Gabeira: “Falta falar a mesma língua”
Embora lamente a recente saída de Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente, a quem considera séria e bem-intencionada, o deputado federal Fernando Gabeira, do Partido Verde, acha que existe agora uma boa oportunidade para o governo traçar uma política mais eficiente nessa área.
1 – Os jornais estrangeiros trataram a saída de Marina Silva e sua substituição por Carlos Minc no Ministério do Meio Ambiente como um retrato do fracasso brasileiro nessa área. O senhor concorda?Minc deixou claro que não vai negar toda a gestão de Marina. O problema não está nas pessoas que ocupam o Ministério do Meio Ambiente, mas na falta de uma política mais clara e efetiva. Falta o governo falar a mesma língua sobre o assunto.
2 – Quando assumiu o ministério, Marina Silva colocou ativistas radicais de ONGs em postos-chave da pasta. Isso não contribuiu para aumentar a confusão?A pauta das ONGs não pode ser mais importante do que os interesses do país. O fato de essas entidades serem contra questões como os transgênicos não pode definir a posição do Brasil sobre esses assuntos. E foi isso o que acabou acontecendo.
3 – Foi por isso que perdemos muito tempo com os processos de aprovação de sementes? Sim.
A posição do Brasil não foi clara. Primeiro, proibimos. Depois, fomos forçados a liberar por causa da pressão das plantações clandestinas que utilizavam transgênicos. Deveríamos fazer como o Canadá. O país liberou a prática, mas criou um sistema muito rígido de fiscalização. Quando se planta sem liberação, o governo vai lá e confisca.
4 – No passado, o senhor também já atuou como um ambientalista fervoroso. Com o tempo, acabou revendo essa posição. Por que os ecologistas brasileiros de hoje têm dificuldade para abandonar as bandeiras mais radicais?Essas grandes mudanças históricas levam um tempo para ser absorvidas. Foi assim com as esquerdas, após a queda do Muro de Berlim. Acredito que algo semelhante deve acontecer com as ONGs nos próximos anos. Com o tempo, elas devem abandonar suas bandeiras mais radicais.
5 – O mundo inteiro tem dificuldade em encontrar um meio-termo entre desenvolvimento econômico e respeito à natureza. Existem particularidades brasileiras que dificultam ainda mais o encontro de um meio-termo?O Brasil é uma potência mundial no agronegócio. Em razão disso, no país, a floresta está constantemente sob a pressão de abertura de novas fronteiras agrícolas.
6 – Ao assumir o ministério, Carlos Minc disse que os agricultores são responsáveis pelo desmatamento da Amazônia. Ele tem razão? De fato, ainda há produtores que agem à margem da lei. Cada vez mais, porém, vai ser possível um entendimento com empresários do agronegócio, porque o consumo internacional é muito exigente e desempenha um papel a favor das questões de preservação. E todos convergem para uma posição consensual, ou seja, a de permitir o plantio apenas em determinadas áreas.
7 – Qual é hoje o principal desafio do país na área ambiental?É achar um caminho de desenvolvimento sustentável da Amazônia. A floresta preservada é mais importante que a floresta destruída. Não só em termos ambientais mas também econômicos.
Fonte: Revista Exame/Tiago Maranhão
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