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Poesia

Embriagai-vos!

É necessário estar sempre bêbado
Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo,
que vos abate e vos faz pender para a terra,
é preciso que vos embriagueis sem cessar.

Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.
Contanto que vos embriagueis.

E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio,
na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto,
despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida,
perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro,
ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme,
a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala,
perguntai-lhes que horas são;
e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro,
e o relógio, hão de vos responder:
É hora de se embriagar!

Para não serdes os martirizados escravos do Tempo,
embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.

Charles Baudelaire

O Poeta

Charles Pierre Baudelaire (1821-1867), poeta francês precursor do Simbolismo.
Com versos rigorosamente metrificado e rimados, que prefiguram o Parnasianismo, Baudelaire trata de temas e assuntos que vão do sublime ao escabroso, investindo liricamente contra as convenções morais que permeavam a sociedade francesa dos meados do século XIX.

Destacou-se também como crítico de arte, com L’Art Romantique, 1860 (A Arte Romântica), e com as traduções do contista norte-americano Edgar Allan Poe. Entre os ensaios, destacam-se Les Paradis Artificiels,1860 (Os Paraísos Artificiais), sobre a ingestão de drogas e seus efeitos estéticos. A vida de Baudelaire ficou marcada pelos desentendimento como o padrasto, que chegou a enviá-lo à Índia e a submetê-lo a conselho judiciário, visando a recuperá-lo da vida boêmia que levava em Paris.

Diversos poemas de As Flores do Mal foram cortados do livro como imorais, por decisão legal, num processo que só foi anulado em 1949. Na poesia de Baudelaire já se encontram traços que serão dominantes no Modernismo do século XX.

  • Este poema vai ecoar em Carlos Drummond de Andrade, num poema, aliás em versos, chamado “Poema da necessidade”, que diz assim: “É preciso estudar volapuque,/ é preciso estar sempre bêbado,/ é preciso ler Baudelaire,/ é preciso colher as flores/ de que rezam velhos autores.”

Marjorie Salu

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Marjorie Salu
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