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José Antônio da Silva


Desmatamento


O Poeta

Trabalhador rural, na infância conduzia bois junto com o pai. Por isso, a imagem destes animais sempre esteve muito presente em sua obra. Viveu de fazenda em fazenda, e há dúvidas sobre quando começou a pintar. Em um de seus livros, “Romance de minha vida”, ele conta que desenhava desde pequeno, em folhas de café e na areia.

Mas também fala que fez visitas ao céu e ao inferno, portanto há que se analisar cuidadosamente suas palavras. O certo é que em 1930 Antônio foi para São José do Rio Preto, onde fez sua primeira exposição em 1946 e foi “descoberto” pelos críticos Paulo Mendes de Almeida e Lourival Gomes. Estes se empenharam para trazer sua obra para São Paulo, o que aconteceu em 1948, ano de sua primeira exposição individual na Galeria Domus.

O sucesso foi grande e entre os compradores de sua obra estava Pietro Maria Bardi, que adquiriu 10 quadros para o Museu de Arte de São Paulo. Foi aceito para a primeira Bienal, em 1951, teve um quadro seu incorporado ao acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York, fez exposições internacionais. Mas sua mais célebre exposição talvez tenha sido a que não participou: a quarta Bienal. Deixado de fora pelo júri, que incluía Lourival Machado, Silva ficou profundamente chateado e irritado.

Certa noite acordou e disse à sua esposa que iria matar os membros do júri. No entanto, ao invés de fazê-lo literalmente, foi para seu ateliê e pintou o enforcamento dos cinco membros (O Enforcamento do Júri, 1967, Museu de Arte Primitivista José Antônio da Silva). Em cima da forca, uma figura que lembra Jesus Cristo e que segura uma plaqueta: “A justiça divina não falha”.

Fios ligam o pescoço dos enforcados a uma figura ao lado, representando o inferno: “Aqui é o esquinto (sic) dos infernos”. Abaixo dos enforcados, a frase: “(…) o mesmo crítico que mi (sic) deu o título de maior primitivo brasileiro foi o primeiro a me jogar fora da Bienal(…)”.

Talvez esta obra resuma um pouco da personalidade e obra controvertidas de José Antônio da Silva que, em 1980 recebeu um museu em sua homenagem: o Museu Municipal de Arte Primitiva José Antônio da Silva, em São José do Rio Preto, São Paulo. Apesar de sua origem humilde, de seu pouco estudo e domínio da linguagem culta, Silva era conhecido por sua facilidade de expressão, de articulação de idéias e pensamentos, o que o levou a ser, além de pintor, autor de livros, como o “Romance de minha vida”, publicado em 1949, “Maria Clara” em 1970 e “Sou pintor, sou poeta” em 1981.

As cores vibrantes, um colorido quase circense, dão tom às suas obras. Primitivista, teve como tema constante em suas telas o ambiente rural, principalmente cenas onde aparecem bois e plantações, e também as manifestações culturais do povo, como os ritos religiosos. Como ele mesmo explicou em seus versos: “pinto a lavoura/ Também pinto as pastaria/ Pinto a empregada e a patroa/ Pinto a Joana e a Maria./ Pinto carroça e carreta/ Pinto carro e carretão/ Pinto o pedreiro na picareta/ Pinto o colono no enxadão” (em “Sou pintor, sou poeta”, de 1982).

Sua última exposição individual foi no museu de Arte Sacra em São Paulo: “A paixão e morte de Nosso Senhor segundo Silva”. José Antônio Silva morreu em 1996, na cidade de São Paulo.

Marjorie Salu

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Marjorie Salu
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