Insisti em intitular este texto em francês para evitar a disputa na acentuação da palavra no brasilês que aparece regionalmente com o agudo Croché ou com o circunflexo, Crochê. O verbete dicionarizado, é um substantivo masculino de etimologia francesa, “Crochet”, que significa gancho, por causa do formato da agulha com uma ponta curvada, usada no uso de uma tecelagem com fios de lã, algodão ou barbante.
É um trabalho manual que requer uma técnica especial para o movimento das agulhas e muita paciência para entrelaçar fios contínuos e criando malhas usadas na confecção de diversos utensílios domésticos e vestuários.
Este processo manual de tecelagem de boinas, tapetes e peças decorativas. É incerta a sua origem, a bibliografia histórica desta arte registra que o seu surgimento se deu na pré-história; e alguns pesquisadores têm a teoria que levam à China aonde foram encontradas bonecas feitas com ela, e outros mais aceitam o seu início na Arábia.
Uma coincidência incitou-me a curiosidade sobre o crochê. No Ginásio, ganhei um concurso promovido pela Cadeira de História Geral proporcionando-me uma bolsa para assistir um curso sobre a Revolução Francesa em Paris, com tudo pago.
As paredes do quarto que aluguei eram forradas com crochê, acho que para a acústica; e a pousada era próxima à Place de la Concord, local aonde foi instalada em 20 de setembro de 1792 a Convenção Revolucionária, eleita após a queda da monarquia para criar uma Constituição.
Foi neste evento que nasceu os conceitos políticos-ideológicos de Centro, Direita e Esquerda, graças à localização das bancadas no anfiteatro que marcou uma intensa luta pelo poder; os girondinos (Direita) propunham uma monarquia constitucional; os jacobinos (Esquerda) defendiam a República Democrática; e o Centro, comedido, oscilava de acordo com as propostas apresentadas.
No início dos trabalhos (chamado pelos historiadores como Primeiro Período) prevaleceu a ética parlamentar e um verdadeiro concurso de oratória em que se distinguiram, à direita os conservadores Jean-Marie Roland, o Marquês de Condorcet e Pierre Victurnien Vergniaud; e à esquerda Robespierre, Marat e Danton os representantes da pequena burguesia revolucionária.
O Segundo Período marcou a manifestação mais realçada do Centro composto de intelectuais burgueses que desejavam a união de todos os republicanos. Esta união se tornou impossível pela pressão dos deputados de esquerda levados à radicalização impulsionados pelos chamados “exércitos populares”.
Assim o extremismo passou a dominar o Terceiro Período. À Esquerda, os “calças frouxas” (sains cullottes) exigiam o sufrágio universal, a reforma agrária, o tabelamento de preços de alimentos e certas frações até a abolição da propriedade privada.
O radicalismo derramou o caldo efervescente da disputa ideológica, disputando com a Direita que postulavam o voto censitário, a proteção à propriedade privada e o liberalismo econômico, terminando por conquistar a simpatia do Centro.
Viu-se então as posições mais moderadas e o receio de uma segunda revolução deram uma maioria eventual para limitar os avanços constitucionais instalando a República como queria o Centro ou a volta da monarquia com caráter constitucional.
A agitação das massas nas ruas e a mobilização dos exércitos populares armados, deu à ala esquerdista voltada contra uma intervenção estrangeira coordenada pela Inglaterra. Maximilien de Robespierre, exigiu a instauração de uma ditadura e, assim, surgiu o “Período do Terror”.
O republicanismo radical de Robespierre permitiu o avanço da extrema esquerda que tornou, o período mais sangrento da Revolução entre 1793 e 1794. Instalado para executar o rei Luís XVI e a rainha Maria Antonieta, um instrumento letal projetado para uma morte rápida por decapitação – a Guilhotina – tornou-se o principal móvel de execução.
E, depois de executar os monarcas e a alta nobreza, passou a perseguir suspeitos de conspirar contra a República, terminando por atingir também seus próprios líderes; donde vem a máxima do jornalista Jacques Mallet du Pan que escreveu: “Assim como Saturno, a revolução devora seus próprios filhos”.
Sentadas ao pé do cadafalso, juntavam-se as famosas tricoteiras e crocheteiras, mulheres do povo, ligadas aos revolucionários mais radicais. Elas acompanhavam tecendo a queda das cabeças decapitadas, tornando-se o símbolo da participação popular na Revolução.
Representantes da mobilização política do povão, as nossas crocheteiras certamente participarão conosco, brasileiros honestos e verdadeiros patriotas, quando a polarização eleitoral dos populistas corruptos for corporificada e levada à guilhotina eleitoral.
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br) Jornalista por vocação, fazendo folhetins na pré-adolescência e indo aos 17 anos à redação de órgãos…
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