PSDB quer evitar que aliado de Sarney suceda Renan
A manobra realizada nesta segunda-feira (19) por Arthur Virgílio (AM) teve dois alvos visíveis e um par de alvos ocultos. Às claras, o líder do PSDB mirou em Renan Calheiros (PMDB-AL), que se preparava para trocar a renúncia ao comando do Senado pela absolvição; e em Lula, que deseja eliminar os obstáculos à votação da CPMF. Às escondidas, Virgílio levou à alça de mira o desafeto José Sarney (PMDB-AP) e seu pupilo Edison Lobão (PMDB-MA).
Um dos articuladores da renúncia de Renan, Sarney opera nos subterrâneos para acomodar na cadeira de presidente do Senado o protegido Lobão. Algo que ocorreria, segundo os planos que traçara, na próxima semana, nas pegadas da votação do segundo processo contra Renan Calheiros, aquele em que é acusado de comprar empresas de comunicação em Alagoas em sociedade secreta com o usineiro João Lyra.
Presidente da comissão de Justiça do Senado, Marco Maciel (DEM-PE) convidou Virgílio para relatar o processo de Renan, já aprovado no Conselho de Ética. Em condições normais, seria um procedimento vapt-vupt. Escalado para executar a mesma tarefa no primeiro processo de Renan (o da pensão custeada com verbas da Mendes Júnior), o tucano Tasso Jereissati (CE) apresentou o seu relatório no mesmo dia.
Virgílio, porém, enxergou na encomenda de Maciel uma avenida de oportunidades. Perguntou ao interlocutor se poderia “tencionar” o ambiente. Tensão é algo que não combina com a afabilidade de Maciel. Mas o DEM, partido do senador, não deseja senão convulsionar a tramitação da emenda que prorroga o imposto do cheque até 2011. E Maciel assentiu.
Na seqüência, Virgílio, num gesto de cortesia política, informou a Tião Viana (PT-AC), presidente interino do Senado, acerca de suas intenções. Disse que não apresentaria o seu relatório antes de quarta-feira (28) da semana que vem. Insinuou que um outro senador oposicionista deve pedir vista do processo, adiando a deliberação da CCJ para a primeira semana de dezembro. Uma fase do calendário em que, pelos planos de Lula, o governo já teria removido do caminho da CPMF o “problema Renan”.
Além de acomodar o governo definitivamente no colo de Renan, Virgílio jogou, segundo suas palavras, “água no chope” de José Sarney. Para não deixar dúvidas quanto às suas intenções, o senador conversou também com o líder do PMDB, Valdir Raupp (RO), um ativo soldado da milícia congressual de Renan. Aconselhou-o a providenciar um peemedebista palatável para ocupar a cadeira de presidente do Senado.
Raupp e Renan, seduzidos por Sarney, aderiram à candidatura não-declarada de Lobão. Entre quatro paredes, o líder do PMDB enxerga defeitos em todos os outros pretendentes ao comando do Senado –os peemedebistas José Maranhão (PB), Pedro Simon (RS) e Garibaldi Alves (RN). Só vê virtudes no preferido de Sarney. Um nome que o PSDB e parte do DEM rejeitam.
Se quiser, o consórcio governista pode abortar a manobra de Virgílio. Basta que as legendas que dão suporte a Lula se associem num requerimento pedindo a transferência do processo contra Renan da comissão de Justiça para o plenário do Senado. Virgílio reconhece que o regimento faculta esse tipo de reação aos governistas. Mas avisou a Tião Viana: “Se isso acontecer, vamos sair do terreno da Convenção de Genebra e partiremos para a guerrilha do Vietnã. O que não seria bom para ninguém.”
Abespinhado, Renan Calheiros, que já esboçara o discurso de renúncia que leria na sessão de quinta-feira, ameaçou retomar a cadeira de presidente. Sabe, porém, que o retorno envenenaria o ambiente, pondo em risco uma absolvição que todos dão como certa. Assim, o mais provável é que Renan renove o seu pedido de licença, que vence na próxima segunda-feira (26). Uma hipótese que prolongaria a interinidade de Tião Viana pelo menos até que fosse desatado o nó em que Arthur Virgílio amarrou, num mesmo embrulho, Renan, Lula, a CPMF, o PMDB, Sarney e Lobão.
Nas conversas que manteve com Tião e Raupp, Virgílio disse que, se quiser absolver Renan, o governo, o PMDB e, sobretudo, o PT terão de assumir o desgaste. “Essa conta nós não vamos pagar”, disse. Pela contabilidade de Renan, a absolvição virá com a ajuda de pelo menos dois votos tucanos e cinco ‘demos’.
Fonte: Josias de Souza
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