Poesia

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Oh! Não Maldigam!

 

Oh! não maldigam o mancebo exausto

Que nas orgias gastou o peito insano…

Que foi ao lupanar pedir um leito,

Onde a sede febril lhe adormecesse!

 

Não podia dormir! nas longas noites

Pediu ao vício os beijos de veneno…

E amou a saturnal, o vinho, o jogo

E a convulsão nos seios da perdida!

 

Misérrimo! não creu… Não o maldigam,

Se uma sina fatal o arrebatava…

Se na torrente das paixões dormindo

Foi naufragar nas solidões do crime.

 

Oh! não maldigam o mancebo exausto

Que no vício embalou, a rir, os sonhos,

Que lhes manchou as perfumadas tranças

Nos travesseiros da mulher sem brio!

 

Se ele poeta nodoou seus lábios…

É que fervia um coração de fogo

E da matéria a convulsão impura

A voz do coração emudecia!

 

E quando p’la manhã da longa insônia

Do leito profanado ele se erguia,

Sentindo a brisa lhe beijar no rosto

E a febre arrefecer nos roxos lábios…

 

E o corpo adormecia e repousava

Na serenada relva da campina…

E as aves da manhã em torno dele

Os sonhos do poeta acalentavam…

 

Vinha um anjo de amor uni-lo ao peito,

Vinha uma nuvem derramar-lhe a sombra…

E a alma que chorava a infâmia dele

Secava o pranto e suspirava ainda!

 

Álvares de Azevedo

O Poeta

Manuel Antônio Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo a 12 de setembro de 1831 e morreu no Rio de Janeiro a 25 de abril de 1852. Bacharelou-se em Letras no Colégio Pedro II, do Rio de Janeiro, e freqüentou a Faculdade de Direito de São Paulo, onde não chegou a completar o curso, por ter falecido com vinte e um anos de idade, antes de concluir o quarto ano.

Dotado de prodigiosa versatilidade, dominava todas as manifestações da poesia, desde a cândida melancolia do lirismo à impudica desfaçatez do erotismo. Deve notar-se que, na maioria dos seus poemas, flutua um ambiente funesto, onde a morte constitui o tema central.

 

Parece ter havido no poeta o constante pressentimento dos breves anos que iria viver. Por estranho paradoxo e para mais realçar a elasticidade dos seus recursos, foi ele, o poeta dos versos sombrios e cinzentos, quem introduziu o humorismo na poesia brasileira. A irreverente ironia de alguns dos seus poemas chega a fazer duvidar que tivessem saído da pena desesperada que compôs os outros.

Alvares de Azevedo é a patrono da Cadeira N.o 2 da Academia Brasileira de Letras.

Algumas das obras de Álvares de Azevedo são sa seguitnes: Poesia: Obras I, Lira dos Vinte Anos (1853), Prosa: Obras II, Macário, A Noite na Taverna (1855) etc.

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