Aprovação no Senado – Míriam Leitão comenta
Avanço foi tirar caráter ditatorial do pacote
Depois de aprovado o pacote, o Senado passou a bola para a Câmara em Washington. A Câmara dos Deputados está agora com a palavra final, e, desta vez, deve ser um “sim”.
Por dois motivos. Primeiro porque os deputados ficaram sozinhos e sobre eles recairá o custo de qualquer agravamento da crise. Segundo: os mesmos eleitores que estavam pressionando para seu deputado votar contra perderam dinheiro na terça-feira, tomaram um susto e mudaram de idéia.
O pacote votado ontem tem algumas modificações, incluídas na Câmara, como a liberação do dinheiro em parcelas; a fiscalização dessas verbas; e o recebimento de ações das empresas ajudadas. Tem também novidades, como um seguro contra corrida bancária.
Os senadores ampliaram o limite do dinheiro da conta bancária, que está garantido. Só que o fundo garantidor tem apenas US$ 45 bilhões para garantir US$ 4,5 trilhões de depósitos. Então, os senadores estabeleceram que o fundo pode pegar empréstimos sem limites com o Tesouro americano.
Outras bondades foram incluídas: corte de impostos para a classe média e até incentivo a investimentos verdes. O pacote aumentou muito o risco fiscal em um país já deficitário.
O grande avanço, no entanto, foi tirar o caráter ditatorial do pacote original. O governo tinha pedido que se desse um cheque ao secretário do Tesouro para ele gastar como quiser, sem supervisão e sem prestar contas à Justiça. Era inaceitável.
A Câmara pode aprovar o pacote amanhã, mas o governo terá que convencer a base republicana. É lá que está o problema. O pacote, mesmo quando for aprovado, não vai acabar com a recessão. As vendas de carros, por exemplo, caíram 30% em setembro.
Por que a repercussão tão rápida da crise no Brasil?
Se faltar crédito para a agricultura brasileira, especialmente para exportação, pode haver uma redução drástica no crescimento. Como é que essa falta de crédito nos Estados Unidos pode repercutir tão rapidamente na economia real no Brasil?
Parece estranho que a venda de um carro no Brasil ou o clima do Natal tenha a ver com o que acontece nos Estados Unidos, mas o mundo globalizado é assim: muito do dinheiro que é oferecido aqui a quem compra vem de empréstimos tomados no mercado americano.
Com o medo da crise, os bancos americanos trancaram o dinheiro. Não emprestam para ninguém. Aí os do Brasil também começam a segurar o dinheiro ou a cobrar mais caro, ainda que a gente não tenha nada a ver com a confusão deles. O pacote, se for aprovado, não acaba com a crise, mas reduz o medo lá e quem sabe o mercado de crédito melhora aqui.
Uma medida que o Banco Central brasileiro pode fazer é liberar mais o compulsório, que é o dinheiro das contas correntes e das aplicações financeiras que os bancos têm que recolher ao Banco Central. Se eles tiverem mais liberdade com esse dinheiro, aí haverá mais dinheiro irrigando a economia.
Mas o governo está pensando errado quando acredita que pode substituir o mercado de crédito usando apenas os bancos estatais. O mercado de crédito como um todo é que precisa voltar a funcionar.
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