O cavalo
No campo matinal
um cavalo assediado
pelo zumbir das moscas
mastiga avidamente,
o capim do universo.
Os insetos volteiam
no anel azul do mundo
– esfera sem passado
nos ares momentâneos.
Não há mitologia
espalhada na relva
que é verde, sem caminhos,
longe das longes terras.
E o cavalo sobrado
da inenarrável guerra
e da paz defendida
à sombra das espadas
mata a fome no campo
onde não jazem mortos
nem retroam clarins.
Sua crina estremece.
E seus cascos escarvam
a plácida planície
coberta pelos pássaros.
Já sem fome, relincha
para os céus que não guardam
as fanfarras e flâmulas
e a fumaça da História,
e se muda em estátua.
Ledo Ivo
O Poeta
Nasceu no dia 18 de fevereiro de 1924, em Maceió (AL). Em 1940, transferiu-se para Recife, onde passou a contribuir com a imprensa local e a conviver com um grupo literário de que faria parte Willy Lewin, o qual haveria de exercer grande influência em sua formação cultural.
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