Artigo semanal publicado n’ O JORNAL DE NATAL
Lula: lavando as mãos como Pilatos
MIRANDA SÁ, jornalista (mirandasa@uol.com.br)
Procure na Bíblia e vá direto a Mateus, 26.27, quando Pilatos fez com que lhe trouxessem água e lavou as mãos diante do povo, e disse: “Sou inocente do sangue deste homem. Isto é lá convosco!” Foi aí que nasceu a expressão “lavar as mãos”, que o Aurelão define como “Não tomar a responsabilidade de…” ou “Furtar-se às conseqüências de…”
Dentro do mais puro espírito religioso e conhecimento léxico, Lula da Silva imita Pilatos no julgamento do Mensalão que corre no Supremo Tribunal Federal, entregando os companheiros aos ministros togados; e, cioso da projeção sobre os discípulos da filósofa Marilena Chauí, segue literariamente a definição do imortal Aurélio Buarque de Holanda, já falecido.
Sua Excelência chegou a declarar – entre centenas de afirmações inconseqüentes – que não tinha tempo para acompanhar o julgamento do ano na alta corte de Justiça. Na verdade ele tenta colar uma imagem impassível diante de fatos inconvenientes para sua posição – e fatalmente encontrará muitos idiotas que acreditarão nele e reproduzirão o disfarce astucioso da simulação de alguém que “não sabe de nada o que se passa à sua volta”.
É bom que se diga que Lula é sabido demais. Segue à risca a fórmula encontrada pelo experiente criminalista Márcio Thomaz Bastos, que foi seu ministro da Justiça, para fugir do envolvimento no lamaçal da corrupção ativa e passiva que jorrou dos diques palacianos com as comportas manipuladas pelo seu chefe da Casa Civil, Zé Dirceu. A técnica para escapar das responsabilidades é encarnar um amálgama dos três macaquinhos, um que não vê nada, outro que não ouve nada e mais um que tapa a boca para não dizer besteira.
A movimentação de compra e venda de apoio parlamentar era feito em salas contíguas à ocupada por Lula. Os protagonistas eram companheiros de sua intimidade, mas ele reproduz e procede a defesa estabelecida pelo seu advogado, repetindo à exaustão que não sabia de nada e nunca foi informado a respeito. É mentira, mas repercute com aplausos dos pelegos cooptados por verbas a fundo perdido, dos aparelhados com polpudos cargos comissionados e dos intelectuais “orgânicos” do partido.
A verdade é que Lula nunca quis saber da origem do dinheiro que pagava seu salário como funcionário do partido, suas viagens e campanhas eleitorais. Comenta essa situação factual, em texto enxuto, Lúcia Hipólito, fazendo-o com propriedade e interpretação de historiadora. Escreve Lúcia: “Lula nunca se preocupou com esses detalhes. Afinal, ele achava que tinha uma missão muito mais importante. Num indivíduo, pode-se tolerar tamanho descolamento da realidade. Mas num presidente da República é uma atitude inaceitável”.
Realmente, depois que sentou na cadeira presidencial, Lula estava obrigado a saber quem andava nos corredores do Palácio. E é inegável que viu Delúbio Soares, tesoureiro do partido, circular ao lado de empreiteiros e Silvio Pereira despachando com lideranças aliadas a nomeação de afilhados para cargos públicos. Finalmente, seria impossível desconhecer a atividade frenética de José Dirceu em reuniões intermináveis com centenas de comissões, dirigentes partidários do PT e da base aliada, no afã de avaliar pleitos e distribuir verbas e cargos na administração pública e diretorias de empresas estatais.
No plenário do STF passa uma reprise dos atos e fatos acontecidos no episódio do mensalão. O filme é visto sem censura pela TV- Justiça e informada e comentada nos jornais escritos, falados e televisados. Atores políticos conhecidos e figurantes desfilam na “sofisticada organização criminosa”, que ocupa o Estado e continua loteando o governo e pervertendo o Poder Legislativo. Na tela assiste-se a versão tragicômica de um presidente da República que nunca soube de nada. Esta negligência resoluta é crime. A História julgará.
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