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Poesia

Tecendo a Manhã

1


Um galo sozinho não tece uma manhã:

ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

O Poeta

João Cabral de Melo Neto (1920, Recife – 1999, Rio de Janeiro), Filho de Luís Antônio Cabral de Melo e de Carmen Carneiro Leão Cabral de Melo, João Cabral viveu parte da infânica nos engenhos da família nos municípios de São Lourenço da Mata e de Moreno. Com o regresso da família ao Recife, ingressou no Colégio dos Irmãos Maristas, aos dez anos, onde permanece até concluir o curso secundário.

Aos 18 anos, era freqüentador do Café Lafayette, ponto de encontro de intelectuais que residiam na capital pernambucana. Em 1940, a família transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde se estabeleceu definitivamente em fins de 1942. Nesse ano, João Cabral publicou seu primeiro livro de poemas, “Pedra do Sono”.

No Rio, em 1945, inscreveu-se no concurso para a carreira de diplomata. Ingressando no Itamarati, iniciou uma peregrinação por diversos países. Eleito membro da Academia Brasileira de Letras em 15 de agosto de 1968, tomou posse de sua cadeira em 6 de maio de 1969. Em 1984 foi designado para o posto de cônsul-geral na cidade do Porto (Portugal).

Em 1987, voltou a residir no Rio de Janeiro. Durante todos esses anos no exterior e no Brasil, desenvolveu a atividade poética, o que lhe valeu ser contemplado com numerosos prêmios, entre os quais o Prêmio José de Anchieta, de poesia, do 4o Centenário de São Paulo (1954); o Prêmio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras (1955); o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro; e o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, entre outros.

Marjorie Salu

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Marjorie Salu
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