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Poesia

CANÇÃO DE MIM MESMO

Eu celebro a mim mesmo,
E o que eu assumo você vai assumir,
Pois cada átomo que pertence a mim pertence a você.
Vadio e convido minha alma,
Me deito e vadio à vontade ….
observando uma lâmina de grama do verão.

Casas e quartos se enchem de perfumes ….
as estantes estão entulhadas de perfumes,
Respiro o aroma eu mesmo, e gosto e o reconheço,
Sua destilação poderia me intoxicar também, mas não deixo.
A atmosfera não é nenhum perfume ….
não tem gosto de destilação …. é inodoro,
É pra minha boca apenas e pra sempre ….
estou apaixonado por ela,

Vou até a margem junto à mata sem disfarces e pelado,
Louco pra que ela faça contato comigo.
A fumaça de minha própria respiração,
Ecos, ondulações, zunzuns e sussurros ….
raiz de amaranto, fio de seda, forquilha e videira,

Minha respiração minha inspiração ….
a batida do meu coração ….
passagem de sangue e ar por meus pulmões,
O aroma das folhas verdes e das folhas secas,

da praia e das rochas marinhas de cores escuras,
e do feno na tulha,

O som das palavras bafejadas por minha voz ….
palavras disparadas nos redemoinhos do vento,
Uns beijos de leve …. alguns agarros ….
o afago dos braços,
Jogo de luz e sombra nas árvores enquanto oscilam seus galhos sutis,

Delícia de estar só ou no agito das ruas,
ou pelos campos e encostas de colina,
Sensação de bem-estar …. apito do meio-dia….
a canção de mim mesmo se erguendo da cama e cruzando com o sol.

Walt Whitman

O Poeta

Em 1857, na França, Charles Baudelaire deu a público a primeira edição de seu revolucionário Flores do Mal, livro que lhe valeria o título de primeiro poeta moderno. Dois anos antes, no lado de cá do Atlântico, o jornalista americano Walt Whitman (1819-1892), lançara Folhas de Relva (Leaves of Grass), outro livro de poemas igualmente ousado e inovador.

Entre os franceses, o livro de Baudelaire causou alentado escândalo. As Flores do Mal brotavam na contramão do bom-gosto vigente, trazendo para a poesia temas proibidos, como o sexo, a morte e a decadência humana. Uma coletânea em que o primeiro poema chamava o leitor de hipócrita. Com as Folhas de Relva não foi muito diferente. Mas, em certos aspectos, o impacto pareceu ainda maior. Em seu livro Baudelaire ainda manteve de pé as regras clássicas da métrica e da rima.

Whitman dinamitou tudo isso e adotou um verso completamente selvagem, livre de todas as amarras tradicionais. Também seus temas são novos: o trabalho, a vida nas cidades, camaradagem, amor e sexo. Uma poética completamente nova, por dentro e por fora. Do ponto de vista das idéias, Folhas de Relva foi o único livro de poesia de Whitman.

Ao longo da vida, ele reescreveu os poemas da primeira edição, acrescentou numerosos outros, mas o volume manteve sempre o título original. São tantas as mudanças de uma edição para outra que é prudente sempre indicar a versão com que se está trabalhando. A própria estrutura do livro é diferente de tudo que se conhecia até então. Originalmente, eram doze poemas, sem título. Caudalosos, cada um deles continha vários poemas. Somente a “Canção de Mim Mesmo” (Song of Myself), como ficou conhecido o poema inicial, tem cerca de 1340 versos e pode ser dividida em mais de 50 partes independentes, embora não haja divisões explícitas.

Os trechos acima (todos da “Canção de Mim Mesmo”) foram extraídos da edição publicada em 2005 pela Editora Iluminuras, com tradução de Rodrigo Garcia Lopes. Esse volume, bilíngüe, se mantém fiel à primeira edição.

Antes já havia outras traduções, a exemplo de Folhas das Folhas de Relva, antologia vertida pelo poeta Geir Campos.

Marjorie Salu

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Marjorie Salu
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