Artigo publicado n’ O JORNAL DE HOJE de 2ª feira
Estamos vivendo uma “guerra do ópio”
MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa@uol.com.br
Noticiam os jornais que o resgate de Ingrid Betancourt do cativeiro mantido pela Farc, não abalou a estrutura dos narcotraficantes. Segundo informações fidedignas as Farc mantêm cerca de 10 mil homens em armas e fatura anualmente US$ 400 milhões com a cocaína.
Isso me levou há meio século atrás, aos bancos escolares quando era apaixonado pelo estudo da História. Estudei no ginásio com o professor Wilson Pinto a descarada ação colonialista da Inglaterra na China, que ficou conhecida como a “Guerra do Ópio”.
Na verdade, foram duas guerras. A primeira, deflagrada sob como pretexto da repressão do imperador chinês ao contrabando de ópio, prendendo e expulsando os traficantes, e apreendendo a droga contrabandeada.
A Inglaterra, que tinha interesse em proteger o tráfico, pois o contrabando era feito por comerciantes patrícios estabelecidos em Cantão fez a guerra e venceu; a China assinou uma humilhante rendição, entregando Hong-Kong ao domínio inglês e franqueando cinco portos para o comércio sob controle estrangeiro.
A segunda Guerra do Ópio estourou quando autoridades chinesas revistaram um navio de bandeira inglesa, suspeito de carregar a droga. A Grã-Bretanha se aliou à França e juntos impuseram à China a abertura de mais 11 portos ao comércio internacional, além de garantir a livre movimentação dos mercadores europeus e dos missionários cristãos.
Naquele tempo a vitória européia sobre as colônias era facílima. No caso da China foi um confronto de couraçados e canhões contra juncos feitos de palha e armas brancas. Assim as potências imperialistas impunham o que queriam pela força.
Hoje, no caso do narcotráfico a guerra é psicológica. Acompanhe-se as ocorrências no Afeganistão e veja-se o que ocorre com a guerrilha na Colômbia. No país andino, tudo teve início sob inspiração das lutas de libertação nacional que ocorriam na Ásia e na África sob inspiração dos partidos comunistas e apoio da antiga URSS.
Com o fim da URSS e a debandada dos partidos comunistas criados à imagem e semelhança do PCUS, os guerrilheiros colombianos abandonaram os princípios ideológicos e desviaram a conduta ética, aderindo à criminosa proteção dos cartéis da cocaína e a ignominiosa prática de seqüestros.
E mantiveram-se combatendo os governos democráticos do país com a solidariedade de movimentos e partidos ditos de esquerda na América Latina. Essa parceria favoreceu trocas de proteção, financiamento de campanhas eleitorais e lavagem de dinheiro.
No Brasil é o PT que mantém estreito relacionamento com as Farc, como acaba de revelar o ex-chanceler Luíz Felipe Lampreia. Diz o embaixador que durante sua gestão no Itamaraty, dirigentes do PT se ofereceram como mediadores de um contato do governo Fernando Henrique com o comando dos narcotraficantes, e o intermediário ocupa importante cargo no PT-governo.
Assim, não se pode duvidar que a guerra psicológica da cocaína – versão contemporânea das guerras do ópio – atue dentro do território nacional. E uma ação recente, de acordo com alguns, parece favorecer o uso da droga colombiana. É a tal da Lei Seca.
A apresentação é justa e os resultados animadores. Combater a irresponsabilidade de motoristas reprimindo o uso do álcool é louvável e já se obteve números positivos nas estradas e nos hospitais.
Uma questão, porém, fica no ar: é proibido dirigir o automóvel depois de tomar uma taça de vinho no almoço; mas está liberado fumar maconha ou cheirar cocaína e dirigir, pois o bafômetro não registra o estado do motorista.
Vemos que a Lei Seca traz dois inconvenientes básicos: um deles é que põe em pé de igualdade o alcoólatra que dirige um carro irresponsavelmente com o consumidor social que toma duas ou três doses de uísque em almoços e jantares, muitas vezes por força do trabalho.
A outra impropriedade da Lei está nas penas aplicáveis. Um motorista que tomou uma taça de vinho pode ser multado em R$ 952, ter o veículo apreendido e perder a carteira; mas quem cheirou cocaína ou fumou um baseado passa flanando por qualquer blitz, criando mais risco de acidentes do que o primeiro.
Diante disso, os adeptos da teoria da conspiração – que não são poucos e estão bombando na Internet – suspeitam que a proibição de doses mínimas de bebidas alcoólicas é um incentivo para o consumo do pó e da erva. E que isso pode ser uma artimanha do pessoal das Farc infiltrado no PT-governo…
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