Artigo de Dora Kramer

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De Miranda Sá: Dora Kramer dispensa apresentação. Seus textos exuberantes em informações que interessam à cidadania, não podem ficar circunscritos ao jornal que publica seus artigos. Vamos abrir aspas para Dora, concordando em gênero, número e grau com este texto:

O último a saber

O papel já foi de Waldomiro Diniz, de José Dirceu, de Delúbio Soares, de José Genoino, de Silvio Pereira, da falta de reforma política, da prática do caixa 2, de Antonio Palocci, dos aloprados, de Waldir Pires, da Aeronáutica, da Anac e de inúmeros outros personagens e motivos escalados pelo presidente Luiz Inácio da Silva para assumir responsabilidade exclusiva por episódios aos quais caberia a ele, como chefe da Nação, responder. A missão parece ser por ora de Nelson Jobim. Trata-se de uma sistemática por meio da qual Lula busca sempre separar sua figura de acontecimentos desfavoráveis, passíveis de lhe render desgaste político. O velho truque de alegar que não “sabia de nada” tem por objetivo pesado e medido construir com eficácia a imagem de político “teflon”, em quem nada “pega”.

Agora de novo, fez o mesmo. Sem nenhuma preocupação em adaptar sua versão ao tempo enorme que teve para se inteirar da amplitude, da profundidade e das ramificações da crise aérea, o presidente alegou desconhecer a gravidade do problema e, por isso, não agiu a contento. Pelas palavras do presidente Luiz Inácio da Silva, ao pontuar que o “cachorro sem dono” do setor aéreo passou à propriedade do ministro da Defesa, depreende-se que se algo sair errado a responsabilidade será de Jobim. Está, portanto, escalado para ser o culpado da vez. Inclusive porque, se sair-se bem da tarefa de organizar o sistema de tráfego aéreo, não serão dele os louros. Lula saberá como soube fazer até com idéias que no passado combateu – o plano de estabilização econômica, por exemplo -, avocar para si o direito aos benefícios.

Dirá que foi dele a idéia de nomear Jobim, como se não tivessem sido seus subordinados – governamental e partidariamente falando – todos os outros de quem, com rara habilidade, Lula marcou distância no momento preciso e na medida das possibilidades da ocasião.Não sabia que a crise era tão grave, disse o presidente às doutas excelências integrantes de seu conselho político. Reverentes e agradecidas pela promessa de que em 15 dias teriam todos os seus pleitos fisiológicos atendidos, sequer simularam perplexidade diante de tal confissão. Confessou que durante dez meses, desde o acidente do Boeing da Gol, não fez a menor questão de se inteirar do problema, que não se deu ao trabalho de prestar atenção ao relatório feito em 2003 por seu então ministro da Defesa, José Viegas, não escutou os alertas da Aeronáutica e confessou também que não lê jornal, não assiste a noticiários de televisão, não tem quem lhe dê no Palácio do Planalto informações e, portanto, nem de ouvido governa.

Embora o faça sobejamente da boca para fora.

Dora Kramer, jornalista

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