Chamem o ladrão
O brado imortal de Chico Buarque de Hollanda traduziu, nos anos de chumbo, o perigo obscuro representado pela polícia. A ameaça ao cidadão era o Estado. A poesia macabra clamava pelo socorro marginal contra a legalidade assassina.
O Supremo Tribunal Federal, guardião máximo da legalidade, acaba de avisar aos brasileiros que eles não têm mais a quem recorrer. A liberdade foi seqüestrada pelo Estado.
Há mais de quatro meses, um dos principais jornais do país está sob censura, por contrariar os interesses de um político sob suspeita, o maranhense José Sarney. A mordaça foi decretada por um desembargador amigo da família investigada. Não, não estamos falando do Irã.
A decisão do Supremo de manter a censura ao jornal “O Estado de S. Paulo” ocorreu dois dias depois de o presidente Lula declarar que a imprensa faz mal ao país.
Lula tinha manobrado para o aliado Sarney não cair, apesar de flagrado em pesado tráfico de influência. Sarney não caiu. Agora, à luz do dia, na cara de todo mundo, o STF entra no conluio. Quem, afinal, vai tirar os brasileiros da merda?
Jimmy Carter? Anistia Internacional? Conferência de Haia? Onde estão as ONGs boazinhas, as transparências, as máquinas de soltar releases alarmistas?
Na democracia brasileira, hoje, uma instituição paira sobre todas as outras: o filho do Brasil e suas vontades. Índices de popularidade substituem o Estado de Direito. Lula pode fazer o que quiser, falar o que quiser, proteger os bandidos que quiser. Está imune à lei. E vocês estão achando graça nisso.
Chamem o ladrão. Mas verifiquem antes se ele não é protegido do Supremo.
Fonte: Guilherme Fiúza
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