Artigo saído n’ O JORNAL DE NATAL. Nas bancas
CPI dos Cartões, menosprezo da opinião pública
MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa@uol.com.br
A chamada “grande imprensa” através dos setoristas do Congresso Nacional e dos articulistas independentes, usou e abusou das críticas ao encerramento desavergonhado da CPI dos Cartões Corporativos. A censura procede; o que considero inaceitável é falar de “pizza”.
O fim melancólico dos trabalhos não merece uma comparação culinária. O que o Palácio do Planalto botou no forno não foi a famosa massa que é mais nova-iorquina e paulista do que italiana… O que assou na lenha do desmatamento amazônico foi a seriedade do comportamento político recheado com a credibilidade do Poder Legislativo.
Sabemos que é coisa nossa, contemporânea, o desrespeito às instituições republicanas desde que os costumes da pelegagem sindical tornaram-se usuais no Palácio do Planalto.
O raciocínio é simples: se o presidente da República usa e abusa do desprezo pela Lei, do elogio à impunidade e do desdém pela opinião pública, o que podemos esperar dos seus companheiros de partido e dos parceiros arrivistas e oportunistas?
É por isso que as improbidades administrativas do PT-governo ficam impunes. Basta o Planalto acionar os parlamentares presos pela coleira dos mensalões, e eis formada uma maioria sem honra e sem moral, descomprometida com os interesses nacionais.
No caso especial dos cartões corporativos foi muito pior. Pelo menos perpassou nos nossos olhos que o lulismo-petismo e o tucanato convergiram para evitar abrir – e levar ao conhecimento popular – os gastos palacianos e ministeriais, de FHC e de Lula.
Este resguardo dos governantes, evitando mostrar os desregramentos no uso da coisa pública, é em si mesmo uma imoralidade. Menos pela nojenta prática dos poderosos em tratar o Erário como propriedade particular do que pelo exemplo oferecido às novas gerações.
Exemplo já seguido por prefeitos e vereadores por este Brasil afora. Com raras e respeitáveis exceções, os escândalos e o roubo dos bens do Estado tornaram-se comuns a nível municipal. Quanto aos estados, não é estranho aos governos recém-eleitos, o rastro da desonestidade dos seus antecessores.
Esta situação é grave. E, evidentemente não serão as denúncias jornalísticas de CPIs abafadas nem o episódio patético dos “relatórios paralelos” de uma oposição de fancaria, que satisfarão à cidadania ciosa de decoro e de decência dos governantes.
A CPI dos Cartões Corporativos não abriu sequer esperançosas perspectivas de mudanças éticas do Congresso Nacional. Pelo contrário, deixou claro – de uma clareza meridiana – que os ilícitos praticados pelo bando de Lula da Silva, deixando sem um simples reparo o crime praticado pelos auxiliares da ministra Dilma Rousseff e dela própria.
É triste deixar sem uma advertência, por menor que fosse, os autores do chamado Dossiê FHC. Fica mal que a secretária-executiva da Casa Civil, Erenice Guerra, a diretora de Recursos Logísticos da Casa Civil, Maria de la Soledad Castrillo, e José Aparecido Nunes Pires, ex-secretário de controle interno da Casa Civil, não tenham sofrido sequer uma admoestação.
Finalmente é hilário – burlesco e cômico – o relatório do deputado petista Luiz Sérgio que isenta os ministros do governo Lula da Silva de irregularidades com o uso dos cartões e não mencionar o dossiê com gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Mais engraçado ainda foi o voto da maioria governista, o rolo compressor da amoralidade pelega. Os 14 governistas aprovaram o relatório que livrou as bandalheiras dos ministros Orlando Silva, freqüentador de tapiocarias, de Altemir Gregolin de churrascarias e a ex-ministra Matilde Ribeiro de free-shops, pagando “por equívoco” seus gastos com cartões corporativos.
A ridícula votação majoritária atingiu o máximo de menosprezo pela opinião pública, quando, livrando a cara dos companheiros, pediu explicações sobre gastos de ex-ministros da gestão Fernando Henrique Cardoso. Um verdadeiro escárnio.
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