PARA MINHA FILHA MANUELA
Manú, hoje você faz (?) aninhos. Sei que vai ficar vermelha que nem um pimentão, vai morrer de vergonha, achar um mico, etc. e tal. Mas não pude me conter, a primogênita tem esses privilégios. E mãe nasceu pra pagar mico mesmo. Tá na constituição!
Peço desculpas aos nossos leitores, mas eu tô tirando uma lasquinha desse espaço público pra te mandar um beijinho de foca com gosto de brigadeiro. Era pra mim estar aí, mas uma coisa é querer e outra é poder.
Saiba que mesmo distante é como se você estivesse aqui com a gente, provavelmente roubando os brigadeiros de uma comemoração que você sempre teve e sempre achava dispensável.
No final, a-ma-va! Dizia assim: ô mainha, ô painho, não precisava disso! Tô vendo tua cara direitinho falando, só que essa cena repetiu-se durante alguns bons aninhos, juntamente com os comentários.
E as festas “surpresa” da época aborrecente? Sua lista contava com no mínimo 150 pessoas, justificadas por você como “indispensáveis”, “impossível” não convidar, pois eram os mais “íntimos”. E quem conseguia convencê-la do contrário?
Acabávamos achando que você tinha razão, tais eram as justificativas seguras, “abalizadas”. Dizíamos: essa menina vai dar pra advogada.
E o bolo do Diabo? A ânsia de comer o brigadeiro na panela sem esperar que eu enrolasse?
As certezas todas sobre o mundo, a vida, a mania (que me irritava loucamente!) de querer resolver todos os problemas dos seus amigos? E o pior é que resolvia mesmo…argh! dava nos nervos!
Você pensava, você armava, você resolvia e saía feliz. Sempre o final feliz pra todos.
E sempre nos deixando boquiabertos com tua iniciativa, tua coragem, tua liberdade…que era tanta…era de dar inveja. Talvez você tenha sido a pessoa mais livre que já conheci, uma liberdade que faz parte da pele, e por isso encanta e brilha quando aparece em qualquer lugar.
Pra quê salto alto? O tênis é a melhor coisa.
E desse jeito, fazendo sempre o que sempre quis, saiu daqui como um raio, nos dando um susto tão grande que até hoje eu ainda tô meio zonza. Aportou na Paulicéia de mala e cuia, sem conhecer ninguém, INDO DO NORDESTE. Só faltou o pau-de-arara – e aí como aqui, foi a mesma Manú.
A que não vê fronteiras, diferenças, dificuldades, preconceitos, medos… logo no primeiro dia já era amiga íntima de um motorista de táxi, que de tanto você conversar sobre sua vida, contando TUDO, ele acabou por se empenhar em te arranjar um emprego.
Não conseguiu, claro. Mas ficou sabendo tudo sobre você, sua família, endereço completo, telefone… e você sabendo dos problemas dele. Normal pra quem te conhece. Simples.
Inacreditável! E eu, que te acompanhei a Sampa no primeiríssimo dia, não sabia se ria ou chorava, ou as duas coisas juntas. Tremia como vara verde ao te ver, inocentemente, conversando, conversando, se divertindo com quem você encontrasse pela frente. Sem o menor medo, não só contando sua vida mas fazendo com que os pobres inocentes contassem a deles também…dando conselhos, etc.
E o frio do primeiro dia, lembra? Duas camas de solteiro, sem lençol, cobertor, etc. Você deitou ali, exausta da viagem, e adormeceu imediatamente, roxinha de frio, como se estivesse no seu quarto, na sua caminha confortável. E eu ali, olhando pra você, mal acreditando no que via.
Talvez tenha sido um dos momentos mais sofridos e tristes pra mim. Ali, me dei conta do que realmente estava acontecendo. Eu ia te deixar, sozinha, numa cidade imensa, estranha, e dali em diante nossos rumos iam seguir separados.
Nós, que além de mãe e filha, sempre fomos melhores amigas, confidentes.
Enfrentou coisas inimagináveis pra quem te conhecia um pouquinho que fosse, trabalhou 24 horas seguidas, nem titubeou. Foi até pra campo de futebol fazer reportagem, com o colete da “imprensa paulista”, uma emoção, lembra?
Era o teu sonho estar ali. Fez, com competência, matou a vontade que tinha e depois não importava mais. Vieram outras experiências, todas coroadas.
Experimentou tudo o que essa cidade estonteante pôde te oferecer. E por onde passou deixou rastros, saudades e o registro de profissional competentíssima.
No Palácio o bom dia pro porteiro era o mesmo pro governador. As pessoas piravam com a tua atitude, e você nem notava. E as pessoas não são todas iguais mesmo? Ora bolas!.
O teu socialismo não veio de manuais, veio de berço!
E no dia que o PCC (não lembro mais) rendeu São Paulo? Você no Palácio tranquilete, pega o carro e vai pra casa, pra lá de meia-noite, quando todos estavam tentando se proteger.
A polícia te fez parar, com a arma em punho, e você me abre a janela do carro e diz com aquela vozinha inconfundível “oi seu guarda, tudo bom?”
Ainda bem que não é história de mãe, todos que te conhecem sabem que é a mais pura verdade. Não é de matar qualquer mãe do coração? E ainda querem que eu não tenha fibromialgia? São tantas as emoções…
E aí, como aqui, conquistou a todos. É possível que pergunte “qual a diferença mesmo entre a Paulista e a Praia de Maracajaú?” kkkkkkk…….
E pra terminar o momento mico de mãe, só registrar que o final feliz dessa história de mudança se deu com o “desenlace” (humm, palavrinha esquisita!) com esse nobre da caatinga, que de pau-de-arara só tem a excentricidade de decorar o ap de Pinheiros com “artezanato nordestino”. É mais paulistano que outra coisa qualquer…mas tem que manter a pose, óbvio.
E pra conceder-lhe uma palavra gentil – afinal não posso trair a imagem da “sogra” – ele é o genrinho que toda mãe gostaria de ter. Apesar do abuso, claro.
Eu e você.
Como posso viver sem esse sorriso lindo longe de mim?
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