O AMOR BATE NA AORTA
Cantiga do amor sem eira nem beira,
vira o mundo de cabeça para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for, é o amor.
Meu bem, não chores,
Hoje tem filme de Carlito!
O amor bate na porta
O amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.
Entre uvas meio verdes, meu amor,
não te atormentes.
Certos ácidos
adoçam a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.
Amor é bicho instruído.
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara
nunca às vezes sara amanhã.
Daqui estou vendo o amor irritado,
desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas,
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender…
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), é considerado um dos principais poetas da literatura brasileira devido à repercussão e alcance de suas obras. Nasceu em Minas Gerais, em uma cidade cuja memória viria a permear parte de sua obra. Posteriormente, foi estudar em Belo Horizonte e Nova Friburgo.
Formado em farmácia, com Emílio Moura e outros companheiros, fundou “A Revista”, para divulgar o modernismo no Brasil. Durante a maior parte da vida foi funcionário público, embora tenha começado a escrever cedo e prosseguido até seu falecimento, que se deu em 1987 no Rio de Janeiro, doze dias após a morte de sua única filha, a escritora Maria Julieta Drummond de Andrade. Além de poesia, produziu livros infantis, contos e crônicas.
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