Lembrança
Hoje é dia de lembrar Betinho. Em 09/08/1997 ele se foi. O texto abaixo é parte de uma carta deixada por Betinho com amigos para ser entregue à sua esposa, Maria Nakano, após sua morte.
O amor em tempos de Aids
No Brasil, depois do exílio, nossas vidas pareciam bem normais. Trabalhávamos e viajávamos nas férias. Tiradentes, São João del Rei, Serro, Milho Verde, Diamantina, Bocaiúva, Montes Claros, Curvelo, Pirapora e várias outras cidades.
Sempre a volta a Minas. Freqüentávamos casas de amigos, o IBASE funcionava, até a hemofilia parecia ter dado uma trégua. Henrique crescia, Daniel aos poucos se reaproximava de mim, já como filho e amigo. A normalidade e até as tentações de uma sexualidade que ainda buscava se livrar das amarras do passado católico repressivo e castrador.
Mas, como uma tragédia que vem às cegas e entra pelas nossas vidas, estávamos diante do que nunca esperei: a AIDS. Em 1985, surge a notícia da epidemia que atingia homossexuais, drogados e hemofílicos. A notícia chegou pela voz de um médico hemofílico que fazia um estágio no Instituto Pasteur e lá descobriu que estava com AIDS, era o Dr. Bare, jovem e forte. Chegou ao Brasil e reuniu os hemofílicos do Centro Santa Catarina e disse: “Estamos todos com AIDS, é fatal e vamos morrer”. E morreu.
O pânico foi geral. O Chico saiu da reunião contando a nova. Eu, é claro, havia entrado também nessa, como se não bastasse ter nascido mineiro, católico, hemofílico, maoísta e meio deficiente físico pelas marcas da hemofilia. Era necessário entrar na onda mundial, na praga do século, mortal, definitiva, sem futuro, fatal.
Era o Henfil, o Chico, eu e as três mulheres. Por sorte, nenhuma delas foi contaminada. Isso salvava metade do barco, mas a outra estava condenada ao naufrágio.

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