Viés de baixa
É da natureza do mercado ser complacente na época da ganância e ser superseletivo nas crises. A Rússia pagou caro a invasão da Geórgia, que em outros tempos passaria despercebida. A Petrobras perdeu R$ 23 bilhões de valor de mercado numa tarde porque seus custos assustaram. O dólar voltou a disparar, lembrando que a crise não acabou. Neste contexto, os erros são sempre punidos.
O movimento dos fluxos de capitais, como se sabe, tem a inteligência rasa das manadas. Criam-se modismos nas interpretações dos fatos. Assim foi com a idéia do decoupling, a quimera de que os Estados Unidos se afundariam sozinhos e a China seguraria o mundo, que capturou mentes pelo mundo.
É também da natureza do animal “mercado” o tudo ou nada; a ganância ou o medo; o azul ou o vermelho. Não há meios-tons. A Rússia poderia ter invadido a Geórgia em outros momentos, mas o fez na entrada da crise internacional e no começo da queda do preço do petróleo. Tudo somado, o capital externo fugiu. Os investidores diziam que o país tinha se ocidentalizado e democratizado. De repente, viram a cara da velha Rússia expansionista e sob o autoritarismo de Putin. Na fuga dos investidores, ela já perdeu US$ 100 bilhões de reservas tentando defender a moeda, e a sangria ainda não acabou. Sem a abundância do petróleo caro, pode-se ver todos os defeitos do país: inflação alta, salários crescendo a nível insustentável; um governo ditatorial, máfias e devaneios imperialistas.
A ação da Petrobras despencou, depois que a empresa divulgou um balanço com o maior lucro em um trimestre — ontem, a ação subiu 2%, junto com a Bovespa, que acompanhou as bolsas dos EUA e fechou em alta. Em outras épocas, o mercado olharia só os lucros. Desta vez, viu, dentro do balanço, números de gastos que aumentaram 41%. Só com estudos e consultorias, R$ 1 bilhão. Gastos operacionais não discriminados subiram de R$ 900 milhões para R$ 2,3 bilhões no trimestre. Isso somado à queda do petróleo e seu impacto no pré-sal. Quem olharia os aumentos de custos operacionais? Quem se incomodaria com a conhecida opacidade da estatal em épocas de fartura? Só que agora há muito mais cuidado na alocação de recursos de portfólio; os investidores institucionais perderam muito dinheiro pelo mundo afora; administradores de carteira estão sendo cobrados. O mercado ganhou lupa e está olhando tudo através dela.
A Espanha, que vivia tempos áureos até outro dia, está amargando agora uma taxa de desemprego que pode chegar a 17%, segundo a Asociación Espanõla de Banca. Deve chegar a quatro milhões de desempregados. O número de novos imóveis caiu 60%, mais que nos EUA. O déficit público deve chegar a 4% do PIB em 2009 e todas as previsões para o ano que vem são de queda no PIB espanhol, como a do FMI, de -0,7%, e a do Morgan Stanley, de -0,9%. Piores do que o magro 1% previsto pelo governo.
O governo brasileiro gosta de repetir que está muito bem nessa crise. Está melhor que outros países, mas pior do que imagina. A dívida interna no governo Lula subiu de 40% para 51% do PIB. E essa dívida custa quase 14% ao ano. O superávit primário foi mantido, mas o país ainda tem déficit nominal. O desemprego vai aumentar e o FAT, que garante o seguro-desemprego, virou o fundo das mil e uma utilidades. O setor público é credor em dólar, mas, ano que vem, as empresas brasileiras têm que pagar dívidas de US$ 40 bi e vai ser difícil irrigar essa necessidade com as reservas.
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