ABC da crise – Míriam Leitão comenta

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 Recuperação da economia pode ser em ‘W’

Apareceu mais uma letra na sopa de letrinhas do cardápio de recuperação da crise. Depois do “L” (queda forte da economia, permanecendo nesse patamar mais baixo), do “V” (queda forte e recuperação também forte), e do “U” (queda com recuperação lenta), surgiu agora o “W”. Ela significa queda forte, pequena recuperação, nova queda, e recuperação definitiva.

Para o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otávio de Souza Leal, esse é o cenário que vem ganhando força para explicar o comportamento das bolsas, que subiram muito este ano depois do tombo no final do ano passado. Ele explica que esse otimismo nos mercados vem sendo pautado por duas esperanças: a de que os testes de estresse nos bancos americanos tenham afastado de vez o receio sobre eles, e a de que a recuperação da economia mundial aconteça antes do que se previa.

“Infelizmente, na nossa opinião, o mercado poderá se frustrar com essas duas premissas até o final de agosto, de modo que, apesar de considerar que a trajetória mais provável para a economia real seja de U com um vale longo, poderemos ter um W nos mercados”, afirmou Leal em relatório do banco.

A exemplo do que já falou aqui ao blog a economista Mônica de Bolle, da Galanto Consultoria, Leal enxerga que os cenários traçados pelos testes de estresse não são tão “estressantes” assim. Ou seja, o Tesouro americano pegou leve e não simulou os cenários que poderiam levar os bancos à falência.

É isso o que também tem dito o economista Nouriel Roubini, que fez uma lista com os 10 pontos fracos dos testes de estresse. O principal deles, na avaliação do Luis Otávio Leal, é o desemprego:

“A principal variável em questão é o desemprego, que tem impactos profundamente relevantes para auferir o nível de inadimplência nas carteiras de crédito. Segundo o parâmetro do modelo utilizado do teste, o desemprego chegaria a uma média de 10,3% em 2010. Entretanto, caso a perda de emprego nos próximos meses estabilize-se no intervalo entre 400.000 e 500.000 postos perdidos, chegaríamos a uma taxa de desemprego de 10% no outono, de 10,5% ao final de 2009 e a 11% em algum momento de 2010. Portanto a média de 10,3% de desemprego seria alcançada já em 2009 e não em 2010” ilustrou Leal.

Se esse cenário de desconfiança sobre os testes se confirmar, podemos ter o surgimento de “bancos zumbis”, ou seja, bancos que não foram à falência, mas ao mesmo tempo não são confiáveis pelo mercado.

Como se pode ver, o jogo ainda não está ganho e as ameaças de uma nova queda permanecem.

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