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Poesia

O QUARTO BRANCO

O óbvio é difícil
de provar. Muitos preferem
o oculto. Eu também preferia.
Eu escutava as árvores.

Elas guardavam um segredo
que estavam prestes
a me revelar —
e não o fizeram.

Veio o verão. Cada árvore
de minha rua tinha sua própria
Xerazade. Minhas noites
faziam parte de suas histórias
selvagens.

Entrávamos em casas escuras,
casas sempre mais escuras,
silenciosas e abandonadas.
Havia alguém de olhos fechados
nos pisos superiores. O medo e o fascínio
me mantinham bem desperto.

A verdade é nua e crua, disse a mulher
que sempre se vestiu de branco.
Ela não saiu muito de seu quarto.
O sol apontava uma ou duas coisas
que tinham sobrevivido intactas na longa noite.

As coisas mais simples,difíceis em sua obviedade.
Essas não faziam barulho.
Era um dia do tipo que as pessoas chamam “perfeito”.
Deuses disfarçados de grampos de cabelo,
espelho de mão,um pente com um dente faltando?
Não! Não era isso.

Apenas as coisas como são,
mudas, imóveis, sem piscar,
naquela luz brilhante —
e as árvores esperando a noite.

Charles Simic (Tradução: Carlos Machado)

O Poeta

Nascido em Belgrado, Iugoslávia, em 1938, o poeta, tradutor e ensaísta americano Charles Simic mudou-se para Paris aos 15 anos. Em 1954, com a mãe e um irmão, transferiu-se para os Estados Unidos a fim de se juntar ao pai, que já residia lá. Seus primeiros poemas foram publicados em 1959, mas sua estréia em livro deu-se em 1967, com o volume What The Grass Says (O que diz a relva).

Professor de inglês, poeta consagrado, Simic ganhou o prêmio Pulitzer de 1990 com o livro The World Doesn’t End (O mundo não se acaba). Como tradutor, publicou várias coletâneas de poemas vertidos para o inglês de idiomas como francês, sérvio, croata, macedônio e esloveno.
A infância vivida nos duros anos da Segunda Guerra Mundial representou uma experiência marcante para Simic e que certamente influencia até hoje seu trabalho poético.

“Em 6 de abril de 1941, uma bomba caiu sobre um edifício bem em frente a minha casa. Lembro que me tirou da cama. É minha primeira recordação”, conta ele numa entrevista publicada pela revista Agulha (em espanhol). Um traço que a crítica costuma apontar na poesia de Simic são as imagens surrealistas, com a recorrência de termos como árvores, deuses, demônios e escuridão.

No entanto, não há em seus versos as invenções delirantes dos surrealistas clássicos. Seus textos procuram extrair o que pode haver de absurdo ou fantástico nas coisas comuns. Um exemplo disso é dado pelo poema “The White Room” (O Quarto Branco). Nele, Simic busca o transcendente naquilo que é óbvio e está ao alcance da mão. Mas o poeta recusa a idéia de deuses metamorfoseados em objetos do dia-a-dia: grampos de cabelo, pentes, espelhos de mão.

Isso certamente não ajuda a entender o mundo. O poema “The White Room” pertence ao volume The Book of Gods and Devils, de 1990. Desse mesmo livro de deuses e demônios extraí o poema “In The Library” (Na biblioteca). Amante dos livros, o poeta vê neles deuses e anjos amontoados que parecem sussurrar coisas — somente para os íntimos. Numa entrevista concedida em 1972, Simic declara: “A poesia é órfã do silêncio. As palavras nunca correspondem exatamente à experiência que está por trás delas”.

É como se o silêncio fosse um mundo ou uma dimensão perdida que a poesia procura resgatar. Embora seja hoje uma das vozes mais originais e influentes na poesia americana, Simic não é conhecido no Brasil. Aqui, ninguém nunca se interessou em publicar uma antologia com poemas dele.

Marjorie Salu

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Marjorie Salu
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