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Mantega é a prova de que o pior cego é o surdo

Como a maioria das pessoas, Guido Mantega imagina que, na conversa, o importante é a palavra. Engano. O relevante num diálogo, diria Nelson Rodrigues, é a pausa. É na pausa que duas pessoas se entendem, é na pausa que os interlocutores entram em comunhão.

Desde o Waterloo da CPMF, Mantega vem dizendo isso e aquilo. Fala dos cortes orçamentários. Discorre sobre os tributos que talvez tenham de ser elevados. Menciona a necessidade de criar um imposto novo para bancar a saúde.

Lula achou que o auxiliar falava demais. Passou-lhe um pito. Recomendou-lhe calma, moderação. Desdisse parte do que Mantega dissera. Era a hora de o ministro render homenagens à pausa. Mas Mantega tem fixação pela palavra.

Menos de 24 horas depois da carraspana, o ministro veio aos microfones para dizer que o “o presidente não fez reclamação. Isso é uma interpretação dos jornais. Assim como houve má interpretação sobre o que eu falei.”

Ou seja, na Brasília de Lula o pior cego é aquele que não ouve. Mantega não é homem de incertezas. A dúvida, como se sabe, é autora de insônias abissais. Assim, melhor sentenciar que Lula “não fez uma reclamação.” A densa, a sólida, a maciça certeza do ministro vale por um sonífero.

Enquanto Mantega dorme o sono dos justos, Lula vai ao rádio para dizer o óbvio: sem a CPMF, o mundo não acabou. O rigor fiscal será mantido. Sem prejuízo da manutenção das políticas sociais e dos investimentos do PAC.

Ao longo desta semana, Mantega e Lula têm muito a conversar. Se o presidente disse o que disse em público, imagine-se o que não dirá a portas fechadas. Para sorte da República, a “vítima” ministerial aceita bem o seu papel. O que torna, por assim dizer, natural o comportamento do algoz.

Fonte: Josias de Souza

Marjorie Salu

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Marjorie Salu
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