Categorias: Notícias

Monumental crise de autoridade

Vamos abrir aspas para o jornalista e professor Gaudêncio Torquato, que nos oferece uma análise retilínea da crise do setor aéreo e a maior tragédia da aviação brasileira:

“A maior tragédia aérea da “História desse país”, na seqüência do maior número de acidentes de aviação, acontece no bojo da maior crise de autoridade do atual governo. A gestão sob o comando de Luiz Inácio Lula da Silva, autoproclamada a mais “histórica” na esfera de recordes de bondades e mudanças, consegue ser o contraponto na pontuação de situações caóticas, que denotam muita desorganização na ação governamental. Até parece que estamos sob uma monarquia tropicalista, conduzida por um soberano que reina festivamente, mas não governa. Não se veja nessa inferência insinuação de fragilidade do mandatário ou menosprezo ao simbolismo por ele encarnado. O homem é um ícone. Mas seu perfil foge ao enquadramento imposto pela moderna técnica da administração, que abriga uma nomenclatura pontilhada de conceitos como eficácia, produtividade, controles, maximização e efetividade.

Luiz Inácio gosta dos piques e repiques de palanque e se deixa levar pela emoção que se renova no encontro com as massas, de onde tira a vitamina para fruir as glórias de habitante do Olimpo.A facilidade com que o presidente se desvencilha dos intrincados laços de crises intermitentes realça o caráter majestático de um estilo voltado para alimentar duas tendências que, de maneira dicotômica, atuam no seio da administração. De um lado, a luta de organismos e grupos para alcançarem maior grau de autonomia e, de outro, a batalha do comando central para unir setores dispersos. O Ministério é um arquipélago de grandes e pequenas ilhas, cuja integração fica por conta do núcleo palaciano, chefiado pela ministra Dilma Rousseff com a assessoria do Ministério da Articulação Institucional. Se as colônias não conseguem independência, a matriz tem dificuldades de colar as partes no todo. E o rei? Ora, sua majestade não tem apetência para ser soldador.

Por isso, na ocorrência de catástrofes, o arquipélago fica sem direção. Para salvar as aparências, vale-se da liturgia. O que fazer para dar uma satisfação à sociedade ante o maior desastre da aviação brasileira? Decretar luto por três dias, como se isso bastasse para amenizar as dores das famílias dos mortos e atenuar a perplexidade social. O espetáculo inclui, ainda, um gabinete de crise, a indicar que o governo entrou de plantão para enxugar as lágrimas e consolar os filhos que chamam pelos pais. Uma patacoada”.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP

Miranda Sá

Compartilhar
Publicado por
Miranda Sá

Textos Recentes

DA CONSCÊNCIA

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br) Nesta última semana da campanha eleitoral, escorrego sobre um tapete reza no tobogã da consciência,  admirando…

20 de outubro de 2026 16h17

DAS PAIXÕES

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br) Civilização significa tudo aquilo que os seres humanos desenvolveram ao longo dos anos para se sobrepor…

13 de outubro de 2026 9h27

MODO GAVIÃO

MIRANDA SÁ ( Email: mirandasa@uol.com.br) Apesar de não usar aparelhos eletrônicos em viagens aéreas, ficava sempre curioso quando o comissário…

7 de outubro de 2026 17h28

BANÂNIA

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br) Diante da bruzundanguisse que assistimos no Brasil de hoje, é impossível para os que pensam livremente…

28 de setembro de 2026 18h51

números.com

MIRANDA SÁ (E-mail mirandasa@uol.com.br) Quando acompanho as bombásticas divulgações de pesquisas eleitorais os números que me vêm à cabeça não…

22 de setembro de 2026 18h03

castigo.com

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br) Visitando a UTI da Gramática, como de vez em quando faço, encontrei lá prostrada a palavra…

13 de setembro de 2026 20h17