Artigo publicado n’ O JORNAL DE HOJE de ontem

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O escândalo da vez tem até narcotráfico

MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa@uol.com.br

O novo escândalo político traz todos os ingredientes de novela das 8 da TV-Globo. O duelo de duas mulheres de personalidade forte, a ex-diretora da Anac, Denise Abreu, e a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Denise passa de acusada a acusadora e tornou público estórias perturbadoras que eram cochichadas nos altos escalões políticos e empresariais de Brasília.

Trata-se da indecência que cerca a compra da Varig pela VariLog. Os demais componentes do folhetim são estrangeiros controladores de fundos suspeitos, sócios brasileiros sem dinheiro, um compadre do Presidente da República e até supostas relações com o narcotráfico para lavagem de dinheiro e transporte de drogas.

Denise Abreu acusa diretamente a Ministra, afirmando que em 2006, ela fez pressão para forçar a venda da Varig para uma empresa sob controle estrangeiro – o que é proibido por lei. E foi além, impediu que fossem feitas investigações sobre compradores, insinuando não ser conveniente investigar o prontuário deles na Receita Federal.

É digno de registro o fato de que a denúncia não vem isolada. Além de Denise, outro ex-dirigente da Anac, Josef Barat acusa Dilma de ter pressionado a Agência para favorecer os pretendentes, assessorados pelo advogado Roberto Teixeira, amigo e compadre de Lula da Silva.

Embora a ministra Dilma negue tudo, a denúncia provocou estrondosas reações políticas tanto na oposição parlamentar como na opinião pública. Mas, em nome da verdade, a Casa Civil da Presidência da República já se enredava no caso Varig, provocando sua falência e estimulando as negociações para sua compra.

Embora inesperada, a participação de Dilma está cercada de fatos concretos: além dos depoimentos de ex-diretores da Anac, tem o testemunho do brigadeiro José Carlos Pereira, ex-presidente da Infraero, e, além disso, Denise Abreu afirma possuir registros e documentos que comprovam sua denúncia.

Diante do que está posto, temos o que poderia se chamar de “novidade estratégica”, porque o levantamento do caso vem de pessoas que ocuparam altos cargos no PT-governo, enfronhados com as práticas correntes e conhecendo os personagens envolvidos.

Assim, depois de várias acusações de ilicitudes e corrupção lançadas contra o PT-governo e o presidente Lula da Silva, estamos diante de um grave acontecimento político, tão estarrecedor que as defesas até agora ensaiadas são insuficientes para impedir o aprofundamento das investigações.

No mínimo, fica claro o tráfico de influência que aponta para a ministra Dilma e gente da copa e da cozinha de Lula da Silva, o seu compadre Roberto Teixeira e a afilhada Valeska Teixeira, que era (ou é) a advogada da VarigLog que interveio diretamente na negociação, segundo Denise Abreu.

Há também pitadas de tempero forte nessa história, as insinuações de que a Ministra é vítima de “fogo amigo”, pois, como se sabe, Denise foi para Anac por indicação de José Dirceu, seu colega de faculdade. A bomba estourou quando a CPI dos Cartões foi abafada e ficou nítida a preferência de Lula pela candidatura presidencial de Dilma.

A oposição parlamentar ensaia uma convocação da Ministra para falar sobre o caso no Senado Federal, mas a Justiça paulista assumiu uma medida concreta, encaminhando à Procuradoria-Geral da República pedido para que seja investigada a denúncia da interferência governamental na venda da Varig.

De acordo com o autor do ato jurídico, o juiz José Paulo Magano, da 17ª Vara Cível de São Paulo, “os indícios apontam para a prática de crime envolvendo a ministra Dilma Rousseff e a secretária-executiva Erenice Guerra”.

E agora, José? Como atuará a base governista na defesa do indefensável? Qual será a tática para blindar a Ministra-Chefe e candidata de Lula? O que resta da esquerda no PT-governo deve estar pensando como o bravo jornalista Pedro Porfírio escreveu semana passada:

“(…) Prefiro a menina Dilma dizendo não do que a coroa Rousseff dizendo “sim, senhor”. Muitos, não. Adoram a maturidade forjada nas delícias do poder com o sangue juvenil esvaindo-se na transfusão de apetites pragmáticos…”

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