Governos levam sustos quando não estão cientes de que a eleição não lhes dá só a prerrogativa festiva do poder. Implica o cumprimento de tarefas. E quando o senso comum julga-se subtraído, não enxerga nos governantes e nas instituições esforços no incremento do bem maior, a reação natural é a grita. Confundi-la propositadamente com intenções golpistas decorrentes de inconformidade eleitoral seria apenas pueril, não revelasse também o vezo autoritário de dar ao exercício da crítica e da cobrança um caráter criminoso. Só em ditaduras há crime de opinião.
Na democracia, reza norma acaciana, a cidadania, a discordância, a prática da política, o embate, o contraditório, não se restringem ao ato de votar. Fosse assim, teríamos de admitir como cabíveis manifestações apenas de dois em dois anos – ocasiões em que sempre se pode atribuí-las a intenções mesquinhas de poder. No período da entressafra eleitoral, por esse raciocínio o País fica obrigado a dizer amém a tudo a fim de permitir ao governo “construir o Estado” em paz. Ainda que a concepção dessa construção não esteja em conformidade com a opinião de uma boa parcela da população. Seja ela rica pobre ou remediada.
Dora Kramer, jornalista
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