Poesia

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 Brincava a criança

 

Brincava a criança 

Com um carro de bois. 

Sentiu-se brincado 

E disse, eu sou dois! 

Há um brincar  

E há outro a saber, 

Um vê-me a brincar 

E outro vê-me a ver. 

 

Estou atrás de mim 

Mas se volto a cabeça 

Não era o que eu qu’ria 

A volta só é essa…  

 

O outro menino 

Não tem pés nem mãos 

Nem é pequenino 

Não tem mãe ou irmãos.  

 

E havia comigo 

Por trás de onde eu estou, 

Mas se volto a cabeça 

Já não sei o que sou. 

 

E o tal que eu cá tenho 

E sente comigo, 

Nem pai, nem padrinho, 

Nem corpo ou amigo, 

 

Tem alma cá dentro 

‘Stá a ver-me sem ver, 

E o carro de bois 

Começa a parecer.

 

Fernando Pessoa (1888-1935)

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