Arquivo do mês: junho 2008

ECONOMIA

Agroindústria: fartura e fome crescem juntos

Nunca em toda a história do Brasil se produziu tanto na agroindústria como em 2007 e 2008. Mas a fartura de alimentos não impedirá que a comida fique cada vez mais cara na mesa do brasileiro. Levantamentos divulgados ontem pela CONAB e pelo IBGE indicam a melhor safra de todos os tempos – entre 143 e 144 milhões de toneladas de grãos, a depender da metodologia utilizada no cálculo. O aumento da produção não resultará, entretanto, em preço baixo para o consumidor.

CRISE/RS

Yeda Crusius cria um “gabinete de transição”

A governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius (PSDB), anunciou ontem a criação de um gabinete de transição para tentar debelar a crise instalada após o vice-governador, Paulo Feijó (DEM), divulgar a gravação de uma conversa com o então chefe da Casa Civil, Cézar Busatto (PPS), que admite que partidos aliados se beneficiam de estatais para financiamento de campanhas eleitorais. O gabinete de transição será formado por um membro de cada partido da base aliada para realizar “ampla reestruturação da atual administração pública estadual”, conforme nota divulgada pelo governo gaúcho.

ESCÂNDALO VARIG

Denúncias contra Dilma reabrem investigações

A denúncia de que os sócios brasileiros da VarigLog seriam laranjas do fundo de investimento americano Martlin Patterson será investigada pelo Ministério Público Federal. O caso já foi objeto de apuração aberta em 2006, mas a Procuradoria informou que a entrevista da ex-diretora da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) Denise Abreu ao Estado trouxe fatos novos que justificam a retomada da investigação. Na entrevista, publicada na semana passada, Denise acusou a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, de pressionar a Anac para aprovar a composição acionária da VarigLog, abrindo caminho para a empresa comprar a Varig.

MANCHETES do dia_10.jun.08

FOLHA DE SÃO PAULO – Gasto militar no mundo cresce
45% em dez anos

O GLOBO – Contrato de gaveta revela acordo para enganar Anac

TRIBUNA DA IMPRENSA – Lula afirma que denúncias contra
Dilma são injustas

CORREIO BRAZILIENSE – O país da mesa farta e cara

DIÁRIO DE NATAL – Em 24h 242mm

O ESTADO DE SÃO PAULO – Reaberta investigação sobre
compra da Varig

JORNAL DO BRASIL – Cabral: milícia e tráfico dominam
parte do Rio

VALOR ECONÔMICO – Nova barreira comercial da UE vai
atingir o etanol

JORNAL DO COMMERCIO (PE) – Muda o Código Penal.

TRIBUNA DO NORTE – Chuvas fecham a BR-304 e destroem
obras e prédios

GAZETA MERCANTIL – Produção de adubo cai, apesar de taxa

sobre os importados

ZERO HORA – Empresas podem acessar e-mail de empregados

ESTADO DE MINAS – Padres fora da eleição

Poesia

CANAL

Nada mais sou que um canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças.
Sou um canal
Sabem vocês o que é ser um canal?
Apenas um canal?

Evidentemente um canal tem as suas nervuras
As suas nebulosidades
As suas algas
Nereidazinhas verdes, às vezes amarelas
Mas por favor
Não pensem que estou pretendendo falar
Em bandeiras
Isso não

Gosto de bandeiras alastradas ao vento
Bandeiras de navio
As ruas são as mesmas.
O asfalto com os mesmos buracos,
Os inferninhos acesos,
O que está acontecendo?

É verdade que está ventando noroeste,
Há garotos nos bares
Há, não sei mais o que há.
Digamos que seja a lua nova
Que seja esta plantinha voacejando na minha frente.

Lembranças dos meus amigos que morreram
Lembranças de todas as coisas ocorridas
Há coisas no ar…
Digamos que seja a lua nova
Iluminando o canal

Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal.

Pagu

A Poetisa

Patricia Rehder Galvão (1910-1962), poeta, romancista, crítica, cronista, ilustradora, autora teatral e mais do que isso: Patrícia Galvão foi acima de tudo revolucionária. Numa época em que as mulheres andavam de cabeça baixa nas ruas, com 17 anos, pintada, de saia curta, blusa transparente, cabelos despenteados, cigarro na boca e andar despreocupado, Pagu erguia o olhar e soltava palavrões aos estudantes, da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, que a provocavam.

Aos 18 anos, freqüentava o ambiente contestatório do movimento antropofágico, comandado por Oswald de Andrade. Estreou na Revista de Antropofagia, em sua fase mais radical, a nº 2, em meio a pessoas como Raul Bopp, Oswaldo Costa, Geraldo Ferraz e Fernando Medeiros de Almeida. Aos 20 anos, viajou a Buenos Aires, Argentina, onde encontrou o líder comunista Luís Carlos Prestes e conheceu Jorge Luís Borges.

De volta ao Brasil (1931), filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e passou a redigir a seção “A Mulher do Povo”, no jornal O Homem do Povo, que editou com Oswald de Andrade. Nos textos, criticava o feminismo proposto pela burguesia. Como militante do PCB, depois de erguer do chão um cadáver de um estivador negro morto pela polícia durante a greve dos estivadores em Santos, foi levada à cadeia (1931) acusada de promover agitações.

Esta foi a primeira vez na História do Brasil que uma mulher foi presa por motivos políticos. Em liberdade, prosseguiu sua militância. Trabalhou como lanterninha num cinema; protegeu os oradores nos comícios e reuniões do partido; lançou o romance proletário Parque Industrial (1933), sob o pseudônimo de Mara Lobo; e saiu em viagem pelo mundo, enviando correspondências para o Diário de Notícias e Correio da Manhã.

Em Paris, conviveu com os surrealistas Aragon, André Breton, Paul Eluard, Benjamin Péret e René Crevel e freqüentou a Université Populaire, tendo cursos com Marcel Prénalt, Politzer e Paul Nizan. Após ser ameaçada de deportação por ter militado no PC francês com identidade falsa, em 1935 retornou ao Brasil e à cadeia.

Em liberdade, rompeu definitivamente com o partido, voltou a trabalhar como jornalista, escrevendo na revista Vanguarda e Socialismo e no Diário de São Paulo, e lançou seu segundo livro, A Famosa Revista. Dedicou os últimos anos de sua vida ao teatro.

Preços em alta

Efeitos climáticos pressionam milho nos EUA

Depois de fechar com preço recorde na última sexta-feira (US$ 7,00 o bushel), o preço do milho na bolsa de Chicago recuou um pouco hoje, mas ainda se mantém em patamar elevado (US$ 6,57). De acordo com a Scot Consultoria, o plantio da safra americana está atrasado por causa dos efeitos climáticos e isso está fazendo com que os preços fiquem pressionados.

O fenômeno La Niña está prolongando o período de chuvas e isso está deixando as terras muito úmidas para o plantio. Somente este ano, o preço do milho já subiu 47% em dólar. Como a inflação americana é motivo de preocupação entre os economistas, a notícia é importante.

O milho está na base da alimentação dos americanos e também serve de matéria-prima para a ração dos rebanhos. Além disso, ao contrário do Brasil, a produção de etanol por lá é feita a partir do milho.

Aqui no Brasil, a alta do grão é menor (em torno de 20%) porque é compensada em parte pela valorização do real frente ao dólar.

Fonte: Míriam Leitão

FRASE DA VEZ_5/9

“O caso da Varig criou um enredo que transformou o gabinete da Casa Civil num lobista, atropelando a Anac e forçando o fechamento de um negócio nebuloso e ilegal sob vários aspectos”

Valdo Cruz, jornalista

PARADOXOS

Tapando o nariz

No tempo do “milagre”, nos anos 70, o ditador Garrastazu Médici, falando à imprensa estrangeira, escorregou e disse uma frase que ficaria célebre: “O Brasil vai bem, mas o povo vai mal”. Sem querer, admitia que os índices de crescimento do país, tidos como espetaculares, não se refletiam nas condições de vida diária do brasileiro, que continuava roendo beira de penico. Hoje é o contrário:

O brasileiro vive um inédito carnaval consumista. Há dinheiro e crédito para tudo: casa própria, carro blindado, TV de plasma, notebook, iPod, depilação a laser, tomate seco, mozarela de búfala, Viagra, Prozac, Lexotan. Todos os índices falam do aumento do poder de fogo do brasileiro diante de um rack, gôndola ou prateleira.

Já o Brasil cambaleia e aderna em outros índices. A Amazônia precisa ser protegida da cobiça dos gringos para continuar sendo derrubada por nós mesmos, à razão de sete campos de futebol por minuto. Instauram-se incontáveis CPIs, apenas para vê-las arquivadas. Desmascara-se um chefe de quadrilha e descobre-se que ele era o mesmo chefe da polícia, e que o chefe de ambos era o próprio chefe do governo.

Rui Castro, jornalista

Bautista Maino

Juan Bautista del Maino - The Recovery of Bahia in Brazil

The Recovery of Bahia in Brazil

O Pintor

Juan Bautista Maino nasceu em 1578 na Espanha. Formou-se em Artes na Itália entre os anos de 1600 e 1610. Amigo de Diego Velázquez (1599-1660) e provável discípulo de El Greco (1541-1614). Na corte espanhola, trabalhou durante o reinado de Felipe III (1598-1621) e deu aulas de desenho a Felipe IV (1621-1665).

A pintura acima retrata a batalha de 1625, na qual uma esquadra espanhola expulsou os invasores holandeses de Salvador.

FALSO MORALISMO

República do compadre

Falando aos berros contra a legislação eleitoral, que limita o repasse de verbas federais às prefeituras durante três meses, Lula foi ao extremo de acusá-la de “falso moralismo” e exemplo do “lado podre da hipocrisia brasileira”.

Curioso é que o acesso anti-republicano e populista tenha vindo à luz no epílogo de uma semana marcada por mais um escândalo na República do Compadre. Esqueçamos Vavá -“arruma dois pau pra eu” é choro de pobre. A suspeita da mão pesada da Casa Civil na transação da Varig é coisa de gente grande.

Trata-se de um negócio que custou na ponta final à Gol US$ 320 milhões, para o qual a TAM estaria disposta a desembolsar no total US$ 738 milhões -US$ 418 milhões a mais. Tudo parece ser muito nebuloso ou claro demais, a depender do ângulo que se queira ver.

E não há imagem mais esclarecedora e sintomática do moderno capitalismo brasileiro do que aquela em que Nenê Constantino e seu filho, Constantino Jr., estão no elevador do Palácio do Planalto, rumo à sala de Lula, acompanhados pelo compadre -amigão do presidente, Roberto Teixeira.

Este era o advogado dos vendedores, mas conduzia os compradores até o chefe da nação. Um dos sócios da VarigLog diz que o advogado-compadre embolsou US$ 5 milhões em honorários pelos bons serviços prestados.

Fernando de Barros e Silva, jornalista