3º mandato: olha o golpe aí, minha gente!
MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa@uol.com.br
Começou a articulação golpista que os observadores mais atenciosos – e independentes – já esperavam: paus mandados de Lula da Silva promovem um movimento em favor do terceiro mandato presidencial. A tarefa suja e antidemocrática – numa tática de guerrilha – cobre três frentes: a mais perigosa é executada por Arlindo Chinaglia (PT-SP), presidente da Câmara, que mandou desarquivar uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que permite a re-reeleição, iniciativa do também deputado petista Fernando Ferro (PE).
As outras duas, embora secundárias, vêm para consolidar a conspiração golpista. Um delas é uma proposta do deputado Devanir Ribeiro (PT-SP), amigo de Lula do ABC paulista, que defende a realização de um plebiscito junto com as eleições municipais do ano que vem; e a outra vertente da trama é a coleta de assinaturas para uma emenda constitucional no mesmo sentido, feita pelo deputado Carlos Willian (PTC-MG).
Lula da Silva – como sempre – alega que não sabe de nada. Mas quem pode confiar em Lula? Entrevistado em Salvador, antes do pic-nic da CBF em Genebra, mostrou-se surpreso com o projeto infame, garantindo desconhecer e não aceitar a idéia de disputar um novo mandato e que trabalhar nesse sentido é ameaçar o quadro institucional do país.
Menos verdade. Já na festa do seu 62º aniversário – preparada com esmero para garantir a presença da “militância” devidamente uniformizada com camisas vermelhas e agitando bandeirolas – repórteres haviam perguntado sobre o assunto, o que põe o espanto e as negativas sob suspeita. E bota desconfiança nisso, porque a participação do deputado Devanir Ribeiro na jogada, defendendo abertamente a proposta, sem ser admoestado, nem pelo Presidente nem pela cúpula do PT, é um bom indício da aceitação implícita de um e do outro.
A verdade indiscutível é que se Lula repudiasse a tese da reeleição, mesmo como um balão de ensaio dos seus companheiros, chamaria Devanir – cupincha dos tempos do ABC e mandaria que parasse de assuntar sobre a possibilidade do continuísmo. Ninguém da patota sindicalista dos primeiros tempos faz algo sem a concordância de Lula. Lembram-se da expressão de Zé Dirceu – tão repetida que virou refrão – afirmando que nada fez sem o conhecimento do Presidente?
Passou despercebida aquela afirmação de Dirceu porque não se cobrou dele uma explicação mais detalhada sobre o caso. Evidentemente que foi uma tática traçada de comum acordo e desta vez, no caso Devanir, é possível que não venha despertar a “boa imprensa” e a “oposição responsável”. No bojo das atuações do lulismo-petismo Lula dizer que está “quase proibido” comentar a possibilidade de alterar as regras eleitorais, soa para os intelectuais orgânicos como uma esperteza admirável.
Para os patriotas e democratas, porém, desperta dúvidas e – para os mais fracos – desânimo. Os primeiros têm a certeza que pelas relações políticas e na clara intimidade de Lula com Devanir sobra autoridade ao Presidente mandá-lo enfiar no saco a idéia do 3º mandato. Para os demais, que têm alguma coisa a perder, resta o silêncio e o conformismo.
Duas coisas são mais do que certas: Uma, é que a palavra de Lula é um risco n’água; a outra é que esse tipo de golpismo palaciano já deu certo uma vez, quando da reeleição de Fernando Henrique Cardoso. A tese começou exposta na surdina pelo finado Sérgio Motta e quando chegou a público, recebeu uma negativa veemente de FHC, mas a coisa se espalhou, os puxa-sacos engordaram-na e cresceu tanto que se tornou uma meta de governo. Aliás, um objetivo perseguido de forma imoral e corrupta, pois a compra da reeleição do tucano foi o antecedente condenável, do mensalão, sanguessugas e dossiês de aloprados.
A conspiração golpista do 3º mandato é feita com o apoio consciente ou inconsciente de Lula. Pensar em se manter no poder não é algo que o Pelegão despreze, mas na sua astuta vivência política ele sabe que deverá enfrentar uma forte reação legalista. Esta vivacidade, é claro, é transmitida à nomenclatura do PT-governo que a irradia para o PT-partido. Ambos, que tanto se dedicam à tese de conspirações e denúncias de golpe, são lenientes quando as conjuras e o golpismo nascem nas suas hostes.
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