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CORNÉLIA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

Filhos? Melhor não tê-los! Mas se não os temos. Como sabê-los? (Vinicius de Moraes – “Poema Enjoadinho”)

Fico curioso como é o ensino infantil de hoje. No meu tempo (faz muitos, e muitos anos, nisto) a gente ouvia histórias que enalteciam o heroísmo do nosso povo, provérbios que despertavam nossa visão do mundo, fábulas que ensinavam a raciocinar e contos históricos exemplares.

Ainda no Curso Primário – equivalente ao Fundamental de hoje -, uma professora nos estimulando para a leitura, aconselhou que lêssemos uma história antiga, dos 153 a.C. referida à senhora romana Cornélia, uma viúva ainda jovem que recusava propostas de casamento para educar os filhos.

Estes, Tibério e Caio, que entraram para a História como “Irmãos Graco”, receberam uma excelente educação da mãe, mulher de invejável cultura, que falava grego e conhecia a literatura greco-romana.

Diz-se que Cornélia era dona de uma beleza ímpar, mas vestia-se simplesmente, e embora tivesse uma grande fortuna, não usava joias; isto levou uma socialite  da época a lhe perguntar o porquê de não usar adornos preciosos; ela então apontou para os filhos e pronunciou uma frase que ficou consagrada: -“Haec ornamenta mea” (“eis as minhas joias”).

Quase dois mil anos depois, o orgulho de Cornélia pelos filhos foi reforçado pelo genial fabulista La Fontaine, ganhando o mundo com a expressão “Mãe Coruja”…. Sei que a imensa maioria dos tuiteiros conhecem a história d’ “A Coruja e a Águia”, que foi magistralmente adaptada para a meninada brasileira por Monteiro Lobato.

Mas, sem querer aborrecer ninguém, vou relembrar a fabulação:  – “Passeando pela floresta a Coruja encontrou-se com a Águia, voraz comedora de passarinhos. Então apelou à predadora pela salvação dos seus filhotes, ainda no ninho: – “Senhora Águia, peço-lhe que se encontrares umas avezinhas bonitinhas, com biquinhos bem feitos e olhos brilhantes, eu ficaria muito grata se não os comesse, pois são meus filhos…”.

A Águia mostrou-se cordata e prometeu respeitar o pedido, mas quando a Coruja voltou ao ninho encontrou vazio pois tinham comido seus filhotes. Voltou então aflita ao poleiro da Águia e disse-lhe: – Como foste falsa, dona Águia. Prometeste que não comeria meus filhinhos, mas os devorastes…”.  Então teve como resposta: – “Imagina! Encontrei uns pássaros pequenos e depenados, sem bicos e de olhos fechados, não pensei que fossem os seus…”.

Cornélia viveu no séc. II a.C. e La Fontaine publicou o seu livro no dia 31 de março de 1668…. No século 20, a minha geração recebeu e percebeu ambas versões do amor de mãe extremado, e acompanhou a bela trajetória dos “Irmãos Graco” sacrificados pelas ideias avançadas que defenderam, como fim do latifúndio e da servidão.

Ainda hoje há quem defenda a exploração do homem por outro homem e resguarde a propriedade rural improdutiva; este atraso traz, também, os que acreditam que a Terra é plana e que uma pandemia virulenta pode ser curada com remédio para malária ou vermífugo.

Entre os males da política, por exemplo, é não distinguir os filhos de Cornélia e da Coruja. Talvez seja esta confusão mental que nos leve a reconhecer que Platão foi além da ficção para a realidade, quando criou a figura de um rei que contestava a invenção do alfabeto; porque temos no Brasil a versão de um reizinho que reprova o uso da vacina.

Com este negativismo de Bolsonaro, assistimos o retorno ignorante de uma era anterior às grandes descobertas científicas das vacinas, com o pioneiro Edward Jenner que a criou para a varíola, e depois Max Theiler (malária), Emil von Behring (tétano), Pasteur (raiva), Albert Calmette e Camille Guerin (Tuberculose), e os especiais da guerra contra a poliomielite, Sabin (oral, com vírus atenuado) e Salk (injetável).

Honra e glória para o compatriota Oswaldo Cruz, que para vacinar contra a febre amarela e salvar o Rio de Janeiro, enfrentou o negativismo amplo e irrestrito de uma população rude e boçal que é representada hoje, tristemente, por um presidente da República!

Marjorie Salu

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Marjorie Salu

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