A desonestidade intelectual e o obreirismo
MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa@uol.com.br
Sou de um tempo em que a honradez era a moldura de uma série de qualidades indispensáveis à pessoa humana. E a honestidade como um todo era o pano de fundo. A sociedade humana enfocada pelo prisma das distinções de classe considerava a honradez e a honestidade como pré requisitos para a cidadania respeitável. Meus pais e avós legaram aos descendentes o culto à verdade que para eles era o passaporte para circular livremente em todas as camadas sócio-econômicas e sócio-políticas. E constatei que isto realmente funcionava.
Meu avô paterno e meu pai – aquele positivista e este marxista – acrescentavam ao princípio da probidade e da decência, o trabalho como afirmação da dignidade.
Não sei se devido à revolução industrial ou em razão da terceira grande divisão do trabalho trazida pela informática, ambos os fenômenos conduzidos pelo vilão das gentes, o capitalismo, impôs-se uma subversão moral no mundo. Já não é a honradez que prestigia o indivíduo, mas exclusivamente a posse de bens materiais, a propriedade e o dinheiro.
Dos EUA, centro imperial capitalista, irradiou-se para os quatro cantos do planeta o amoralismo filosófico e a desonestidade intelectual. Entre nós isto teve uma visibilidade solar com a triunfante carreira política de um pelego sindical que como um brilhante camelô vendeu às classes médias intelectualizadas de São Paulo e posteriormente do resto do país o mito da sua origem como trabalhador e uma esperança messiânica.
O sindicalismo brasileiro que veio de lutas e conquistas históricas – muitas delas estimuladas e concedidas pela ditadura populista de Getúlio Vargas – sofreu uma mutação durante o regime militar de 1964/1980. Por uma questão de sobrevivência, as antigas frações comunistas que atuavam nos sindicatos aliaram-se às frações católicas, confundindo-se com estas para ganhar a proteção da hierarquia eclesial. O grosso das organizações, porém, usufruiu as benesses excepcionais que o atrelamento ao Ministério do Trabalho ofereceu. E engrossou esta ação peleguista o surgimento dos sindicatos rurais e das associações comunitárias.
A resistência à ditadura militar coordenada pelo arcebispado de São Paulo, com dom Evaristo Arns à frente, levou os sindicatos de influência católica a conquistar espaços na mídia, e ressuscitar um desvio ideológico de experiências degeneradas, o “obreirismo”, desaparecido após a revolução russa de 1917, quando o anarco-sindicalismo cedeu terreno ao movimento comunista internacional sob a hegemonia da antiga União Soviética.
No ABC paulista, os sindicatos se destacaram e o obreirismo entusiasmou os pequeno-burgueses paulistas do serviço público e principalmente da USP, a assumir uma ação política. Foi lá, também, que nasceu politicamente Luiz Inácio Lula da Silva, decantado em prosa e verso como um trabalhador que chegou ao poder. Operário, coisa nenhuma: camponês de origem, que trabalhou como torneiro mecânico menos de dez anos, tornando-se dirigente sindical profissional (pelego) e depois funcionário bem pago do Partido dos Trabalhadores. Eleito para a presidência da República cooptou os intelectuais obreiristas e os pelegos seus contemporâneos, para formar o PT-governo.
Assim surgiu a desonestidade intelectual lulista-petista que influencia os menos avisados. É o alto-falante de incríveis distorções históricas como a “conspiração das elites” e o “golpismo da imprensa”, caldo de cultura onde Lula da Silva e seus parceiros cozinham o próprio golpismo e escondem a elite emergente que chegou ao poder. De um lado, põe-se em prática o projeto dos 20 anos de poder petista e, do outro, fortalece o enriquecimento rápido e ilícito da nova classe dominante.
Com o obreirismo e a desonestidade intelectual surgiu a ditadura da propaganda lulista-petista que esconde a incompetência administrativa dos pelegos, o dinheiro público escoando pelo ralo da corrupção, a compra explícita de parlamentares e a acumulação ininterrupta de promessas que jamais serão cumpridas. Pesquisas de opinião? Que nada… Os cabos eleitorais do coronelismo já faziam esta proeza distribuindo esmolas um século atrás.
Não são os números das pesquisas que entrarão na História, mas o capítulo nefasto do domínio da traição nacional de um partido que prometeu mudar as relações sócio-políticas e sócio-econômicas “deste País” e aderiu ao neoliberalismo, ao roubo descarado das verbas públicas, a infiltração na administração de incapazes presunçosos e fez um trabalhador- presidente que nunca trabalhou na vida…
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