Poesia

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As Jóias

 

A amada estava nua e, por ser eu o amante,

Das jóias só guardara as que o bulício inquieta,

Cujo rico esplendor lhe dava esse ar triunfante

Que em seus dias de gloria a escrava moura afeta.

Quando ela dança e entoa um timbre acre e sonoro,

Este universo mineral que à luz fulgura

Ao êxtase me leva, e é com furor que adoro

As coisas em que o som ao fogo se mistura.

Ela estava deitada e se deixava amar,

E do alto do divã, imersa em paz, sorria

A meu amor profundo e doce como o mar,

Que ao corpo, como à escarpa, em ondas lhe subia.

O olhar cravado em mim, como um tigre abatido,

Com ar vago e distante ela ensaiava poses,

E o lúbrico fervor à candidez unido

Punha-lhe um novo encanto às cruéis metamorfoses.

E sua perna e o braço, a coxa e os rins, untados

Como de óleo, a imitar de um cisne a fluida linha,

Passavam diante de meus olhos sossegados;

E o ventre e os seios, como cachos de uma vinha,

Se aproximavam, mais sutis que Anjos do Mal,

Para agitar minha alma enfim posta em repouso,

Ou arrancá-la então à rocha de cristal

Onde, calma e sozinha, ela encontrara pouso.

Como se à luz de um novo esboço, unida eu via

De antíope a cintura a um busto adolescente

De tal modo os quadris moldavam-lhe a bacia.

E a maquilagem lhe era esplêndida e luzente!

– E estando a lamparina agora agonizante,

Como na alcova houvesse a luz só da lareira,

Toda vez que emitia um suspiro faiscante,

Inundava de sangue essa pele trigueira.

 

Charles Baudelaire

 

 O Poeta

 

 

Órfão de pai aos seis anos, Charles-Pierre Baudelaire (1821, Paris, França-1867, Paris) viria a odiar o segundo marido da mãe, o general Jacques Aupick (mais tarde, esse sentimento inspiraria sua atitude rebelde em face das convenções sociais e dos temas frívolos na poesia).

 

Após anos de desavenças com o padrasto, Baudelaire interrompeu os estudos em Lyon para fazer uma viagem à Índia. Na volta, participou da Revolução de 1848.

 

Após esse período conturbado, passou a freqüentar a elite aristocrática. Envolveu-se com a atriz Marie Daubrun, a cortesã Apollonie Sabatier e a também atriz Jeanne Duval, uma mulata por quem se apaixonou e a quem dedicou o ciclo de poemas “Vênus Negra”.

 

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