem reverencio diferentemente dos que cultuam charlatães, adotando-os como “gurus”, e lhes pagam com verbas públicas… De Machado, temos uma lição objetiva: – “Ouça-me este conselho: em política, não se perdoa nem se esquece nada”.
Este ensinamento nos leva a não perdoar os políticos picaretas que conspurcam a nossa República; não livramos a cara dos congressistas que engavetam as reformas prometidas nas eleições, e que se negaram a aprovar o Pacote AntiCrime de Sérgio Moro.
Não peço a ninguém para guardar este segredo porque, pelo contrário, gostaria que fosse alardeado, como uma vacina contra o vírus das corrupções do “roubozinho” das rachadinhas, e do “roubozão” do lulopetismo no Erário.
Garanto que os meus segredos não estão infectados pelas bactérias da falsidade ideológica, considerando, como considero, que “esquerda e direita não são discursos ideológicos estáveis, são símbolos de união grupal. Basta que duas pessoas se digam de direita ou de esquerda para que automaticamente essas facções passem a existir”…. E produzem males degenerativos como o fanatismo.
Os dicionários nos trazem o verbete “Segredo” como um substantivo masculino de etimologia latina, secretum,i, indicando algo que não deve ser sabida por outrem e/ou, especificando, coisa que se diz a outrem, mas que não deve chegar ao conhecimento de terceiros.
Assim, revelando segredos, tenho mais um, o sonho de festejar o fim da pandemia e a volta à vida normal, este, porém, só conto a mim mesmo, mesmo sem acreditar nele, torcendo no que escreveu o intelectual francês Jean Baptiste Racine, dramaturgo, historiador e poeta: – “Não há segredos que o tempo não revele. ”
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A ALMA
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Ser sensível é uma coisa e sensato é outra. Uma tem a ver com a alma, a outra com a razão. ” (Diderot)
É linda a comparação da Mitologia Grega fazendo da borboleta o símbolo da alma humana; os pais da Filosofia da Grécia Antiga viam também nessas espécies coloridas e esvoaçantes a forma visível da alma.
Num dos meus últimos artigos, “Sonhos”, descrevi as versões da ciência e da religião sobre a alma, que é representada na Mitologia Grega por Psique, a mortal que tanto fascinava a todos com a sua beleza que ocupou o lugar de Vênus na crença popular.
Diante disto, enciumada, Vênus se revoltou considerando uma profanação a própria existência de Psique. Cheia de ódio, incumbiu o filho, Cupido, de levar uma praga para a jovem, condenando-a apaixonar-se pelo mais inaccessível dos homens.
Entretanto, mesmo enfrentando todas as agruras impostas pela maldição da deusa, a incriminada encontrou o amado, mas desgraçadamente ele morreu na celebração das núpcias…
A dor da perda foi amenizada por Zéfiro, o mensageiro da Primavera, que a sequestrou levando-a a ocupar como morada um suntuoso palácio. Nele, Psique era visitada por um amante invisível que a beijou e conquistou. Foi Cupido, que tendo se apaixonado por ela, amou-a escondido da mãe Vênus.
Arqueólogos encontraram uma grande quantidade de ornamentos em vasos, em quadros e estátuas, mostrando Psique com asas de borboletas. São alegorias para representa-la como a alma humana purificada pelos sofrimentos e infortúnios, mas preparada, assim, para ser feliz.
O pai da psicanálise, Sigmund Freud, figurou entre outros mitos a história de Psique mostrando a necessidade do analista assumir o autoconhecimento, e o seu discípulo Jung encontrou na história de Cupido (deus do amor) e de Psique (personificação da alma) o modelo disciplinador do processo analítico.
Dicionarizado, o verbete Alma é um substantivo feminino definido como princípio vital; vida. A palavra vem do sânscrito Ātman e no nosso idioma deriva etimologicamente do latim, anima,ae, significando “o que anima, inspira”.
Na antiga Grécia dos filósofos, o termo adotado é psykhé, “o ser”, “a vida” e também “criatura”. É certamente uma referência a Psique. A Filosofia discute desde então a diferença entre “Alma” e “Espírito”, termos que se confundem nas religiões espiritualistas.
Refletimos, porém, que o conceito geral vê a alma o espírito como a mesma coisa, a energia que atua indissociável à vida dos seres viventes, e, nos humanos, suscitando a afetividade, a sensibilidade e o pensamento, que se revelam independentes da atividade corporal.
O desempenho físico dos indivíduos obedece a um conjunto de movimentos práticos, diferente dos seus sentimentos. As normas de conduta das pessoas são distintas entre si, dependendo das suas relações sociais. Na sociedade moderna vê-se claramente a diferença ideológica entre o trabalhador braçal e o trabalhador intelectual.
A nossa experiência ensina, todavia, que ambos são interdependentes. O intelectual sobrevive graças a produção braçal, e o técnico se emociona com o fruto do trabalho intelectual, o cinema, a música, a poesia e o teatro, as descobertas científicas e tecnológicas. Materializa-se dessa maneira o pensamento de Brecht: “Ciência e arte têm algo em comum: existem para simplificar a vida do homem. Uma na substância material, outra no espírito”.
Assim, na Filosofia e no Trabalho vemos o realismo recusar a ver a alma metafísica e muito menos existindo na maléfica política brasileira que surfa nas ondas da incompetência e da corrupção no enfrentamento do novo coronavírus.
Quem não encontra beleza no poema de Fernando Pessoa, que se perguntava quantas almas tinha, e poetou: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. E, do outro lado, temos do também poeta Mario Quintana uma definição filosófica: “A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe”.
Com uma visão pessoal, a minha consciência acompanha o pensamento de Giordano Bruno, escritor, filósofo, matemático, poeta e teólogo, condenado e morto pela Inquisição romana: – “Ignorância e arrogância são duas irmãs inseparáveis, com um só corpo e alma”.
O ‘ENE’
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo” (Abraham Lincoln)
O isolamento social tem me obrigado a rebuscar livros de referência, que me ajudam a escrever nos artigos coisas que jaziam esquecidas na memória, como as lendas mitológicas que sempre mereceram a atenção dos antropólogos, economistas, filósofos e psicanalistas.
Assim despertou-me a ideia de introduzir a letra “N” na mitologia para fazer um cotejo entre o “mito” com o “minto”… Na Mitologia Grega temos o “N” de Narciso – aquele que se apaixonou por si próprio vendo a sua imagem refletida nas águas de um rio.
E também do deus do mar, Netuno, poderoso e cercado por uma guarda pretoriana de tritões que o acompanhavam sempre. Deve interessar a muita gente o deus Nemesis, que bem poderia ser invocado em nossos dias, pois castigava os culpados que escapavam da justiça humana…
É sempre bom lembrar que nos milênios passados que os governos, os sábios e o povão aceitavam as crenças politeístas. Um dos pensadores brasileiros mais respeitados, Silva Mello, escreveu que “o juramento de Hipócrates, talvez de todos o mais profundo e sincero pela sua significação era baseado na invocação de deuses mitológicos”.
O raciocínio científico aceita o Juramento de Hipócrates e respeita os médicos que o cumprem, levando-nos a venerar, nesta fase crítica da pandemia do novo coronavírus, médicos, enfermeiros, técnicos e demais profissionais da Saúde cobertos pelo guarda-chuva desta sagrada promessa.
A penhora desses profissionais ao compromisso de honrar o seu desempenho tem se comprovado na sua eficiente atuação atendendo os pacientes do Sistema Único de Saúde, universal e gratuito.
E enfrentam a burocracia administrativa, a falta de insumos, a presença arriscada e o descaso dos políticos demagógicos e negacionistas que desastradamente se aliam ao vírus dando exemplos deploráveis de não usar a máscara e participar de aglomerações.
Há até políticos que fazem pior; ocupando o lugar de médico, para receitar por rompante inexplicável drogas sem eficácia cientificamente comprovadas. Puro verbalismo, a voz de outrem impregnada de misterioso conúbio do personalismo com a arrogância.
Em meio a uma discussão sobre o negacionismo do presidente Jair Bolsonaro, ocorreu nas redes sociais uma troca de ideias sobre a dúvida. Vimos que duvidar é abrir um sinal verde para que a verdade passe nesse caminho de esclarecimentos e informação. Justamente o contrário das fake news que os desonestos defendem como “liberdade de expressão”.
Negar presença à fraude e à mentira é justamente colocar o “N” na falsidade impregnada politicamente. Levar os que mentem a trocar a expressão “mito” por “minto”, o presente do indicativo do verbo mentir, transitivo direto, transitivo indireto e intransitivo, exprimindo enganar, iludir e ludibriar…
A palavra Mito foi muito usada na última campanha eleitoral, quando o povo brasileiro se mobilizou para derrotar a corrupção lulopetista, apoiando a Operação Lava Jato empreendida pelo Ministério Público, a Polícia Federal e o juiz Sérgio Moro.
Finda a eleição, murchou o balão colorido das promessas de fazer uma faxina geral no País e acabar com a herança petista da corrupção, reforçando a luta contra os corruptos e o crime organizado. Restabeleceu-se, porém, a aliança com o Centrão e até se achegou ao lulopetismo para combater Sérgio Moro; e assim se faz necessário pregar a revolução da verdade nesta época de mentiras, como escreveu George Orwell.
Assim, talvez por uma ordenação espiritual coletiva, desapareceu das redes sociais a palavra “mito, ” referindo-se a Jair Bolsonaro; nela se introduziu o “N”, ouvindo-o falar como se fosse verdade algo que não é. Ficou Minto.
CRIAÇÃO
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
Imaginar é o princípio da criação. Nós imaginamos o que desejamos, queremos o que imaginamos e, finalmente, criamos aquilo que queremos” (Bernard Shaw)
Não, não estou a fim de falar sobre os textos bíblicos Gênesis 1:27 e Gênesis 1:28, descrevendo como Deus criou os seres humanos, homem e mulher, parecidos com Ele próprio. Nem lembrar que o Criador lhes disse: “Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra”.
Se entendesse da arte pictórica, preferiria escrever sobre o comentadíssimo afresco “A Criação de Adão” que Michelangelo pintou no teto da Capela Sistina no século 16 a pedido do papa Júlio II. Sei apenas que a presença de Lilith, esposa mística de Adão, na pintura, cria polêmica até hoje…
O substantivo feminino “Criação” tem uma grande amplitude desde a origem linguística, do latim creatĭo,ōnis, significando conceber, desenvolver, elaborar, engendrar, procriar… E na linguagem coloquial da língua portuguesa, temos um vastíssimo sinonimato, como compor, educar, fabricar, fazer, formar, idealizar, iniciar, imaginar e até parir…
Com a palavra, temos o efeito de criar, de tirar do nada; encontramos nela a capacidade de inventar como se vê especialmente nas agências de publicidade, ou de simplesmente domesticar animais nos galinheiros e chiqueiros para consumo alimentar.
É interessante no estudo da linguagem o processo de criação de novas palavras, os chamados neologismos, expressões derivadas ou formadas de outras já existentes, na mesma língua ou importadas. Citei num dos últimos artigos, o “radar” nascido da rubrica inglesa formada pelo “RA”, rádio, “D”, detetection, e “A”, de and e “R” de ranging que muitos não sabiam…
Da Inglaterra veio também a expressão “perder o trem”, atribuída a Churchill; que se tornando popular, inspirou o sambista Adoniram Barbosa nos versos “… Se eu perder o trem /que sai agora, às onze horas/ Só amanhã, de manhã”…
Do pessoal estrangeiro recebemos também dos franceses uma interessante criatividade idiomática, vindas, por exemplo, de Marcel Prévost, “semi-virgem”, de Taine, “velho regime”, e de Napoleão “espoliador”…
O brasilês, como se refere o mestre gaúcho José Carlos Bortoloti, é rico em criadores de neologismos, entre os quais vale a pena citar Bernardo Guimarães, Franklin Távora, Guimarães Rosa, José de Alencar, José Lins do Rego, Manoel Bandeira e Mário Quintana. Modéstia à parte, lá em cima escrevi “sinonimato” que não existe nos dicionários…
As expressões populares entre nós dão um colorido especial ao brasilês. Nossa gíria se expande como uma pandemia. Antigamente – por força dos programas radiofônicos e dos primórdios da televisão quase todas saíam do Rio de Janeiro.
Com o tempo, o intercâmbio e o estudo, descobriu-se o universo dos regionalismos, a bela diversidade das expressões populares cobrindo o território nacional do Oiapoque ao Chuí…
Das antiguidades francesas adaptadas e correntes no Nordeste, e do lusitano arcaico remanescente nas Minas Gerais ao galante castelhano dos gaúchos, formamos o nosso idioma, que no dizer de Noel Rosa, “…já passou do português! ”.
A criação chegou à pandemia do novo coronavírus, nos costumes, na linguagem, e até no anedotário. Levou-nos a aprender a ficar em casa e gerenciar o tempo; a popularizar o termo “negativismo” dantes usado somente pelos filósofos, para designar a política sinistra dos governantes aliados da peste…
No anedotário vale a pena lembrar o comentário do jornalista Mário Sabino sobre o “programinha em São Paulo pós-flexibilização: clube, shopping, restaurante, cineminha, vinhozinho — e fim de noite no hospital”.
… E vem da Alemanha tão sisuda, uma piada pronta: a BVG, empresa de transporte públicos, pede ao povo renúncia geral no uso de desodorante, em campanha para incentivar o uso de máscaras…
SONHOS
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“É só um sonho que se sonha só, / Mas sonho que se sonha junto é realidade…” (Raul Seixas)
Com o avanço da ciência e da tecnologia, os seres humanos pensantes se convencem de que a nossa estrutura anatômica é uma sofisticada versão do computador, agindo com os impulsos elétricos nervosos através de condutores ligados ao sistema nervoso central.
Temos no cérebro o encéfalo, parte do Sistema Nervoso Central, que recebe, processa e gera respostas às mensagens que chegam até ele. Uma espécie de radar aperfeiçoado biologicamente para o nosso organismo.
Lembremos que o radar, de uso excessivo nas últimas guerras, é um aparelho que emite ondas eletrônicas detectando corpos sólidos à sua frente. Seu nome é um neologismo adotado em todos idiomas do mundo, vindo da rubrica inglesa formada pelo “RA”, rádio, “D”, detetection, e “A”, de and e “R” de ranging…
Após a Segunda Guerra Mundial, o poeta e dramaturgo Félix-Henri Bataille, maravilhado pelo radar, escreveu sobre as percepções sensoriais humanas, lamentando que nós usamos mal essas maravilhas, porque não sabemos como processá-las.
Realmente. Há estudos científicos que nos falam de vinte ou mais sentidos, além da audição, do olfato, do paladar, do tato e da visão; operando-os, eles nos permitiriam uma imensa e múltipla percepção de sensações externas.
Pesquisadores científicos dos sentidos dão exemplos de sensações que vão além dos cinco conhecidos, como intuição, premonição, pressentimento e transmissão do pensamento. Alguns vão mais além, falam dos sonhos que projetam invenções e/ou indicam saídas para situações difíceis.
Para Freud, no seu livro “Teoria dos Sonhos”, o sonho é um fenômeno psíquico onde realizamos desejos inconscientes; mais adiante, na sua “Interpretação dos Sonhos”, o Pai da Psicanálise afirma que quando o estado de sono reprime revelações anormais ou perversas, é o motivo gerador de traumas e mudanças de comportamento.
Falando por experiência própria, eu sempre me preocupei com o sonho, a sua forma de traduzir fatos do cotidiano, resposta às sensações fisiológicas e o que fica da sua lembrança ao acordar.
Esclareço que uso alguns métodos para exercitar o adormecer e para estimular o sono,e estimulando para os sonhos experiências pessoais. Aprendi muito no correr dos anos, mas tudo teve início na infância, graças à minha formação através das discussões domésticas sobre isto.
Com meu pai positivista e a minha mãe espírita kardecista, nós discutíamos muito a respeito das manifestações do sonho, o pai refletindo sobre vidas interplanetárias – hoje diríamos alienígenas –; e a mãe, sobrepesando e defendendo a imortalidade da alma – seja, a vida após a morte –.
Meus estudos esclareceram que foram os sonhos dos homens primitivos que os levaram à crença de uma outra vivência, paralela, precedendo milhares de anos as religiões orientais espiritualistas, o kardecismo, os cultos afro-ioruba e a sua descendência brasileira, a Umbanda.
O verbete Sonho, dicionarizado é um substantivo masculino, ato ou efeito de sonhar; e também a primeira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo sonhar. A origem é latina, “somnium”, criação do sono.
A palavra deu um grandioso mergulho na política, graças ao discurso histórico de Martin Luther King, líder norte-americano do movimento pelos direitos civis, tornado antológico em todo mundo como “I have a dream” – “Eu tenho um sonho”.
A fala do grande líder norte-americano em Washington contra a segregação racial (que soube a pouco, contou com a presença de Frank Sinatra) teve um desfecho apoteótico, descrevendo o sonho como um sonho de liberdade, igualdade e respeito humano, um sonho para o futuro.
Vivendo o inferno astral trazido pelo novo coronavírus juntei o sonho de Martin Luther King ao sonho que Shakespeare pôs na boca de Hamlet: “Morrer — dormir; dormir, talvez sonhar — eis o problema. ”
Assim, fui levado a falar do meu sonho no isolamento social, por amor à vida, pelo civismo e em solidariedade ao próximo. Sonho com o fim da pandemia, e não quero sonhar só; vamos sonhar juntos para torna-lo realidade…
A FARDA
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Nossas vidas começam a terminar no dia em que permanecemos em silêncio sobre as coisas que importam” (Martin Luther King)
A fixação do presidente Jair Bolsonaro pela farda é comovente; foi de Brasília para o Rio assistir o funeral de um jovem paraquedista acidentado e morto em treinamento, mas se mostra indiferente diante dos mais de 50 mil óbitos por covid-19 no País. Dispensa humanidade para um e sequer uma palavra de conforto às famílias enlutadas…
O Presidente ignora e não tem um só assessor encorajado para lembrar-lhe, que todos os brasileiros, com exceção apenas de 30 ou 300, estão pesarosos pelas vidas ceifadas na pandemia, e se solidarizam com os infectados à espera do pior.
Recebe apoio, sem dúvida, pela fração que lhe cultua no melhor estilo do que fizeram os nazistas com “mein führer” Hitler e os bolcheviques russos com “camarada” Stálin. São agrupamentos que os sociólogos classificam como “massa”.
A massa representa desmiolados reunidos em grupos, sob a liderança de algum esperto carreirista político ou de um malandro ludibriador mercenário. Toma o partido do condutor que grita mais ou incita com ardor de uma palavra-de-ordem espalhafatosa.
A massa tem coletivamente a mentalidade de uma criança de nove, 10 anos, aberta às sugestões dos adultos que respeitam. Participando, então, da política, é capaz de tudo: criar mitos, coroar heróis, derrubar estátuas, injuriar personalidades e incendiar edifícios públicos. Até assaltar bancos…
O gênio de Shakespeare nos deu um retrato sem retoques disto, descrevendo o velório de César, diante da massa hostil vociferando contra o morto e aplaudindo seus assassinos. Repercute o discurso fúnebre de Marco Antônio, recordando os feitos de César, e apresentando o testamento dele deixando os bens para o povo romano.
Este drama shakespeariano tem como apoteose a notável inversão do comportamento da massa exortando a memória de César e se voltando contra os conspiradores que o mataram.
Não é preciso um aprofundamento sociológico para se ver que há uma diferença enorme entre massa, povo, povo organizado e povo fardado. A própria convivência mostra que o povo tem consciência cívica; quando organizado, participa de movimentos de acordo com os seus ideais; e o povo militarmente estruturado obedece a uma hierarquia e aos valores patrióticos.
É assim que se forma uma Nação esclarecida e culta. Nação, do latim natio, de natus (nascido), é uma comunidade estável, historicamente constituída voluntariamente por uma comunidade baseada num território comum, com a mesma língua, herdando a mesma cultura e tendo as aspirações materiais e espirituais comuns.
A farda é a vestimenta padronizada que distingue as pessoas, usada por estudantes, clérigos, guardas municipais, policiais militares, porteiros de hotel e até os trajes cerimoniais da seita Santo Daime, que os adeptos chamam de “farda”.
A Farda é o uniforme das forças militares, instituído desde o século 17 na França e posteriormente adotado por todos os países ocidentais, espelhando o “povo fardado”, constituído para defender a Nação.
O Brasil é uma Nação-Estado constituída federativamente por regiões subnacionais, estados-membros, que além da cultura comum apresentam também formações culturais próprias, costumes, tradição e linguística.
A tese de doutorado de Janote Pires Marques na Universidade Federal do Ceará sobre o ensino militar no Brasil, evoca o poeta nacional Castro Alves e o seu poema “Quem Dá aos Pobres, Empresta a Deus” – desenvolvendo a relação benéfica entre a Cultura – O Livro -, e o Militar – O Sabre; “As duas grandezas que se abraçam e se cruzam”.
Castro emociona com os versos: “Não cora o livro de ombrear co’o sabre…/ Nem cora o sabre de chamá-lo irmão…. “ E, como o Poeta, os brasileiros bem formados culturalmente esperam do povo fardado o sabre para garantir institucionalmente a manutenção do Estado de Direito, com respeito à Constituição e aos poderes republicanos.
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INCÊNDIOS
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“A vida é um incêndio: nela dançamos, salamandras mágicas. Que importa restarem cinzas se a chama foi bela e alta! ” (Mário Quintana)
Quando estudávamos latim no ginásio éramos obrigados a ler e traduzir os discursos de Cícero – que sempre caiam no exame vestibular das faculdades de Direito -, e para os curiosos, como eu, haviam coletâneas de provérbios e os “Doze Césares” de Suetônio.
Lembro-me (não tenho condições de confirmar, por falta de referência) que o livro de Suetônio tem um capítulo dedicado a Nero, onde encontramos as mesmas louvaminhas dos historiadores chapas-branca que enxameiam em torno do poder – e aparecem muitos entre nós…
Para defender o Imperador, Suetônio transfere para os cristãos a culpa pelo incêndio de Roma, uma versão que foi negada posteriormente por Tácito, e que foi combatida insistentemente por escritores católicos, como no livro “Quo Vadis”, romance do escritor polonês Henryk Sienkiewicz ambientado na Roma Imperial à época de Nero.
O tema abordado por Sienkiewicz gira em torno da conversão de Paulo de Tarso ao cristianismo, sua presumível presença em Roma e a perseguição que se abateu sobre os cristãos, após o incêndio.
A força do livro “Quo Vadis” e a transmissão oral por gerações consecutivas atribuem a Nero um comportamento execrável, sentimentos abjetos, sexualidade pervertida e acusam-no pelo incêndio urdido apenas para lhe inspirar um poema…
Outros pontos de vista argumentam antagonicamente o perfil de Nero como um monstro e os seus atos tirânicos. Se firmam pela denúncia de ficção e a frágil confiabilidade das fontes que abundam na Biblioteca do Vaticano.
Fugindo da discussão e separando a ficção da realidade, podemos encontrar governantes que a História registra desde a Antiguidade apresentados como heróis pelos seus patrícios, mas que foram responsáveis por chacinas criminosas. Temos o exemplo de Napoleão Bonaparte, que com suas guerras foi responsável por um milhão e setecentos mil franceses mortos.
Nem precisamos falar de Hitler e Stálin, os neros do século passado, ainda fixos na memória dos traficantes de utopias fraudulentas, e cultuados por admiradores fanáticos.
Ambos foram piromaníacos: Stálin mandou queimar a safra de trigo dos kulaks na década de 1920; e Hitler arquitetou o incêndio do Reichstag após a vitória eleitoral em 1933, o que lhe proporcionou o poder absoluto na Alemanha. O Führer também se divertia com as fogueiras armadas com livros clássicos pela Juventude Nazista…
Guardo tristemente na memória recente do grande incêndio da catedral de Notre-Dame de Paris, cuja construção data do século 12, e se tornou o símbolo da capital francesa. Esta tragédia, segundo notificação inicial da polícia deveu-se à negligência pela conservação da igreja.
A indiferença por um patrimônio cultural da humanidade deu-se igualmente no Brasil com o incêndio do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro. As causas foram esquecidas, mas ninguém me tira da cabeça que esse trágico incidente deveria ser creditado aos responsáveis pela sua preservação.
Temos no Brasil incendiários perversos com as continuadas queimadas das nossas florestas, em particular na Floresta Amazônica. Os criminosos são blindados por um mecanismo dissimulado e oculto aos olhos dos governos através dos tempos. Antes, durante, e possivelmente após o Governo Bolsonaro, se não pudermos evitar punindo severamente os seus autores.
Mesmo com a criação da operação Garantia da Lei e da Ordem (GLO), autorizando os militares para coibir as queimadas na Região Amazônica, ainda estamos longe de ver o fim da ação revoltante
A defesa da Amazônia não pode se resumir às piadas em torno da ativista juvenil Greta Thünberg. Trata-se de uma imposição da consciência patriótica para impedir que a “boiada passe” arruinando o futuro das próximas gerações.
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LARANJAS
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Se você tem uma laranja e troca com outra pessoa que também tem uma laranja, cada um fica com uma laranja. Mas se você tem uma ideia e troca com outra pessoa que também tem uma ideia, cada um fica com duas. ” (Confúcio)
Em tempo de pandemia virulenta seja com o novo coronavírus maléfico ou com a política cada vez mais nefasta, vale a pena falar de laranja, uma fruta festejada em toda parte que, como verbete dicionarizado é originário do árabe “narandja” e curiosamente pode ser substantivo feminino e substantivo masculino.
A versão feminina se refere ao fruto da laranjeira e a versão masculina significa pessoa utilizada por outra como intermediária em fraude e negócios suspeitos, como aplicar dinheiro obtido ilegalmente.
Os dicionários de gíria se referem à laranja para pessoa simples ou ingênua, e nos Sertões a palavra é masculinizada “laranjo” usada como referência à cor de bovinos.
Com menção ao coronavírus, lembro que a laranja é usada medicinalmente para o tratamento de males que derivam de infecções, como a dermatite e a cistite, porque além da famosa vitamina C, contém ácido fólico, cálcio, potássio, magnésio, fósforo e ferro.
Houve época em que os médicos recomendavam beber suco de laranja para “limpar” o organismo antes de determinadas cirurgias, ativando suas propriedades antioxidantes.
É ilustrativa a história de como a laranja doce foi trazida das fraldas do Himalaia para a Europa no século XVI pelos portugueses. Por isso são chamadas de “portuguesas” em vários países, especialmente na Itália e nos Bálcãs. No grego é portokali e portakal em turco.
Além de vários tipos que conhecemos, laranja-Bahia, laranja-da-terra, laranja-lima, laranja-pera, laranja-seleta e laranja vermelha, também designa cor, cor-de-laranja ou alaranjado.
A laranja entrou na literatura em livros como “Meu Pé de Laranja Lima”, clássico de José Mauro de Vasconcellos, que se popularizou com duas novelas, da década de 1970, de Ivani Ribeiro pela TV-Tupi, dirigida por Carlos Zara, com Cláudio Correia e Castro; e, na TV-Bandeirantes, sob a direção de Del Rangel, tendo como protagonista Gianfrancesco Guarnieri.
“Meu Pé de Laranja Lima” chegou ao cinema nacional com o filme também baseado no livro de José Mauro, sob a direção de Marcos Bernstein; cheio de ternura e ingenuidade, confrontou-se com o horror trazido à tela pelo badaladíssimo filme de Stanley Kubrick, “Laranja Mecânica” extraído do romance distópico de Anthony Burgess “A Clockwork Orange”.
O livro de Burgess se inspirou num fato real ocorrido em 1944: o estupro, por quatro soldados americanos, da primeira mulher do autor, Lynne, e o filme é realmente horroroso, amedrontador, mostrando um grupo de delinquentes liderados por um psicopata, que buscam o prazer através da ultraviolência.
Este funesto enredo desenvolvido por Kubrick nos leva ao pânico proporcionado pela pandemia que atravessamos, uma mistura maligna da covid-19 com a politicalha reinante no Brasil, com o fanatismo e o ódio tentando estuprar a Democracia.
É grave e lesiva a convergência dos extremismos de direita e esquerda desprezando as medidas de segurança que o momento exige; e, criminosamente, com o exemplo vindo de cima para baixo…
Laranjas políticos e profissionais se juntam aos laranjas virtuais (termos registrados no Dicionário de Gíria de J. B. Serra e Gurgel) para as tramoias, as rachadinhas, e levando às redes sociais a transgressão da lei e da ordem que vigoram no Estado de Direito.
Como híbrida da toranja e da tangerina, temos uma laranja entre as chamadas laranjas sanguíneas, conhecida como “Moro”. Ao encontra-la na pesquisa, lembrou-me Sérgio Moro, o caçador de corruptos, que disse: “Talvez alguns entendam que o combate ao crime deve ser adiado indefinidamente, mas o povo brasileiro não aguenta mais!”
Esses “alguns”, da direita e da esquerda o odeiam por isso…
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