Artigo publicado n’ O JORNAL DE HOJE
A cega puxando o cego
MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa@uol.com.br
Tive a honra e o privilégio de conviver com os ícones da cantoria nordestina nos anos em que a intelectualidade acadêmica descobriu-os e cultuou-os. Câmara Cascudo com sua genialidade chamou os improvisos dos desafios – as famosas “pelejas” – de Literatura Oral, termo que atribui a Paul Sebillot. Sua observação genial é que esta se transformava em Literatura Popular na medida em que passavam a ser impressas.
Alcancei a Literatura Oral com todo o seu brilho em Campina Grande, passagem obrigatória de famosos violeiros e cantadores na década de 60 do século passado. Lá aplaudi os irmãos Batista, Dimas, Lourival e Otacílio e privei da amizade de Cícero Bernardes.
No Bar de Chico Brabo – ah, que saudade da Cabeça de Galo! – reuniam-se os mais festejados poetas campinenses. Orlando Tejo, Raymundo Asfóra, Ronaldo Cunha Lima e, de vez em quando, Vital do Rego. Os inesquecíveis Fernando Cunha Lima, Figueiredo Agra e Roberto Chabo, que já se foram; Agnelo Amorim e Odimar Agra que estão vivos para contar a História…
Foi naquela época que ouvi o mote “A cega puxando o cego e o cego puxando fogo”, que Asfóra deu para os nossos menestréis improvisarem. Foi este mote que reviveu na minha memória ao acompanhar o embroglio da Justiça que realça o caso Daniel Dantas.
Sinto que a Justiça, cega, vai puxando o povo brasileiro, cego e puxando fogo, apesar da Lei Seca… É o quadro poético em que se vê a Polícia Federal agindo de forma objetiva em favor da Nação e produzindo resultados aplaudidos pelo povo como se viu na Operação Satiagraha.
Na paisagem se encontra também, o Poder Judiciário obediente ao Estado de Direito e cumprindo seus objetivos. Mas a Justiça Cega parece meio perdida no meio do tiroteio.
De um lado temos o ministro Gilmar Mendes criticando acertadamente “espetacularização” das prisões, que sem dúvida alguma condena antecipadamente os envolvidos. Ao seu encontro vai o Ministério Público Federal também acertadamente querendo punir suspeitos carregados de provas de envolvimento em fraudes financeiras.
A ação policial que a PF realizou seguiu a tradição de prender pessoas que as investigações fazem acreditar criminosas. O MP defendeu que fossem mantidas na prisão até o fim do inquérito. O STF, por seu presidente, concedeu habeas-corpus ao principal acusado, o banqueiro Daniel Dantas.
De novo, o juiz federal da primeira entrância determinou nova prisão – alertando para o poder e a contumácia de corrupção de Dantas, e novamente o ministro Gilmar Mendes ordenou a soltura do banqueiro.
Esta situação complexa do prende e solta personalidades de projeção política e social não é entendida pelo povo. Na maioria estamos perplexos sem compreender o porquê do choque doutrinário.
Na maioria, repito, consideramos que se deveria acatar o isolamento de Daniel Dantas pelos seus antecedentes, acusado que é de escutas telefônicas ilegais e espionagem sobre juízes de São Paulo para descobrir o que havia contra ele na Justiça. Ele tentou subornar um delegado e nas suas anotações contábeis faz referência a um suborno.
A prisão dos implicados pela Operação Satiagraha é importante principalmente por serem responsáveis – segundo o relatório policial – por sério abalo no sistema financeiro e prejuízos incalculáveis para a União.
É indiscutível que a prisão preventiva tem cabimento pela conhecida esperteza dos acusados e não somente para evitar sua fuga. É uma medida exemplar. Mostra que as operações da PF não distinguem classe social, credo religioso ou ideologia política.
No caso em pauta, o inquérito está comprovadamente neutro. Quanto ao aspecto jurídico, estabelece-se uma contradição entre o STF e juízes e procuradores federais que criticam o habeas-corpus.
Tem também a opinião do ministro Tarso Genro, da Justiça, que considera “muito difícil” que o banqueiro Daniel Dantas consiga provar ser “inocente”, pois há “farta prova dentro do processo” e “está praticamente comprovado” que tentou comprar um delegado da Polícia Federal, além da descoberta de crimes financeiros.
Acirrar essas contraditas não é patriótico. Esperemos, pois.
Comentários Recentes