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Entre a inflação e a recessão

Eis as tensões que afligem a economia mundial e, pois, as bolsas e os mercados financeiros:

1. Há inflação no mundo. É puxada pelo preço de alimentos e de energia. No caso de alimentos, preços sempre dependem de fatores conjunturais – choveu, não choveu na hora certa, clima bom, clima ruim nos principais países produtores – mas isso acaba se ajeitando. Sobe hoje, cai amanhã. O problema atual é que se nota uma tendência de alta firme no preço da comida, em consequência do forte aumento da demanda nos países emergentes, especialmente na Ásia e, mais especialmente ainda, na China e na Índia. É da vida. Esses países crescem, a população ganha renda e… come mais. Mais demanda, oferta ainda atrasada, sobem os preços.

2. Claro que isso é também boa notícia para os países produtores, Brasil incluidíssimo. Há um poderoso estímulo para aumento da produção e assim funcionam as coisas. Pelo manual, a produção aumenta e os preços caem. Mas é difícil imaginar quando, pois a demanda cresce de maneira muito forte e consistente. E a produção agrícola tem enfrentado restrições ambientais pelo mundo afora. Ou seja, por enquanto ao menos, a tendência é alimentos caros.

3. Energia – na base acontece a mesma coisa. Países ganham renda, passam a consumir mais energia, de todos os tipos. E o próprio crescimento acelerado demanda energia. E neste caso, é ainda mais complicado para a produção alcançar a demanda. Por exemplo: é claro que vale a pena procurar petróleo mesmo em águas profundas e caras. Mas isso não se faz do dia para a noite. Idem para a construção de hidrelétricas ou usinas nucleares. E também há restrições ambientais para a instalação de todos os tipos de usinas.

4. A inflação nos EUA está rodando um pouco acima dos 4% ao ano. Isso no índice cheio. Retirados os preços de alimentos e energia, a inflação cai para menos de 2%. O Fed, banco central dos EUA, olha para o núcleo, pois comida e energia são muito voláteis, diz o ensinamento tradicional. De fato, esses preços continuam sendo voláteis, mas em patamares cada vez mais elevados.

5. Por outro lado, esses são problemas da expansão econômica muito forte pelo mundo afora. Bons problemas, digamos assim. Nesse caso, bastaria que os bancos centrais elevassem os juros e, assim, segurassem o ritmo de crescimento.

6. Mas aí tem a crise do crédito. Há um ambiente desconfiança no sistema financeiro – há créditos podres e investimentos perdidos, mas ainda não se sabe a extensão e a profundidade do buraco e quem, quais bancos estão dentro dele. Na dúvida, investidores não emprestam para bancos e estes não emprestam entre si nem para os clientes, dado o temor de que o freguês esteja quebrado. Consequência: crédito escasso (crise de liquidez) e juros mais altos, e, se continuar assim, recessão, pois a economia não anda sem capital e crédito.

7. Nesse ambiente, os bancos centrais deveriam reduzir os juros e dar dinheiro ao mercado (emprestar mais para os bancos). É o que fizeram, é o que estão fazendo. Mas não estariam colocando fogo na inflação?

8. O medo: no esforço contraditório de combater ao mesmo tempo a inflação e a recessão, o mundo pode cair na pior combinação possível, a estagflação, estagnação com inflação.

9. A esperança: se os remédios funcionarem a tempo, o mundo sofre uma desaceleração nos próximos meses, com preços contidos. Cresce menos, mas também com menos inflação.

10. Sim, a crise do crédito começou nos EUA, no setor imobiliário, mas tudo o resto está espalhado pelo mundo. Globalização funciona para os dois lados. Quando o mundo cresce, todos vão. Quando dá problema, todos apanham.

Fonte: Carlos Sardenberg

Marjorie Salu

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Marjorie Salu
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