Artigo

SODOMA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Quem semeia para a sua carne da carne colherá destruição” (Gálatas 6:8)

No Velho Testamento, o livro de Gênesis, capítulo 19, descreve como as cidades de Sodoma e Gomorra foram destruídas por causa do comportamento sexual perverso dos seus habitantes, pecaminoso “aos olhos de Deus”.

Essa catástrofe é estudada por arqueólogos, cientistas e teólogos; e na Universidade Trinity Southwest instituto cristão sediado em Albuquerque, Novo México (EUA), levantam a tese que foi um meteorito que atingiu a atmosfera terrestre mais ou menos há 3,7 mil anos e explodindo incidiu sobre aquela região próxima ao Mar Morto.

Teóricos dos antigos astronautas acreditam que os anjos citados em Gênesis como enviados por Deus, eram na realidade extraterrestres indo a Sodoma levando um ultimato, e que a destruição da cidade se deu num confronto interplanetário usando armas atômicas.

Os fariseus pregavam e os escribas copiavam a lenda ainda repetida pelos sacerdotes de várias denominações cristãs: Sodoma era uma cidade opulenta sob o poder das Artimanhas, do Engano, da Fraude e da Mentira, e os seus habitantes viviam na abundância em orgias luxuriosas….

Este lado religioso é mitológico, envolvendo figuras reverenciadas pelo judaísmo e algumas seitas islâmicas como o patriarca Abrahão. Contam que ele pediu a Deus para não destruir a cidade, ouvindo Dele que se por acaso lá vivessem 10 justos a pouparia.

Então dois anjos foram à cidade e não encontraram os dez justos que a salvaria; pelo contrário, assistiram a dolorosa cena de uma menina que foi sacrificada por ter dado a um mendigo um pedaço de pão: desnudaram-na e untaram-na com mel expondo-a sobre um muro para que os maribondos a atormentasse. Estava assim decretado o arrasamento de Sodoma.

Por interferência divina, os anjos insistiram com Ló, sobrinho de Abrahão, para que fugisse com a sua família antes que a ira de Deus se concretizasse. E orientaram que não olhassem para trás; mas a mulher de Ló olhou para trás e se transformou numa estátua de sal.

No dia seguinte Ló viu de longe uma densa fumaça subindo da terra, como saísse de uma fornalha, sobre Sodoma e Gomorra. Deus havia lançado sobre as cidades uma chuva de fogo e enxofre, arrasando toda a planície, matando todos os habitantes e destruindo toda a vegetação.

Se essa história é fantasiosa, pouco interessa. Serve simbolicamente como um exemplo de castigo para os execráveis dirigentes de qualquer nação. Não custa lembrar o que ocorreu no fim do Terceiro Reich e da União Soviética; os nazistas sob a ditadura de um falso messias cercado por um ministério de figuras execráveis, viciados, corruptos e esquizofrênicos. E os comunistas sob o terror macabro e policialesco do stalinismo.

A associação da obsessão dos políticos carreiristas pelo poder e o egocentrismo, termina sempre castigada, como vimos Mussolini morto por apedrejamento, tendo o corpo pendurado em ganchos de açougue e exibido em praça pública.

Felizmente, o deus do Antigo Testamento não confunde o Brasil com Sodoma. Aqui, nunca ocorreram destruição geográfica e aniquilamento do povo. Mudanças políticas estruturais sempre se deram pelo consenso e a conciliação, como a História registra na Independência, Abolição e República. Viu-se na revolução de 1930 e na queda do Governo Jango em 1964.

Assim, ao pregar uma guerra civil no caso de perder a eleição, é um desvario do capitão Bolsonaro, o aprendiz de Hugo Chávez que surfa nas ondas do negacionismo genocida durante a pandemia.

Há mais alguém que apoie essa aventura? Sem dúvida que há. Mas o que vemos entre os seus frenéticos auxiliares de governo e no fanatismo dos seguidores virtuais (não me refiro ao automatismo dos robôs, mas aos tolos que ainda creem nele) é o eco da voz do chefe.

Assim, é ditoso vermos que ente nós a soberania das Artimanhas, do Engano, da Fraude e da Mentira que reinava em Sodoma resume-se ao delírio de capitão Bolsonaro, oportunista demagogo, ignorante e mentiroso.

 

 

MAKTUB

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“O destino baralha as cartas, e nós jogamos” (Schopenhauer)

A palavra Maktub entrou no idioma do mundo inteiro, serve até para tatuar muitas pessoas que aceitam o fatalismo. É um verbete de origem árabe “مكتوب” significando “estava escrito”; no coloquial, “tinha que acontecer”. Maktub é considerado por filólogos como sinônimo de Destino.

A fórmula fatalista com que o crente do Islam se resigna à vontade de Alá não se limita aos seguidores de Maomé. Na Grécia antiga, Heráclito, um filósofo pré-socrático ensinou que “o caráter do homem é seu destino”, antecedendo o islamismo.

E também o tão badalado Freud, criador da psicanálise, escreveu no seu estudo “Além do princípio do prazer” que “podemos dizer que o objetivo de toda vida é a morte, e, retrospectivamente, que o inanimado existia antes que o vivente…” E estabeleceu a teoria do Complexo de Édipo, bastante conhecido e tema de conversas de bar…

Apreendeu Freud a teoria do Complexo de Édipo no mito que Sófocles levou ao teatro, com a peça “Édipo Rei”. É a história do rei de Tebas, Laio, que ouviu de um oráculo que seria morto pelo próprio filho, que depois se casaria com a sua esposa e a própria mãe.

Supersticioso, Laio abandona o filho pregado pelos pés num tronco de árvore para que ali morresse; mas um caçador que por ali passava levou a criança para casa e deu-lhe o nome de Edipodos (pés-furados). O menino foi adotado mais tarde pelo rei de Corinto.

Já adulto, Édipo ouviu de uma pitonisa que mataria o pai. Pensando tratar-se do pai adotivo, ele foge de Corinto e no caminho foi agredido por um grupo de mercadores; enfrentando-os, mata a todos, inclusive o líder que era o seu pai biológico, Laio. Prosseguindo a viagem e chegando a Tebas, para livrar a cidade de ameaças, decifra o enigma da Esfinge e sob o delírio do povo é investido como rei e se casa com a rainha viúva, Jocasta, sua mãe…

O filósofo Arthur Schopenhauer, cujas aproximações e divergências com as teorias posteriores de Freud já deram em muitos livros, deixou-nos um curioso pensamento que nos leva à reflexão ao dizer que “na hora da morte, todos os poderes misteriosos que determinam o eterno destino do homem se conjugam e entram em ação”.

Assim se materializa na cultura ocidental o Maktub, o “estava escrito”, usado como sinônimo de destino. No Brasil, o escritor Júlio Cesar de Melo e Souza (que foi meu professor), sob o pseudônimo de Malba Tahan, escreveu o livro Maktub em 1935, e mais tarde foi título de publicação de Paulo Coelho de 1994.

Na música, Maktub é mais uma das belas canções do mineiro Marcus Viana, lançada em 2016; e no cinema temos na Netflix, o filme israelense Maktub, classificado como comédia/drama misturando violência e humor; dirigido por Oded Raz, desenvolve o enredo de uma dupla de Steve (Hanan Savyon) e Chuma (Guy Amir), que trabalham como cobradores do agiota Karlassi (Itzik Cohen).

O catolicismo tem na sua hagiologia a curiosa história de um vagabundo que andava pelo mundo dizendo estar em busca do seu destino. Um dia, cansado, parou na margem de um rio; como tinha uma força descomunal transportava pessoas de uma margem à outra ganhando o de comer.

O destino levou este condutor a ouvir a voz de uma criança pedindo-lhe para atravessar as águas caudalosas; como era seu trabalho, pôs o menino nos ombros e na travessia foi sentindo o aumento quase insuportável do peso que levava; quando alcançou com dificuldade o outro lado do rio, ouviu da criança: – “Transportaste sobre os teus ombros o mundo e Aquele que o criou”.

Estava escrito:  o menino era Jesus Cristo e o guia a partir de então adotou o nome de Cristóvão, “carregador de Cristo”. Hoje é adorado como São Cristóvão, padroeiro dos motoristas e viajantes.

Na política, tiveram os brasileiros o triste destino em ver um psicopata mitômano ser eleito presidente da República com promessas mentirosas de combate à corrupção e, no poder, mostrou a verdadeira face de político medíocre, que alguém descreveu como “uma figura patética e inexpressiva do baixo clero no Congresso Nacional”.

O capitão Bolsonaro traiu as promessas eleitorais e se aliou aos corruptos do Centrão abrindo o seu governo à corrupção; e, sem se acanhar, diz que “não sabe o que se passa nos ministérios” e, pior ainda, reconhece que existem pessoas “com interesse” no Ministério da Saúde….

Fatalistas que observam a nossa cena política dizem que “estava escrito”: quem praticou as “rachadinhas” impunemente, arrisca-se a tentar uma “rachadona”…

 

 

 

SEGREDOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol,com.br)

“O homem do rebanho chama de verdade aquilo que o conserva no rebanho e chama de mentira aquilo que o ameaça ou exclui do rebanho” (Nietzsche)

É inolvidável a primorosa poesia de João Nogueira cantando “Segredo” fazendo a defesa dos cuidados na interpretação das coisas com o alerta: – “Não deixe que males pequeninos/ Venham transtornar os nossos destinos”.

Gosto de repetir que aprendi com William Blake, romancista e jornalista escocês, autor de vários livros de sucesso, incluindo o excelente romance “A Estranha Aventura”, que “quem nunca altera a sua opinião é como a água parada e começa a criar répteis no espírito”, e aproveitando a letra filosófica de “Disparada”, de Geraldo Vandré, afirmo que sempre “as visões vão se clareando, até que um dia acordamos”.

Quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir, vê e escuta o que se passa no Governo Bolsonaro desde que assumiu o poder; e entristece tendo votado nele, iludido pelo discurso contra a corrupção.

Assumindo a presidência da República montou na égua dos sigilos sinalizando que deve esconder da opinião pública o que pensa e o que faz. Pena que seja seguido por quem não deveria copiar a intransparência embaciando a verdade, como fez sigilo de 100 anos a cúpula militar no processo que absolveu a indisciplina do general-ativista Eduardo Pazuello.

… E daí em diante os segredos nos assustam por ver o envolvimento de dezenas de militares (talvez centenas) da reserva, lotando os gabinetes ministeriais, principalmente na Saúde, onde explodiu agora o caso mais suspeitoso de corrupção.

Isto confirma tristemente que o projeto ditatorial do capitão Bolsonaro, admirador do golpista e depois ditador Hugo Chávez, pode contar com apoio dos militares burocratas; acredito, porém, que os quarteis não embarcarão nesta aventura antidemocrática.

O apoio da guarda pretoriana de pijama pouco vale e as simpatias de alguns poucos oficiais superiores das FFAA não bastam para que o capitão Bolsonaro mergulhe numa tentativa de golpe. Para saciar a sua sede de poder, é melhor continuar a desatinada campanha reeleitoral que empreende, inaugurando até postos de gasolina para justificar os gastos com o dinheiro público….

Assusta-me e revolta-me é que o povo brasileiro vem perdendo a confiança nas suas Forças Armadas, principalmente no Exército de Caxias onde antigamente se obedecia ao princípio de que “a verdade é o símbolo da honra militar”.

Não considerei irreverente ao escrever outro dia que “os generais Castello Branco, Costa e Silva, Emílio Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo se remexem envergonhados nos seus túmulos…. Não expliquei o porquê, certo de que é tão transparente.

Mas revelo que é pelo silêncio ensurdecedor que a cúpula militar mantém diante do contrassenso que a Nação assiste diante do palavreado inconsequente do Presidente arremetendo contra ministros do Supremo e congressistas, e dizendo que o “nosso lado” pode não aceitar eleições de 2022 sem mudar o voto eletrônico”.

Assim, regurgitando o seu personalismo autoritário, o capitão Bolsonaro ameaça o Congresso e o STF, e divide o Brasil entre “nós” e “eles”, em vez de chefiar a Nação pelo bem de todos….

Não faço segredo: se o Ministério da Defesa e os comandantes das FFAA influenciados por militares envolvidos em suspeitas de corrupção apoiarem as sandices do Presidente, conspurcarão o seu passado de honradez e patriotismo, entrando para a História como “males pequeninos” que ameaçaram o destino glorioso do Brasil.

QUADRILHAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)    

“Um pequeno ladrão é colocado na cadeia. Um grande bandido torna-se o governante de uma nação” (Chuang Tzu)

O nosso epigrafado que vem do século IV a/C, Chuang Tzu, foi um filósofo chinês que se contrapôs a Confúcio, e é considerado pelo economista norte americano Murray Rothbard o precursor do liberalismo econômico por ter desenvolvido um dos conceitos econômicos mais importantes do mundo: a ordem espontânea.

Murray Rothbard, autor do badalado livro “Esquerda e Direita” e criador do anarcocapitalismo, destaca entre os pensamentos de Chuang Tzu: –  “o que o homem conhece, nem sempre se compara com o que ele não conhece”.

O volume do que desconhecemos é incomensurável. Assistindo o desenrolar da briga nos andares de cima pelas propinas na compra da vacina da Covaxin, sintetizei os pequenos e grandes ladrões como quadrilha.

A palavra “Quadrilha” dicionarizada é um substantivo feminino de etimologia do castelhano “cuadrilla”, designando grupo de quatro pessoas ou mais, e chegou à França do século XVIII como “quadrille”, uma dança elitista dos salões da alta aristocracia parisiense.

Coloquialmente a palavra popularizou-se como bando de ladrões ou salteadores, corja, gangue, malta, súcia. E se consagrou como dança alegre e movimentada nas nossas festas juninas, principalmente no Centro-Oeste e no Nordeste. Alguns pesquisadores defendem que teve origem holandesa e, por influência portuguesa veio para o Brasil dos Açores.

No mês de junho, quando ocorre o solstício de Inverno no Hemisfério Sul, os festejos homenageiam os santos Santo Antônio, São João e São Pedro, uma adaptação religiosa dos primitivos costumes de acender fogueiras em homenagem ao deus-sol para agradecer a colheita.

A versão católica prende-se à mitologia evangélica contando que as primas Isabel (mãe de São João Batista) e Maria (mãe de Jesus Cristo), grávidas, combinaram em acender uma fogueira para anunciar o nascimento dos filhos.

As fogueiras que ainda são acesas fazem parte das festas juninas que inicialmente foram estimuladas pelos jesuítas, fugiram do controle clerical tornando-se uma prática popular e mundana.

Trazem-nos saudades as comemorações juninas dos santos do povo. Como era bom dançar quadrilha, comer amendoim cozinhado no sal, canjica, milho assado na brasa, mungunzá, pamonha e pé de moleque! Tomar quentão para esquentar; soltar balões, brincar com fogos de vista inocentes, os chuveirinhos, diabinhos, estrelinhas, mijões, peido de velha, rodinhas-de-fogo e traques de chumbo….

Das tradições portuguesas, sincretizadas com a cultura dos povos migrantes, africanos por sujeição escravocrata e europeus fugindo das guerras e da pobreza, restam muito poucas coisas boas, e ao mesmo tempo nos decepcionando com outras quadrilhas, as quadrilhas políticas que dançam a dança ignominiosa da corrupção.

A antiga dança alegre e movimentada sob a música típica, transformou-se em visitas soturnas, conversas suspeitas, telefonemas comprometedores e o coro criminoso de pedidos de propina.

Folclorizou-se estupidamente como associação criminosa, bando e gangue….  Os seus protagonistas estão enquadrados no artigo 288 do Código Penal Brasileiro, a fim de responder pelos crimes de advocacia administrativa, corrupção ativa ou passiva, concussão, falsidade ideológica, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e prevaricação.

Como se diz na gíria militar: “meia dúzia de três ou quatro” criminosos ocupando altos cargos no governo, exigem o pagamento de vantagens na compra de vacinas e insumos médico-hospitalares.

É uma triste fatura pelos boletos do negacionismo fraudulento, tão lucrativo quanto o tráfico de drogas e as múltiplas atividades criminosas das milícias. Pelas denúncias, suspeita-se que isto esteja ocorrendo no Governo Bolsonaro. E nós, ainda sem adotar bandido de estimação, queremos que as investigações da CPI da Covid vão a fundo para que a verdade apareça.

 

 

SUPERSTIÇÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A superstição ofende mais a Deus do que o ateísmo” (Hélder Câmara)

No início dos tempos, a mente do homem primitivo criou uma religião baseada no temor pelas manifestações da Natureza; e o culto se resumia em manter nas cavernas um braseiro sempre aceso em memória da ancestral da conquista do fogo; obrigando-se a evitar que as chamas nunca se extinguissem.

Este costume foi mantido no mundo civilizado; Fuste de Coulanges (“A Cidade Antiga”) escreveu que “toda casa de grego e romano possuía um altar onde havia sempre restos de cinza e brasas”. Tive um tio italiano (e meu padrinho de crisma) casado com uma irmã da minha mãe, que mantinha no oratório este costume por superstição.

“Superstição”, como verbete dicionarizado, é substantivo feminino, originário do latim, “superstitio”, profecia, medo excessivo dos deuses. Pelo termo pejorativo, “crendice”, temos a crença nos ‘sinais’ ou em fatos que provocam medo e impõem obrigações a seguir para evitar o mau agouro.

A Ciência considera irracional atribuir sorte ou azar em coisas que ocorrem sem nada de sobrenatural, mas que levam a tomar cuidados para evitar acidentes, como passar debaixo de escada para evitar que algo caia na cabeça; ou quebrar espelho, para não se cortar; e deixar os chinelos revirados para não servir de toca para escorpiões….

Além das experiências negativas passadas de geração a geração, a crendice se avoluma pela casualidade, pelas coincidências, pela ignorância ou o mal-entendido. Corre mundo afora a crença de que o número 13 dá azar; nos Estados Unidos este medo se popularizou de tal maneira que algumas linhas aéreas não têm em seus aviões assentos com o número 13.

Estudiosos da cultura norte-americana dizem que esta crença veio com os imigrantes italianos, pois no Sul da Itália muitas pessoas ficam em casa com medo que aconteça algo de ruim nas sextas-feiras 13…. Este temor catolicíssimo nasceu da superstição de que foram 13 os comensais na última ceia de Jesus Cristo.

Por isto tem muita gente que receia de ter à mesa 13 pessoas num jantar. O escritor ítalo-argentino Pittigrilli escreveu uma crônica sobre isto, citando o “14º”, um indivíduo que anunciava nos jornais a disposição de atender o convite de anfitriões no caso dos convidados se resumirem a treze.

Muito se poderia comentar sobre os preconceitos e a crendice fanática dos estúpidos e boçais que estimulam a consciência e dão certeza de que a civilização é fruto da luta entre a Ciência e a superstição.

Quando o conhecimento é livre de ilusão e fanatismo, fica-se impedido de aceitar o fundamentalismo obscurantista do negativismo, que emergiu na crise que vivemos na pandemia do novo coronavírus.

A filosofia lúcida de Voltaire projetou para o futuro a constatação de que “nunca a natureza é tão aviltada como quando a ignorância supersticiosa tem a arma do poder”. … E é o que infelizmente temos no Brasil.

Uma boa formação cultural mostra está na Ciência uma vacina eficaz contra o vírus do presunçoso obscurantismo negativista do capitão Bolsonaro e do seu bando no combate à pandemia, cujo exemplo é a paranoia obstinada de desmerecer as medidas preventivas de evitar aglomerações, de manter isolamento social, usar máscaras e adotar testes. Tal comportamento e exemplo causaram mais de 200 mil mortes pela covid-19 no Brasil, segundo estudos acadêmicos.

A indiscutível e indesmentível psicopatia do Presidente em não enfrentar a circulação do vírus, permitiu a passagem e a movimentação dos corruptos no seu governo, onde, no Ministério da Saúde, se vê avolumarem-se denúncias na compra da vacina Covaxin e outras transações altamente suspeitas.

Bolsonaro diz que não tem como saber o que se passa nos ministérios. Essa desculpa de amarelo tem sua validade porque com tantas “motociatas” anda sem tempo de governar….  Mas não é isto que se leva em conta, e sim de que se trata de um mentiroso contumaz:  soube das irregularidades na Saúde e silenciou sobre o malfeito sem tomar medidas para investigar.

Ao acumpliciar-se com transações questionáveis e arriscadas, o Capitão assume a polarização política e ideológica disputando com o corrupto Lula da Silva no campo populista, para mostrar qual dos dois facilita melhor a corrupção e protege com mais empenho os seus corruptos de estimação….  SAI AZAR! (“Toc-toc-toc”).

 

 

 

CÓPIAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

                              “As únicas cópias boas são aquelas que nos mostram o ridículo dos maus originais… ” (La Rochefoucauld)

Sete séculos antes do Calendário Gregoriano, trabalhavam no antigo Egito junto aos sacerdotes de Amon, escribas fazendo cópias em papiro ou na pedra, com informações sobre a vida do faraó. Vê-se assim que as cópias vêm de muitíssimo longe.

Como se fazia na religião egípcia, o judaísmo manteve ao lado dos fariseus os escribas, especialistas e divulgadores da Lei Mosaica – o conjunto de mandamentos que Deus deu a Moisés.

Os escribas judeus eram chamados de “doutores da lei”, e são citados em diversas passagens dos Evangelhos, como na exaltada crítica de Jesus Cristo em Mateus 23-25: – – “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que fechais aos homens o Reino dos céus; e nem vós entrais, nem deixais entrar aos que estão entrando”.

Pouco sei sobre os copistas no Grande Oriente e na Índia; mas na Europa católica durante a Idade Média tivemos os monges copistas, conhecidos como amanuenses, que multiplicavam os evangelhos e copiavam livros. E das maluquices obscurantistas do tempo de caça às bruxas, se atribuía a um demônio, “Titivillus”, o patronato dos escribas, induzindo-os a cometer erros.

Isto traz a história registrada nos anais eclesiásticos sobre a intervenção satânica de Titivillus: Por um erro de um monge, a cópia de um códice ficou conhecida como “Bíblia Maldita”, porque no sexto mandamento veio escrito “cometerás adultério”, em vez de “não cometerás adultério”….

Com a invenção da prensa a modernidade revolucionou o processo de publicação, que antes exigia um trabalho lento e penoso. Os tipos móveis realizam um processo rápido de impressão, e assim, avisos, jornais e livros se multiplicaram concedendo o acesso a todos interessados.

Pontual e individualmente, os novos copistas tiveram e têm à mão mimeógrafo a álcool, mimeógrafo elétrico, o silkscreen, a xerox, e agora, o computador com a sua infalível impressora…

Quando estudante vocacionado para o jornalismo, usei muito o papel carbono e copiador de cera para divulgar comentários, ideias e poesias; e mais tarde o mimeógrafo para divulgar apostilas e editar jornaizinhos.

Na nossa passagem pela vida as cópias se somam à memória do que fizemos ou deixamos de fazer, filosofando e registrando nossa participação nos fatos sociais e políticos.

Ficam, por exemplo, copiadas no subconsciente as promessas dos candidatos que nos atraíram e conquistaram o nosso voto. A perfeição que esperamos falha na maioria das vezes; e foi o que ocorreu com o candidato Bolsonaro que se assumiu como anticorrupção e, eleito, traiu o seu discurso.

Constata-se que ele não passa de uma cópia lulopetista, cuja credibilidade se esvaiu com as rachadinhas, os cheques de Queiroz, a intervenção na Polícia Federal para defender o filho, o “passar da boiada” no Amazonas e a suspeitosa pauta do momento, o Vacinoduto, um salto da rachadinha para a rachadona….

É inegável que ocorreram negociatas da vacina Covaxin e outros trambiques que passaram como uma boiada silenciosa no pasto do negativismo; são cópias borradas do lulopetismo trazendo a medida negativa de valor do Presidente.

E pior do que ele com seus pés de barro (ou sujos pelo Barros), só mesmo os seus aduladores que negam descaradamente os fatos. Os novos defensores da corrupção de das propinas nos recordam o provérbio de que a raposa quando copia uma raposa, torna-se um macaco.

A História se repete e nenhum dos “homens do Presidente” teve coragem para levar-lhe a bela lição deixada por Chico Xavier: – “Lembra-te, em matéria de atitudes, a vida não fornece cópias para revisão”.

 

 

 

NEGOCIATA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo” (Abraham Lincoln)

No ano de 1937, pouco antes de Getúlio Vargas dar o golpe de Estado e se tornar ditador aproveitando-se da aventura integralista de derrubá-lo para tomar o poder, o seu ex-ministro da Viação, José Américo de Almeida, tornou-se opositor e candidato à presidência nas eleições que ocorreriam em 1938.

Na campanha, José Américo fez um discurso histórico sob o tema “Eu sei aonde está o dinheiro”, denunciando negociatas no governo federal, encerrando-o com uma frase antológica: – “É preciso que alguém fale, e fale alto, e diga tudo, custe o que custar”. A eleição a que ele concorria nunca se realizou…

“Negociata” é uma palavra que está na UTI da gramática, em total desuso. Entrou no seu lugar a “Corrupção”, mãe de uma porção de metralhinhas dos dois sexos, “Jabaculê”, “Propina”, “Suborno”, “Peita” e o caçula “Pixuleco” citado como “Pixulé” em discurso do ministro-general Pazuello, lembrando o termo usado pelo ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, para falar sobre propina.

O destemido político gaúcho Raul Pila referia-se a “Negociata”, denunciando que “ela existe na política brasileira, dividida entre grandes e pequenos partidos”. Mais moço, mas tão aguerrido quanto Pila, o jornalista Carlos Lacerda definiu “Negociata” como pacto desonesto operado entre duas ou mais pessoas em prejuízo dos cofres públicos.

Brincalhão, o humorista Aparício Torelli – o Barão de Itararé – escreveu no seu jornal “A Manha” que “negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados”….

A palavra Negociata é um substantivo feminino formado por negócio + ata; “negócio” do latim “negotium” e o sufixo ata, também originário do latim “atu”. Define negócio suspeito, desonesto, em que há trapaça, fraude, embuste, logro.

Escrita ao contrário, negociata escreve-se como ‘ataicogen’, inversão que leva a muitos trocadilhos como um que saiu no WhatsApp dizendo que o capitão Bolsonaro inverteu um slogan que deveria ser “Na minha corrupção não tem governo! ”

Realmente. Estamos indo das “rachadinhas” para “rachadonas”. O início foi a traição ao discurso eleitoral contra o “foro privilegiado” e os “cartões corporativos”, como a defesa da economia liberal invertida que quer a volta da CPMF…. E, daí para se cercar dos mais gulosos entre os que fingidamente combatem a corrupção lulopetista, foi um passo.

O ministro Ricardo Salles, defensor da tese de que o governo deveria aproveitar a pandemia para “passar a boiada” e caiu de podre esta semana, foi investigado pela Operação Akuanduba da Polícia Federal por suspeita de facilitar a exportação ilegal de madeira do Brasil para os Estados Unidos e Europa.

No Ministério da Saúde estão pipocando vários esquemas de elevada suspeição, como a que entrou em pauta, a negociata denunciada pelo deputado Luís Miranda (que não é flor que se cheira, mas era aliado íntimo do Capitão) e seu irmão, alto funcionário do Ministério detalhando com minúcias irregularidades na compra da vacina indiana Covaxin da farmacêutica Bharat Biotech e comercializada pelo governo federal através da Precisa Medicamentos.

O pior é que se a denúncia for falsa, tem outra transação da mesma empresa, que deve ser investigada; obteve o favorecimento governamental de 96,1 milhões de reais na venda de preservativos femininos….

O caso Covaxin promoveu uma enfática defesa do ministro Onix Lorenzoni em cadeia de rádio e televisão. Onix vociferou ameaças aos irmãos denunciantes que me lembrou Renato Russo que falou: – “Quem insiste em julgar os outros sempre tem alguma coisa para esconder”.

É assim que assistimos o rompimento da sobriedade forçada dos homens do Presidente, que falam e falam sem chegar a lugar algum, exceto para dissimular o incontido desejo de obter vantagens nos cargos que ocupam.

Quanto ao Capitão, que se acha mais esperto do que os outros, recorda-me, para defender as instituições, o que disse Ulysses Guimarães: – “Não é o poder que corrompe o homem. O homem é que corrompe o poder”.

 

 

 

 

MÚMIAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“De tanto enrolares com mentiras, a verdade é uma múmia mentirosa” (Joaquim Pessoa)

O canal televisivo Discovery passa o documentário “O Caçador de Múmias” mostrando viagens e revelações do egiptólogo, arqueólogo e linguista Ramy Romany, trazendo importantes descobertas de múmias pelo mundo afora.

As passagens de Romany pelo antigo Egito, trouxeram-nos as tumbas dos faraós no Vale dos Reis, e o sepulcro imaculado de Tutancâmon com sua múmia intacta num precioso esquife ao lado de inumeráveis riquezas.

Muito antes, no século 400 a/C, o geógrafo e historiador grego Heródoto, considerado por Cícero como o “Pai da História” fez uma viagem de estudos ao Egito, onde, interessado pelas cheias regulares do Rio Nilo, criou a expressão “o Egito é uma dádiva do Nilo”.

E na terra dos faraós ficou abismado pelos fantásticos monumentos, tendo descrito com minúcias as pirâmides. Interessou-se pela religião recebendo dos sacerdotes de Amon lições sobre a constelação politeísta, tomando conhecimento do Livro dos Mortos e o julgamento post-mortem pelo Deus Osíris, imprimindo a crença na ressurreição que levava à preservação do corpo dos defuntos para a vida seguinte.

Nos seus relatos, Heródoto assistiu o trabalho dos embalsamadores de cadáveres que realizavam verdadeiras cirurgias; primeiro, dando um talho nos flancos para extrair as vísceras e, com ganchos apropriados enfiados pelo nariz, fragmentavam e puxavam o cérebro retalhado. Em seguida, lavavam as cavidades com substâncias aromáticas e vedavam o ânus, a boca, o nariz e os ouvidos com uma pasta argilosa com aloés e mirra, cozendo-os depois.

Após esta operação, mergulhavam o corpo inanimado numa banheira com um líquido na base de carbonato de sódio, deixando-o por cerca de quarenta dias, ao fim dos quais recebia uma espécie de verniz, coberto de betume e envolto com uma tira de pano engomado. Estava pronto para o sepultamento em sarcófago previamente pronto.

Nunca tive a oportunidade de visitar o Egito, mas vi uma múmia no Museu Nacional, destruído pela negligência dos que dirigiam a UFRJ como provedores e curadores das amostragens ali colecionadas. Pertencia à sacerdotisa-cantora Sha-Amun-em-Su, datada de 750 a/C. Foi adquirida pelo imperador Pedro I do comerciante italiano Nicolau Fiengo, e aniquilada no incêndio criminoso do Museu.

Ao que me ensinaram os estudos da História do Brasil, os governantes levavam a cultura a sério no Império e durante algum tempo na República. Lembro que o imperador Pedro II foi o primeiro chefe de Estado a cumprimentar Graham Bell  pela invenção do telefone e foi o primeiro chefe de Estado a usá-lo.

É também elogiável o incentivo do presidente Afonso Pena ao marechal Cândido Rondon, para expedições que desbravaram os inóspitos sertões brasileiros, construindo linhas telegráficas e mantendo contato fraternal com os povos indígenas, incentivou a criação do SPI –  Serviço de Proteção ao Índio.

Infelizmente, a cultura e a educação estão mumificadas de algum tempo no Brasil. Às políticas populistas pouco interessa levar ao povo o conhecimento das conquistas civilizatórias da humanidade; no PT-governo assistimos o crime de censurar os livros de Monteiro Lobato, e o Governo Bolsonaro mostra-se inimigo da Ciência.

Ao enfrentarmos o colapso da pandemia do novo coronavírus, temos no Palácio do Planalto embalsamadores do conhecimento médico, com o capitão Bolsonaro diagnosticando drogas ineficazes para covid-19, desdenhando o uso de máscaras, promovendo aglomerações e hostilizando a vacina.

Este comportamento negativista e anti-cultural lembra-me Paolo Mantegazza que me pareceu projetar o perfil deste tresloucado Presidente com o pensamento: “O egoísta, embalsamando-se a si mesmo, transforma-se numa múmia, que não sente a dor, mas que não goza a alegria”.

 

 

 

A BOIADA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

Na boiada já fui boi/ Boiadeiro já fui rei/ Não por mim nem por ninguém”
(“Disparada”, de Geraldo Vandré)

Aprendi com William Blake, romancista e jornalista escocês autor de vários livros de sucesso, incluindo o excelente romance “A Estranha Aventura”, que “quem nunca altera a sua opinião é como a água parada e começa a criar répteis no espírito”.

Aproveitando também a letra filosófica de “Disparada” afirmo que sempre “as visões vão se clareando, até que um dia acordamos”.

Quem tem olhos de ver e ouvidos para escutar, vê e escuta o que se passa no Governo Bolsonaro desde que assumiu o poder; mesmo tendo votado nele, iludido pelo discurso contra a corrupção, assiste um projeto ditatorial em marcha.

Não há dúvida, porém, que as sinalizações e tentativas têm sido frustradas, embora os órgãos de Estado – alguns já aparelhados e submetidos, outros inexplicavelmente omissos –, não se interessam, ou fingem não se interessar.

Os intentos goros contaram com a criação de uma guarda pretoriana de oficiais militares de pijama aliciados pelo aceno do deslumbramento em recuperar uma voz de comando que na realidade se resume a cumprir as ordens do Empregador.

Não dando certo, mesmo contando com simpatias de alguns oficiais superiores das FFAA, levou o Capitão a mergulhar numa desatinada campanha reeleitoral usando o aparelho governamental e o dinheiro do contribuinte.

Até agora o Tribunal Superior Eleitoral silencia diante das loucuras eleitoralistas de Bolsonaro arrotando o seu personalismo negativista, ameaçando levar o país ao caos e executando uma diabólica política necrófila que já levou à morte meio milhão de brasileiros.

Aplausos da ignorância somam-se ao aplauso de mercenários pagos e à anuência do baixar a cabeça dos bezerros de presépio que formam o cordão dos puxa-sacos e induzem uma falsa impressão de apoio popular.

Esses “bezerros mamões” lembram a lenda dos pampas sulistas, incorporada ao fabulário gaúcho “Negrinho do Pastoreio”, que conta a história de um menino negro castigado por um fazendeiro cruel por ter deixado um garrote da boiada fugir. Foi amarrado, lancetado e deixado num formigueiro.

Nos finais do século 19 era contada em sermões por padres abolicionistas do Rio Grande do Sul e foi amplamente divulgada pelos brasileiros que defendiam o fim da escravidão nas Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.

A narrativa da maldade se reproduz na atualidade com o estímulo no Governo Bolsonaro do “passar da boiada”, a metáfora para animar a ameaça ao meio ambiente, invasão das reservas indígenas, negociatas com farmacêuticas pela propaganda de drogas ineficazes contra a covid-19 e o genocídio provocado contra a Nação pela negação de medidas preventivas e a vacina.

O “Passar a Boiada” foge até do eufemismo, que suavizaria a linguagem de fazendeiro cruel… Provoca revolta e estimula uma cruzada por uma nova abolição para libertar os brasileiros de um governo cuja política necrófila acaba de registrar meio milhão de mortos pela covid-19; num dos últimos comentários sobre os óbitos pela doença, o capitão Bolsonaro falou em “CPFs cancelados”; desta vez silenciou.

Reinando com a mitomania obsessiva, com as pequenas mentiras somando-se avolumam um tsunami de verdades, o Capitão vem usando o instituto do sigilo: para 73.281 documentos do seu governo; para a reunião ministerial do “Passar a Boiada”, para a triste absolvição da indisciplina do general-ativista Pazuello pela cúpula do Exército, e até para “seu diagnóstico” da covid-19, que muitos dizem ser mentiroso.

Nietzsche foi futurista e projetou a realidade brasileira quando escreveu: “O homem do rebanho chama de verdade aquilo que o conserva no rebanho e chama de mentira aquilo que o ameaça ou exclui do rebanho”.

CHALEIRA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A bajulação é a moeda falsa que só circula por causa da vaidade humana”. (La Rochefoucauld)

A desprezível adulação da vaidade de quem ocupa o poder é uma tendência natural dos fracassados, dos malsucedidos, dos caçadores de privilégios, de todo o lixo político que forma a elite da escória social.

É isto que faz muita gente se especializar em chaleirismo para se julgar importante ao lado das personalidades que cultuam; os conhecidos “papagaios de pirata”…. Esses não aprenderam a lição de que é preferível incomodar os poderosos com a verdade do que agradar com bajulação.

Chaleirismo vem de “Chaleira”, verbete dicionarizado como substantivo feminino para designar o utensílio de cozinha para aquecer água; e é um adjetivo figurado originário do Brasil indicando quem bajula; o adulador, bajulador, incensador e puxa-saco.

Relativo às lisonjas feitas para obter atenção e vantagens, nasceu da política brasileira, sem surpresa nenhuma: a História registrou que o político gaúcho Pinheiro Machado, eleito senador pelo seu Estado, tornou-se, por suas habilidades políticas, o homem mais poderoso da Velha República e nesta condição vivia cercado de lisonjeadores.

A sede do Senado era no Rio de Janeiro e o Senador morava em Bangu, numa fazenda com a casa grande no alto do Morro da Graça. Como bom gaúcho tomava muito chimarrão e uma chusma de puxa-sacos subia a ladeira da Graça disputando o privilégio de segurar a chaleira com água quente para servir a cuia do Chefão quando mateava….

Certamente isto ocorria, e a cena não foi poupada pela crítica humorística, principalmente nas troças carnavalescas. Assim, no carnaval de 1906 os cariocas cantaram a polca “No Bico da Chaleira”, uma composição de Juca Storoni: – “Menina, eu quero só por brincadeira/ Pegar no bico da chaleira”…. A partir daí, nasceu o verbo chaleirar que caiu no goto do povo….

No ano seguinte surgiu a marchinha inspirada na polca de Staroni: – “Iaiá me deixe subir esta ladeira, / Que eu sou do grupo do pega na chaleira”; e um chargista da revista Careta publicou a caricatura do chimarrão de Pinheiro com a legenda: “Quem gosta de ser adulado é cúmplice do adulador”.

A sátira irônica dos intelectuais foi aplaudida pelo povão. É fácil ver-se e compreender a cumplicidade do adulado com o adulador…. Há, porém, em contrapartida, muitas personalidades históricas que rechaçaram o puxa-saquismo.

Dos meus arquivos tirei uma exemplar passagem com Catarina II – A Grande, imperatriz da Rússia, que reclamou que estava sofrendo dificuldade na leitura e foi aconselhada a usar óculos. Um dos cortezões apressou-se a encomendar as lentes e levou-as para a Czarina; esta, para experimentar os óculos, pediu que lhe dessem algo para ler. Outro puxa-saco escreveu um cartão com palavras lisonjeiras enaltecendo-a. Catarina passou a vista e devolveu o escrito e as lentes ao bajulador, dizendo: – “Estes óculos não servem; aumentam demasiadamente…”.

No livro “A Verdade de um Revolucionário” o general Olímpio Mourão Filho, que comandou de frente o movimento militar de 1964, escreveu que – “Ponha-se na presidência qualquer medíocre, louco ou semianalfabeto, e vinte e quatro horas depois a horda de aduladores estará à sua volta”.

O general Mourão foi do tempo em que os oficiais superiores das FFAA estudavam e eram promovidos e condecorados por mérito. Deve ter aprendido a lição do Marquês de Maricá ao dizer que “os aduladores são como as plantas parasitas que abraçam o tronco e os ramos de uma árvore para melhor a aproveitar e consumir”.

Como observador da política nacional, parece-me que na geração do capitão Bolsonaro e do general Pazuello os militares aceitam de bom grado o aplauso enganoso.

Como governo, financiaram internautas nas redes sociais para defender sua política negacionista, com depoimentos elogiosos a remédios ineficazes e ao fraudulento “tratamento precoce”. E nas “motociatas” de campanha eleitoral feita com o dinheiro público são sorteadas motocicletas entre os participantes, atraindo muita gente….

Dessa maneira vamos vivendo sob o poder dos que não aprenderam com Napoleão Bonaparte, que “quem sabe adular também é capaz de caluniar”….