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Artigo de fim de semana

Brasil Sindicatão: a República dos Pelegos

MIRANDA SÁ, jornalista (mirandasa@uol.com.br)

Está em várias cabeças, como numa rede telepática, o repúdio às falsas representações sindicais que contrariam a concepção original dos sindicatos de trabalhadores. Ou seja, já não é a ocupação profissional que necessita de um sindicato representativo, mas são espertalhões ou grupos de aproveitadores que criam sindicatos de fachada para obter vantagens pecuniárias ou políticas.

Do noticiário jornalístico, recolhemos a informação de que durante a gestão Lupi no Ministério do Trabalho foi registrado um sindicato por dia, máquinas caça-níqueis desempenhando falsamente o papel de representação classista.

Essa fragmentação – atomização, seria melhor dito – da delegação corporativa enfraqueceu o movimento sindical e, o que é pior, levou à degenerescência o sindicalismo como forma de organização social.

Não é preciso dizer que isto é fruto de um desvio político que foi combatido pelos sindicalistas autênticos durante muitos anos. É a intervenção fascista do Governo, imprimindo a dependência política e financeira dos sindicatos através de um imposto sindical, a contribuição dos trabalhadores de um dia de salário.

Esse imposto gera a fortuna de mais de R$ 2,5 bilhões em 2010 distribuída entre as centrais sindicais e mais de 14 mil entidades. O Brasil tem atualmente sindicatos de variadas e divergentes categorias, e até de categorias inexistentes, sem prestar qualquer assistência aos afiliados, exceto a simulação anual de reivindicações por melhores salários e condições de trabalho.

Dá tristeza reconhecer que a liberdade sindical garantida pela Constituição como direito dos trabalhadores, tenha extinguido o ideal e a luta de milhares de heróis anônimos, que desde o século 19, até a ascensão de Sua Majestade Metalúrgica, lutaram contra o egoísmo e a ganância patronal de capitalistas selvagens.

Se os anarco-sindicalistas, comunistas e socialistas do século passado voltassem à vida, abominariam as estruturas fantasmagóricas das caricatas instituições atuais, que só aparecem nas chamadas datas-base salariais ou em greves político-partidárias.

Os ecos do passado ressoariam contestando a corporação fascista de empregados e empresários, e odiariam a enganosa existência de associações sindicais de servidores do estado e do governo, e até de aposentados!

A astúcia de alguns, que alimentam esta situação, investe contra a sociedade. Por que fingem reivindicar ilusoriamente e intuir greves contra o povo que lhes paga para defendê-lo. Isto ocorre com professores, médicos, pessoal da Educação e Saúde, condutores de transportes coletivos e até de juízes e promotores; enfim, toda a sequência de carreiras da administração pública.

Defendemos a tese de que todo o trabalho deve ser remunerado de acordo com o seu valor social. Se os poderes político e econômico negam os salários, vencimentos e subsídios justos devem ser combatidos como anti-sociais. Então, a busca da justiça pelo valor do trabalho proletário exige uma ação direta contra os detentores do poder.

Infelizmente, o pensamento socialista é deturpado neste Brasil Sindicatão – a República dos Pelegos como nunca, em tempo algum da nossa História. Esta situação leva o sindicalismo a se transformar em empresa de rendimentos e resultados, sem favorecer os trabalhadores e muito menos a população. Apenas oferece vantagens em dinheiro e benefícios políticos a falsos líderes.

Minha intuição kantiana (anschaulich) me encaminha a desejar que este festim licencioso com as verbas públicas deva ter urgentemente um fim. Ou acabamos com o famigerado imposto sindical ou reconheceremos um regime burocrático-policial como aqueles que foram enterrados com os cadáveres de Hitler, Mussolini e Stálin…

Miranda Sá

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