Arquivo do mês: dezembro 2017

Guy Maupassant

O CAÇADOR DE PÁSSAROS

 

Por planícies e montanhas em

folhas de flores para caçar na primavera, ela

deixa caçar o amor do menino. Ele

sempre enche seu aviário,

porque ele é um caçador habilidoso.

 

Quando a noite se torna madrugadora,

tende loops, ou a massa

dispersa a liga traiçoeira;

então, sua impressão digital

revela-se com aveia ou milheto.

 

Lurk atrás das sebes verdes

ou ao longo dos riachos.

Está escondido na floresta de abetos

para não despertar dúvidas

nos pássaros inquietos.

 

Entre os lírios e o alecrim,

ou sob o quadro verde,

a criança habilidosa tende a rede,

e logo

o passarinho, o lincoln e o goldfinch vêm no rebanho .

 

Mais de uma vez com um jonquil

ou algumas vime montou um laço,

e então espiava o pássaro

que vem dar a um banquetazo

a isca que ele colocou o malandro.

 

Alegre, inexperiente, maliciosa,

o pássaro se aproxima do engano,

olha com olhos de encantamento,

é animado e, em seguida, por seu dano, ele

gula ganancioso e é preso.

 

O caçador incansável

sempre enche seu aviário,

e longe do prado e da flor

da montanha e do ribera verde

que mordeu a isca do amor.

 

 

Tradução: Leandro Calle

 

Jacques Prévert

O Meteoro

Pelas grades do bloco penitenciário
uma laranja
passa como um raio
e cai como uma pedra
dentro do sanitário
E o prisioneiro
todo lambuzado de merda
resplandece
todo iluminado de alegria
Ela não me esqueceu
Ela pensa sempre em mim ainda.

 

Tradução de Adriano Scandolara

CRÍTICAS

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

    Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem”   (Santo Agostinho)

Fico extremamente feliz quando recebo críticas aos meus textos, divulgados pelas redes sociais. Desta vez desejo responder com este artigo a avaliação, quase uma censura, apontando-me como agressor dos muçulmanos para proteger os israelenses.

Como tento despir-me de qualquer partidarismo com relação aos conflitos do Oriente Médio, faço críticas indistintamente a judeus e árabes, primos irmãos, cujas desavenças são muitas vezes inexplicáveis.

Sou contra, por exemplo, a adoção de Israel à doutrina nazista do “espaço vital”, ocupando militarmente territórios em detrimento dos palestinos; e condeno o tratamento nada civilizado que alguns países árabes dão às mulheres.

Tomo posição, igualmente, contra o militarismo israelita, o apoio dos árabes a terroristas e sua omissão quando da criação do Califado pelo ISIS.

Não faz muito tempo, quando o deputado Roberto Freire ocupava o Ministério da Cultura, defendi-o ao ser criticado por patrocinar uma exposição sobre a cultura árabe e, repeli mais tarde os ataques feitos ao Clube Hebraica por patrocinar um debate com o deputado Jair Bolsonaro.

Esses dois fatos têm semelhanças nas suas diferenças. O Clube Hebraica sempre teve um comportamento mais liberal do que os seus críticos sectários da Confederação Israelita do Brasil, defensora do expansionismo territorial em Israel promovido por extremistas da direita religiosa.

Nada obscurece a minha admiração pelos primeiros ocupantes do pequeno território do Estado de Israel cedido pela ONU por proposta brasileira do chanceler Oswaldo Aranha.

Exultei com a criação dos kibutzim, a luta heroica dos pioneiros pela coletivização da terra e o progresso obtido apesar da adversidade natural em menos de três décadas. Reconheço e admiro o desenvolvimento econômico democrático em pouco mais de 50 anos, primeiro no campo e depois na indústria, ambos sustentáveis, permitindo ao governo garantir subsídios ao desemprego, seguridade social e rendimento mínimo.

De outro lado, não posso negar o meu encanto e respeito pela cultura árabe, noves fora a intolerância do califa Omar que queimou 700 mil livros da Biblioteca de Alexandria, das ditaduras ainda vigentes e da escravocracia.

Entretanto, reservo o meu elogio ao que o Império Árabe ocupante da metade do mundo nos legou. Sua herança cultural excedeu todas demais civilizações na arquitetura, nas ciências e na Medicina. Na literatura, contribuiu com as lendas maravilhosas das Mil e Uma Noites.

Enquanto a Europa católica proibia a dissecação de cadáveres pelos estudiosos da anatomia humana, a medicina árabe mantinha atendimento clínico e criava a hospitalização; obteve notável avanço na cirurgia usando a anestesia.

Deve-se ao sábio Maomé-Ibn-Mousa a invenção do zero, um salto qualitativo e insuperável na Matemática, e, na Química, o Islã nos deixou o álcool, os ácidos cítrico e sulfúrico e o nitrato de prata.

Balanceando estas duas contribuições para os povos, a antiga e a contemporânea, somos obrigados a demonstrar que não agrido nem protejo árabes e judeus; eles nasceram como irmãos, semitas e camitas, e, com a sua origem étnica se bipartiram como canaanitas, israelitas, moabitas, amonitas e fenícios.

Mesmo sob críticas, sugiro que Jerusalém seja dividida entre judeus e palestinos; porque não? Aprendi com Aristóteles que só existe uma maneira de se evitar as críticas: “não fazer nada, não dizer nada e não ser nada”; e fui educado desde a tenra infância a não me meter em briga de família…

 

 

Stéphane Mallarmé (1887)

Dama

 

sem tanto ardor embora ainda flamante

A rosa que cruel ou lacerada e lassa

Se deveste do alvor que a púpura deslaça

Para em sua carne ouvir o choro do diamante

 

Sim sem crises de orvalho antes em doce alento

Nem brisa o fragor do céu leve ao fracasso

Com ciúme de criar não sei bem qual espaço

No simples dia o dia real do sentimento,

 

Não te ocorre, talvez, que a cada ano que passa

Quando em tua fronte se alça o encanto ressurreto

Basta-me um dom qualquer natural de tua graça

 

Como na alcova o cintilar de um leque inquieto

A reviver do pouco de emoção que grassa

Todo o nosso nativo e monótono afeto.

 

 

 

Guillaume Apollinaire

A ponte Mirabeau

Sob a ponte Mirabeau corre o Sena

E os amores

De que não me esqueço

A alegria sempre antes da pena

Chega a noite fim começo

Vão-se os dias permaneço

Fiquemos de mãos dadas face a face

Enquanto sobre a ponte

De nossos braços passe

Dos olhares a já quase extinta fonte

Chega a noite fim começo

Vão-se os dias permaneço

Foge o amor como a água se ausenta

Foge o amor

Como a vida é lenta

E como a esperança é violenta

Chega a noite fim começo

Vão-se os dias permaneço

Passam os dias e as semanas passam

A vida aliena

Os amores se embaçam

Sob a ponte Mirabeau corre o Sena

Chega a noite fim começo

Vão-se os dias permaneço

(Editora L&PM, 232 páginas, 1984, tradução de Paulo Hecker Filho)

Alfred de Musset

Canção (1840)

 

Quando a vaidosa Esperança

 

Acotovela-nos partindo,

 

Depois, num vôo rápido se lança,

 

E se volta sorrindo;

 

 Aonde vai o homem? Aonde seu coração o encaminha.

 

A andorinha segue o zéfiro – vento do ocidente,

 

E é menos ligeira a andorinha

 

Que o homem seguindo seu desejo somente.

 

 Ah! Fugidia e cheia de ardil,

 

Sabes ao menos a tua direção?

 

É mesmo preciso que o Destino ancião

 

Tenha uma amante tão juvenil!

 

 

 

Arthur Rimbaud

Canção da Torre Mais Alta

 


Ociosa juventude
De tudo pervertida
Por minha virtude
Eu perdi a vida.
Ah! Que venha a hora
Que as almas enamora.

Eu disse a mim: cessa,
Que eu não te veja:
Nenhuma promessa
De rara beleza.
E vá sem martírio
Ao doce exílio.

Foi tão longa a espera
Que eu não olvido.
O terror, fera,
Aos céus dedico.
E uma sede estranha
Corrói-me as entranhas.

Assim os Prados
Vastos, floridos
De mirra e nardo
Vão esquecidos
Na viagem tosca
De cem feias moscas.

Ah! A viuvagem
Sem quem as ame
Só têm a imagem
Da Notre-Dame!
Será a prece pia
À Virgem Maria?

Ociosa juventude
De tudo pervertida
Por minha virtude
Eu perdi a vida.
Ah! Que venha a hora
Que as almas enamora!
Tradução:  Claudio Daniel

Charles Baudelaire

A uma passante

A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;
Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu do seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.
Brilho… e a noite depois! – Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na eternidade?
Longe daqui! tarde demais! nunca talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!

 

Tradução e notas de Guilherme de Almeida

IGNORÂNCIA

 

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)                   

                         “Nada no mundo é mais perigoso que a ignorância sincera e a estupidez consciente” (Martin Luther King)

Machado de Assis conta no seu livro “Balas de Estalo” uma anedota vivida pelo Barão de Drummond (ele gravou com dois “m”) e o Coronel Gordilho. Este último foi motivo de chacota porque, interpretando mal uma ordem superior, prendeu o maçom Luís Prates acusado de participação no movimento revolucionário de 1817 que estourou no Nordeste.

Tempos depois interpretando o fato, o Barão assim se referiu: “O autor da prisão (de Luís Prates) foi o Gordilho que depois, “por merecimento da sua ignorância”, se tornou Marquês de Jacarepaguá e senador do Império.

Machado chamou a expressão “por merecimento da sua ignorância” uma “bala de estalo” – um artefato que riscando na caixa de fósforo estoura, e que usei muito quando eu era menino na época de São João. A frase, por exprimir o julgamento negativo de uma premiação é realmente um estalo.

Triste é que a ignorância entre os poderosos imperiais atravessou os anos e chegou à República na esfarrapada Democracia que vivemos. Ninguém “ignora” a palavra

Ignorância; é um substantivo feminino dicionarizado como falta de saber, de conhecimentos; a característica de quem não tem informação ou não está a par do que se passa à sua volta.

O povão na sua inteligência ampliou o conceito de ignorância para boçalidade, estupidez, grosseria e rudeza. Num dos meus últimos artigos fui criticado por citar como exemplos da decadência cultural no Brasil a intelectualidade eleita pela mídia, e a composição da Academia Brasileira de Letras e do Supremo Tribunal Federal.

Respondo à crítica através deste artigo que é lido por milhares de seguidores no Twitter e no Facebook. Julgo com a sabedoria dos antigos gregos que nos legou uma lição do grande Aristóteles: “o ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete”; isto basta para reafirmarmos minha menção aos “novos intelectuais”, “novos imortais” e novos “ministros togados”.

Como a “ignorância e a arrogância são duas irmãs inseparáveis, com um só corpo e alma” no dizer de Giordano Bruno, nós as encontramos como uma atração fatal dos fascistóides lulopetistas.

Haveria um exemplo maior de ignorante do que o pelego Lula da Silva, embora driblando a opinião pública com a astúcia e os ardis de pelego escolado na política sindical? E que, através dele, também tivemos na Presidência “por merecimento da sua ignorância” Dilma Rousseff, que foi defenestrada do cargo, mas continua a divulgar – sem o menor acanhamento – o seu besteirol de “work alcholic”.

Consideramos, também, a estupidez da fração populacional brasileira que se revela cega e faz ouvidos moucos às revelações sobre Lula e Dilma. Chega a 30% da população, incluindo pessoas que ocupam posições de relevo social.

Registram-se artistas, jornalistas, professores e até escritores, assumindo a ignorância ao defender o lulopetismo como se fora socialismo, e confundindo o narcopopulismo como finado stalinismo. Desconfia-se que é por interesse. Fala-se que é mercenarismo. Seja como for, fingidores ou não, travestem-se de ignorantes.

Dizem, também, que muitos destes surfistas da ignorância política o fazem por vaidade, repetindo como papagaios as palavras-de-ordem dos chefetes partidários para atrair holofotes.

Esta versão me agrada, por que os psicólogos dizem que a ignorância está sempre pronta a admirar-se a si própria, e parece ser o diagnóstico correto para os seguidores do Partidos dos Trabalhadores e suas linhas auxiliares…

Victor Hugo

Fábula ou história

Um dia, magro e sentindo um real desfastio,
Um macaco com a pele de um tigre se vestiu.
O tigre fora malvado, ele tornou-se atroz
Ele tinha assumido o direito de ser feroz.
Arreganhava os dentes, gritando: eu serei
O herói dos matagais, da noite o temível rei!
Como malfeitor dos bosques, emboscado nos espinhos,
De horror, morte e rapinas, escureceu os caminhos,
Degolou os viajantes e devastou a floresta,
Fez tudo o que faz aquela pele funesta.
Vivia no seu antro, no meio da voragem.
Todos, vendo-lhe a pele, criam na personagem.
Gritava e rugia como as feras danadas:
Olhem, a minha caverna está cheia de ossadas;
Olhem para mim, sou um tigre! Tudo treme,
Diante de mim, tudo recua e emigra; tudo freme!
Temiam-no os animais, fugindo com grandes passos.
Um domador apareceu e tomando-o nos braços,
Rasgou-lhe a pele, como se rasga um farrapo,
E, pondo a nu o herói, disse: Não passas de um macaco!

 

 Tradução: José Lino Grünewald