Poesia

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O Pequeno Pedinte

 

Tinha oito anos!

 

A pobrezinha da criança sem pai nem mãe, que vagava pelas ruas da cidade pedindo esmola aos transeuntes caridosos, tinha oito anos.

 

Oh! Não ter um seio de mãe para afogar o pranto que existe no seu coração!

 

Pobre pequeno mendigo!

 

Quantas noites não passara dormindo pelas calçadas exposto ao frio e à chuva, sem o abrigo do teto!

 

Quantas vergonhas não passara quando, ao estender a pequenina mão, só recebia a indiferença e o motejo!

 

Oh! Encontram-se muitos corações brutos e insensíveis!

 

É domingo.

 

O pequeno está à porta da igreja, pedindo, com o coração amargurado, que lhe dêem uma esmola pelo amor de Deus.

 

Diversos indivíduos demoram-se para depositar uma pequena moeda na mão que se lhes está estendida.

 

Terminada a missa, volta quase alegre, porque sabe que naquele dia não passará fome.

 

Depois vêem os dias, os meses, os anos, cresce e passa a vida, enfim, sem tragar outro pão a não ser o negro pão amassado com o fel da caridade fingida.

 

Graciliano Ramos – Viçosa, 24 de junho de 1904.

 

 

 

O Poeta

Este pequeno conto é um dos primeiros momentos de Graciliano Ramos (1892-1953) no mundo da literatura. Tinha doze anos e já demonstrava senso literário. O DILÚCULO foi um pequeno jornalzinho editado em Viçosa, cidade do estado de Alagoas.

 

Apesar da tênue idade, matizes psicológicas já podem ser sentidas, “fel da caridade fingida”, nessa frase percebemos intrinsecamente que Graciliano Ramos já “sentia”, mesmo sendo ainda muito jovem, problemas de personalidade humana, geralmente sentidos por pessoas adultas. Seu destino como escritor estava traçado.

 

 

 

 

 

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