Caruaru está em festa. E nem é São João. O Central enfrenta pela primeira vez o Palmeiras.
Mas em festa mesmo, está o cego Jacinto.
O cego Jacinto acordou satisfeito. Juntou todo o seu dinheiro e mandou comprar o ingresso. Vai matar um sonho antigo. Sonho dos tempos em que via o mundo.
Assistir a Academia do Palmeiras.
Ta certo que não tem Ademir, mas tem Valdívia. E ta certo que Jacinto já não tem os olhos, mas tem a razão. E a razão tem razões que a própria razão desconhece.
Jacinto mandou lavar sua roupa da missa. Engomada como pro domingo. Não importa que nas arquibancadas do Lacerdão ela fique molhada de chuva. Que agora deu pra chover todo dia nesse sertão. Coisas do fim do mundo.
Mas o cego Jacinto quer estar bem apresentado pra quando os jogadores do sul entrarem em campo. Ninguém imagina, mas cego entende de futebol. Quando o time adversário entra em campo, vaia. Quando o time da gente sobe o túnel é foguetório. No gol dos outros, a gente cala. No gol da gente, a gente explode.
Se perguntarem pro cego Jacinto porque torce pro verdão, ele negaceia. Diz que é motivo particular. Coisa de si mesmo pra si mesmo. Então muda de assunto e se aboleta a falar de Mestre Vitalino. Cego Jacinto tocou flauta com Mestre Vitalino desde criança. No tempo em que flauta era pífano.
Hoje à noite não é São João, mas é dia de festa em Caruaru. Disseram que o gramado anda verde. São Pedro mandou chuva pro sertão e pro agreste. Faz quinze dias que só chove, e o barulho da chuva chega junto do barulho do noticiário esportivo no antigo radinho de pilha ráiovaque do pobre ceguinho.
Fui perguntar ao cego Jacinto, se ele não sente um pingo de remorso por estar torcendo contra o time de sua cidade: O Central.
Ele me olha, como só olham os cegos, com a profundidade rara dos sábios e filósofos do sofrimento resignado, e diz. Baixinho, pra só nóis ouvir:
“Minha vista fui perdendo aos poucos. Primeiro o azul. Depois o vermelho. A claridade fui perdendo aos dias. No final, bem no finalzinho, só me restava o verde. Um verde escuro, depois um verde cinza. A única lembrança que eu trago da vida e dos campos de futebol, é esse verde longe. Esse verde esperança que é meu único bem guardado. Nas noites eu me sinto humanidade. Na penumbra, quando ninguém enxerga um palmo, sou ser vivente. Mas no dia, quando meus olhos buscam e só encontram esse vazio, é aquele verde quem me acalenta a alma. Hoje, eu sou Palmeiras. No resto do ano me conformo com o preto e branco do Central…”
Fonte: Roberto Vieira
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