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Poesia

O Guesa

Canto Primeiro

Eia, imaginação divina!

Os Andes

Vulcânicos elevam cumes calvos,

Circundados de gelos, mudos, alvos,

Nuvens flutuando — que espetac’los grandes!

Lá, onde o ponto do condor negreja,

Cintilando no espaço como brilhos

D’olhos, e cai a prumo sobre os filhos

Do lhama descuidado; onde lampeja

Da tempestade o raio; onde deserto,

O azul sertão, formoso e deslumbrante,

Arde do sol o incêndio, delirante

Coração vivo em céu profundo aberto!

………………………………………

“Nos áureos tempos, nos jardins da América

Infante adoração dobrando a crença

Ante o belo sinal, nuvem ibérica

Em sua noite a envolveu ruidosa e densa.

“Cândidos Incas! Quando já campeiam

Os heróis vencedores do inocente

Índio nu; quando os templos s’incendeiam,

Já sem virgens, sem ouro reluzente,

“Sem as sombras dos reis filhos de Manco,

Viu-se… (que tinham feito? e pouco havia

A fazer-se…) num leito puro e branco

A corrupção, que os braços estendia!

“E da existência meiga, afortunada,

O róseo fio nesse albor ameno

Foi destruído. Como ensanguentada

A terra fez sorrir ao céu sereno!

“Foi tal a maldição dos que caídos

Morderam dessa mãe querida o seio,

A contrair-se aos beijos, denegridos,

O desespero se imprimi-los veio, —

“Que ressentiu-se, verdejante e válido,

O floripôndio em flor; e quando o vento

Mugindo estorce-o doloroso, pálido,

Gemidos se ouvem no amplo firmamento!

“E o Sol, que resplandece na montanha

As noivas não encontra, não se abraçam

No puro amor; e os fanfarrões d’Espanha,

Em sangue edêneo os pés lavando, passam.

“Caiu a noite da nação formosa;

Cervais romperam por nevado armento,

Quando com a ave a corte deliciosa

Festejava o purpúreo nascimento.”

Assim volvia o olhar o Guesa Errante

Às meneadas cimas qual altares

Do gênio pátrio, que a ficar distante

S`eleva a alma beijando-o além dos ares.

E enfraquecido coração, perdoa

Pungentes males que lhe estão dos seus —

Talvez feridas setas abençoa

Na hora saudosa, murmurando adeus.

Sousândrade

O Poeta

Joaquim de Sousa Andrade

(Vila dos Guimarães, atual Guimarães MA, 1833 – São Luís MA, 1902).

Formou-se em Letras pela Sorbonne e em Engenharia de Minas, em Paris (França), entre 1853 e 1857. Publicou seu primeiro livro de poesia, Harpas Selvagens, em 1857. Viajou por vários países até fixar-se nos Estados Unidos, onde publicou a obra poética O Guesa, sucessivamente ampliada e corrigida nos anos seguintes.

No período de 1871 a 1879 foi secretário e colaborador do periódico O Novo Mundo, dirigido por José Carlos Rodrigues em Nova York (EUA). Republicano, em 1890 foi presidente da Intendência Municipal de São Luís MA. Realizou a reforma do ensino, fundou escolas mistas e idealizou a bandeira do Estado. Foi candidato a senador, em 1890, mas desistiu antes da eleição.

No mesmo ano foi presidente da Comissão de preparação do projeto da Constituição Maranhense. Lecionou Língua Grega no Liceu Maranhense, também em 1890. Sua obra poética inclui ainda Harpa de Oiro, 1889/1899, publicado postumamente, em 1969, e Inéditos, publicado em 1970.

Sobre sua poesia, o poeta Augusto de Campos afirmou: “no quadro do Romantismo brasileiro, mais ou menos à altura da denominada 2ª geração romântica (conceito cronológico), passou clandestino um terremoto. Joaquim de Sousa Andrade, ou Sousândrade, como o poeta preferia que o chamassem, agitando assim, já na bizarria do nome, aglutinado e acentuado na esdrúxula, uma bandeira de guerra.” Foi um poeta extremamente inovador para seu tempo, cuja obra apenas recentemente passou a ser estudada.

Marjorie Salu

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Marjorie Salu
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