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O ‘moralismo udenista’ e o ‘amoralismo lulo-petista’

Artigo de MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

No momento em que a Nação Brasileira debate o aviltamento da moral política, com a multiplicação das denúncias de corrupção nos círculos do poder, põe-se no plano das idéias a dicotomia ideológica ‘esquerda – direita’.

A tendência dessa discussão desaguará, como uma cachoeira, no delta de um princípio filosófico que a direita aponta para a esquerda e esta, por sua vez, alega ser da direita, “os fins justificam os meios”.

Assim, na inevitável colisão da oposição com o governo, ouve-se o oficialismo rotular de ‘moralismo udenista’ a busca de criminalizar os assaltos ao Erário. Os lulo-petistas querem minimizar os desvios de conduta de seus partidários, como se fossem sacrificados por excessivas exigências moralizantes.

Talvez os que papagueiam este argumento nem saibam o que é ‘moralismo udenista’, o que foi a UDN e o udenismo na História Republicana do Brasil. Pois bem. A União Democrática Nacional foi um partido político brasileiro fundado em 7 de abril de 1945, em oposição à Ditadura Vargas.

A UDN nasceu conservadora, defendendo o liberalismo clássico e agarrando-se ao moralismo institucional. Embora assentado nas classes médias, o partido por ser contra o populismo que caracterizava o governo de Getúlio Vargas, assumiu uma postura aparentemente antipopular, tachado de “partido dos casacudos”.

Tendo a probidade e a honradez como marca nos seus programas, manifestos e discursos, a movimentação de suas lideranças era direcionada às denúncias de corrupção governamental ou da “sindicalização” do poder.

Isto não significou reacionarismo e muito menos fascismo. Atendia a valores defendidos pelos tenentes de 22 e 24, e da expressão esquerdista ‘prestismo’ que aflorou na década de trinta com a Aliança Nacional Libertadora.

Em nome da verdade histórica, a UDN – pela sua formação – foi mais avançada do que os partidos getulistas, tendo votado a favor do monopólio estatal do petróleo, contra a cassação dos mandatos da bancada comunista e o fechamento do PCB, proposições em que o PSD e o PTB se dividiram.

Se o ‘moralismo udenista’ é um defeito, o que dizer do ‘amoralismo lulo-petista’? É bom lembrar que o amoralismo político recebeu uma dura crítica de Marx, cuja explicação da moral encontra-se nas ‘Teses sobre Feuerbach’ e no ‘18 Brumário de Luiz Bonaparte’.

E embora com grande influência no lulo-petismo, suponho que os trotskistas devem ter lido ‘Moral e Revolução’ para saber que o teórico da revolução permanente acusa o jesuitismo pela criação do princípio “os fins justificam os meios”. O ‘amoralismo lulo-petista’ não tem resguardo na esquerda marxista, pelo contrário.

Podíamos até dizer – ou ensinar a certos professores uspeanos – que o ‘amoralismo lulo-petista’ nada tem de esquerda, como negação dos valores sociais. Como filosofia, está afixado no individualismo requentado de Stirner e Nietzsche.

A concepção de moral pode e deve ser vista como contribuição para fortalecer a sociedade humana. São necessários princípios e critérios para uma Nação civilizada, mesmo quando se exerce o realismo político dominante entre nós, nos poderes republicanos, nos partidos, nos movimentos sociais e até na economia…

Subtrair da vida social a avaliação moral dos agentes públicos é impensável para quem defende o bem comum e justiça para todos. Como se vê na conjuntura atual do País em que vigora a Lei de Gerson: Cada qual querendo levar vantagem em tudo.

Pobre Brasil em que os Legisladores legislam em causa própria; os magistrados vacilam em julgar os poderosos e os governantes enriquecendo do dia para a noite. Tudo isto “bem nascido” de um sistema partidário deperecido, e da irresponsabilidade moral dos carreiristas e oportunistas – de direita ou esquerda – que profissionalizaram o exercício da política e assumiram a exploração do aparelho de Estado.

Miranda Sá

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