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Poesia

Pátria

Por um país de pedra e vento duro

Por um país de luz perfeita e clara

Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência

Que a miséria longamente desenhou

Rente aos ossos com toda a exatidão

Dum longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

E pela limpidez das tão amadas

Palavras sempre ditas com paixão

Pela cor e pelo peso das palavras

Pelo concreto silêncio limpo das palavras

Donde se erguem as coisas nomeadas

Pela nudez das palavras deslumbradas

– Pedra rio vento casa

Pranto dia canto alento

Espaço raiz e água

Ó minha pátria e meu centro

Eu minha vida daria

E vivo neste tormento

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Poetisa

Sophia de Mello Breyner Andresen é, sem sombra de dúvida, uma das maiores poetisas portuguesas contemporâneas – um nome que se transformou, em sinônimo de Poesia e de musa da própria poesia.

Sophia nasceu no Porto, em 1919, no seio de uma família aristocrática. A sua infância e adolescência decorrem entre o Porto e Lisboa, onde cursou Filologia Clássica.

Após o casamento com o advogado e jornalista Francisco Sousa Tavares, fixa-se em Lisboa, passando a dividir a sua atividade entre a poesia e a atividade cívica, tendo sido notória ativista contra o regime de Salazar. A sua poesia ergue-se como a voz da liberdade, especialmente em “O Livro Sexto”.

Foi sócia fundadora da “Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos” e a sua intervenção cívica foi uma constante, mesmo após a Revolução de Abril de 1974, tendo sido Deputada à Assembléia Constituinte pelo Partido Socialista.

Profundamente mediterrânica na sua tonalidade, a linguagem poética de Sophia de Mello Breyner denota, para além da sólida cultura clássica da autora e da sua paixão pela cultura grega, a pureza e a transparência da palavra na sua relação da linguagem com as coisas, a luminosidade de um mundo onde intelecto e ritmo se harmonizam na forma melódica, perfeita, do poema.

Luz, verticalidade e magia estão, aliás, sempre presentes na obra de Sophia, quer na obra poética, quer na importante obra para crianças que, inicialmente destinada aos seus cinco filhos, rapidamente se transformou em clássico da literatura infantil em Portugal, marcando sucessivas gerações de jovens leitores com títulos como “O Rapaz de Bronze”, “A Fada Oriana” ou “A Menina do Mar”.

Sophia é ainda tradutora para português de obras de Claudel, Dante, Shakespeare e Eurípedes, tendo sido condecorada pelo governo italiano pela sua tradução de “O Purgatório”. Foi agraciada com o Prêmio Camões em 1999.

Faleceu em Lisboa no dia 2 de Julho de 2004.

Marjorie Salu

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Marjorie Salu
Temas: Notíciaspoesia sophia andresen

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