Petrobras: Teatro do Absurdo
MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa@uol.com.br
O monopólio estatal do petróleo e a Petrobras sempre receberam a defesa dos brasileiros como um imperativo da consciência nacional. Para garantir a exploração do óleo e erguer a empresa, muitos patriotas dedicaram anos de lutas, foram perseguidos e presos, perderam empregos e registraram vítimas caídas na dissolução de comícios e passeatas. O movimento nacionalista, que conduziu este processo, esteve acima dos partidos políticos, classes sociais ou atividade profissional; civis e militares entraram neste capítulo da História do Brasil.
A Petrobras recebeu o respeito público até que perdeu o acento (era Petrobrás) e transformou-se num organismo para atender a interesses político partidários. Líderes sindicais dos petroleiros (com exceção honrosa do pessoal do PC do B) foram cooptados pelo PT-governo e se apelegaram; as diretorias da empresa foram postas no balcão dos negócios com os 300 picaretas do Congresso e serviram de compensação para candidatos derrotados nas eleições.
Em vez da mítica entidade do patriotismo, entrou na mídia como um trunfo eleitoral de Lula da Silva e do PT. Nas últimas eleições presidenciais fez a publicidade da “auto-suficiência” fajuta em apoio à reeleição, fazendo propaganda enganosa e condenável omitindo dos governos anteriores, civis e militares, de sua fundação até hoje. O louvado crédito para 4 anos de governo Lula não passou de um estelionato.
Agora o país volta a ser inoculado pelo germe da mentira. Quando as manchetes da imprensa anunciavam um noticiário recheado de informações sobre o racionamento do gás veicular no Rio e São Paulo, revoltando os conversores de carros, ônibus e caminhões, e as análises econômicas falavam dos riscos de uma nova crise energética, foi bombasticamente anunciada a descoberta de uma gigantesca reserva de petróleo no campo de Tupi, na Bacia de Santos. Notícia requentada pela própria Petrobras – que a anunciou em junho do ano passado – e desconfianças de sua existência que vêem dos tempos da Petropaulo do Maluf. Lembram-se?
Traz muita tristeza a politização da Petrobras e dá raiva seu uso demagógico. Fala-se, por exemplo, de que o Brasil sobe ao pódio da corrida mundial da indústria do petróleo. A malandragem pelega de Lula da Silva levou-o a falar sobre o ingresso do país na Opep, uma coisa tão ridícula que estimulou uma avacalhação do presidente venezuelano Hugo Chávez, chamando-o de “magnata do petróleo”…
A ridicularia não afetou Sua Excelência. As manifestações malévolas e zombarias de Chávez e outros chefes de Estado são fundamentadas no ludibrio que foi passado ao povo brasileiro. A bravata não tem sentido para quem recebe um mínimo de informação: por exemplo, saber que uma coisa é detectar a existência de óleo e outra é tirá-lo do fundo do mar.
Apesar a alta tecnologia nacional na exploração de campos oceânicos, é preciso levar-se em conta a profundidade e a definição dos pontos de perfuração na extensa camada Pré-Sal que vai de São Paulo ao Espírito Santo, sob a qual se encontra a reserva. Fontes originárias de entidades representativas dos engenheiros da Petrobras afirmam que o processo de exploração de tais jazidas será lento e exige investimentos pesados. Estimam que os primeiros resultados só apareçam depois de 2010. E ainda assim como extração-piloto no campo de Tupi.
É por isso que o aproveitamento como propaganda dos testes realizados na Bacia de Santos parece-me a representação de um teatro do absurdo tendo como cenário a Petrobras. É lamentável que o coroamento de tantos embates políticos, seculares, provoque risos, deboches, galhofas e, pior do que isto esconda a desastrosa negociação com o gás boliviano, e mascare o prenúncio de uma crise de energia sem que nenhuma ação seja empreendida para evitá-la, no mínimo minorá-la.
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