Certas decisões de autoridades públicas deveriam ser censuradas. Ou, pelo menos, expostas ao público em envelopes plásticos escuros, lacrados. É o caso da deliberação tomada pela direção da Câmara dos Deputados pra resolver o impasse da exposição da foto do travesti Rogéria. O episódio, relado aqui no blog na tarde de quarta (7), teve um desfecho bem mais constrangedor do que a foto que se pretendia censurar.
Decidiu-se o seguinte, diferentemente das outras fotos que integram a exposição “Heróis”, do fotógrafo Luiz Garrido, a imagem de Rogéria (abaixo) foi confinada numa cabine. Na entrada, foi afixado um aviso com os seguintes dizeres: “Por determinação da Câmara dos Deputados, esta cabine acolhe a fotografia de Rogéria, cuja exibição aberta ao público não foi permitida”.
Ouvida pela repórter Laura Mattos, da Folha, Rogéria, cujo nome de batismo é Astolfo Barroso Pinto (!), disse que o veto à sua foto a leva a “morrer de rir deste país”. Deu um conselho aos jornalistas: “Vocês da imprensa têm que cair de pau (!!) neles.”
Vai abaixo a entrevista:
– O que achou de o Congresso ter decidido colocar a sua foto dentro de uma cabine?
Menina, acho muito engraçado, tenho que morrer de rir. Eles acabam dando mais publicidade para a foto.
– Em sua opinião, é censura?
É uma censura, sim. Quem tem que cair de pau neles são vocês da imprensa. Eu não posaria nua, de pau para fora, jamais, a não ser que me pagassem R$ 50 milhões para eu não me arrepender never [nunca]. Aquela foto é uma brincadeira com o Astolfo [Barroso Pinto, seu nome verdadeiro]. Fotografamos há cerca de três anos, e o Luiz Garrido [fotógrafo] nem achou que fosse fazer esse sucesso absoluto.
– Acha curioso que o Congresso se incomode com essa imagem?
É suspeito que o Congresso censure. Quando um cara tem consciência de sua masculinidade, esse tipo de coisa [a foto] não o afeta. Aí você coloca [no texto da reportagem] etc. Se eu estivesse de pau de fora, seria um acinte, mas é uma coisa engraçada. O governo não é chegado à arte, ele é chegado a banalidades.
– Você quer dizer os congressistas ou o governo?
Os dois. E que não saia nenhum processo para mim [por essas declarações] porque esse pessoal é filho da mãe. Mas os brasileiros gostam de mim porque nunca fiquei dentro do armário, nunca neguei que fosse homem, nunca fiz plástica ou escondi a idade, sou autêntica. Esse pessoal [do Congresso] ficou chocado porque eu sou honesta.
– Você foi vítima da censura no governo militar?
Nunca. Uma vez um delegado de polícia quis encrencar comigo e pedi ajuda para a dona Marina, uma censora. Ela mandou ele me deixar em paz e continuei o meu trabalho.
PS.: Incomodada com tanta polêmica, com tanto desgaste, a direção-geral da Câmara decidiu, na manhã desta quinta-feira (8), cancelar toda a exposição do fotógrafo Luiz Garrido. Rogéria, agora, nem na cabinete fechada nem fora dela. O mais curioso em toda essa história é o seguinte: os pelos pubianos de Rogéria teriam entrado e saído do Congresso sem que ninguém os percebesse se a Câmara não tivesse lançado sobre eles o facho de luminosidade de sua censura obscurantista.
Fonte: Josias de Souza
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