HUMILDADE
Tanto que fazer!
livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.
Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis…
até o fim do mundo assinando papéis.
E os pássaros detrás de grades de chuva.
E os mortos em redoma de cânfora.
(E uma canção tão bela!)
Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca soubemos quem éramos,
nem para quê.
Cecília Meireles
A Poetisa
CECÍLIA MEIRELES (1901–1964) — Jornalista, educadora, cronista, realizou poesia das mais altas de nossa língua. Obras principais: Viagem, Vaga Música, Mar Absoluto, Retrato Natural, Romanceiro da Inconfidência, Metal Rosicler, Solombra.
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